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O CORDEL - PESQUISAS ANTIGAS - PARTE II


 
Com enredos sobre o Rio  (e xilogravura do bamba nessa arte, CIRO FERNANDES, busto de mulher e bondinho ao fundo), o gênero LITERATURA DE CORDEL se renova, vira tema de estudos e xodó de turistas.  Cordel 'lembra' Nordeste, imaginação sugere a Feira de São Cristóvão, porém......... o gênero, de origem portuguesa, ganha corpo e alma cariocas, realidades - vida na favela, brigas de camelôs, fofocas envolvendo celebridades, estórias de figuraças no Centro, escândalos com políticos locais tudo isso vira CORDEL.  O Rio dá rima.  A cidade abriga, num casarão do bairro de Santa Teresa, a sede da Academia Brasileira de Literatura de Cordel  (ABLC) - cordel carioca, objeto de teses em universidades.   -----     O Rio virou sertão.  JOSÉ FRANKLIN, ex-mecânico, ex-comerciante de material de construção e livreiro, começou em 2013 a fazer e vender folhetos de cordel na Feira Solidária do Complexo do Alemão, comunidade da Zona Norte do Rio.  Os primeiros títulos abordavam do direito de família  ("Madalena e o conselho tutelar") à ficção científica  ("O marechal russo e a guerra espacial"), sem muito sucesso - diferentes visitantes sugeriram versos sobre a favela, onde vive há 33 anos - o sujeito grandalhão enfileira as obras sobre a pequena mesa de um restaurante...  Escreveu "Dico e a invasão do Alemão", 43 sextilhas abertas  (estrofes de 6 linhas, rima nos versos pares, 11 páginas, incluindo referências de "...E o vento levou" e Shakespeare:  ocupação do Alemão pelas forças armadas, 2010, e a resistência quixi=otesca de um traficante.  ------   Sucesso público, cordéis (ou suveires) não encontrados em outros lugares.  Investiu no filão:  um apagão trouxe caos noturno, efeitos de uma enchente, um dedicado à formação da comunidade... - relato surreal uniu a mais pura tradição nordestina com o cenário carioca, "A chegada de Lampião no Complexo do Alemão":  "Viu a UPP novinha / e apontou o trabuco / tantos policiais juntos / nem em todo Pernambuco."   -----  De GONÇALO FERREIRA DA SILVA (texto) e CIRO FERNANDES  (ilustrações):  "O cordel no Rio de Janeiro  ---  Era o Rio de Janeiro / a capital federal / quando a Nação Nordestina / buscando novo ideal / chegou em paus-de-arara / à distante capital. // Junto com os imigrantes / vinham os vates repentistas, / emboladores de coco, / os poetas cordelistas, / os nossos mais talentosos / e genuínos artistas. // Logo promoveram encontros / em um ambiente sadio, / os poetas da caneta, / os vates do desafio, / era o início da história / do cordel no grande Rio.  //  O cordel saiu das feiras / periféricas das cidades, / voou do frágil barbante / para as universidades / e passou a registrar vidas / de grandes celebridades. // Hoje em dia o cordel trata / da popularização /da ciência entre camadas / da nossa população / sem acesso ao livro caro / de refinada edição. //  Graças á Academia / e ao seu colegiado / agora o nosso cordel, / feliz e realizado / é por todos aplaudido, / pelo mundo respeitado."   -----   Origem de cordel nos menestréis medievais;  sem ir tão longe, em 1700. já impressos populares em Portugal, com temas populares, como o provocador "Deve ou não o homem bater em sua mulher?"  Xilogravura na capa e narrativa em versos, feiras nordestinas no fim do século XIX.   -----  O primeiro CORDEL CARIOCA é "A paixão de Renato e Helena", de ARTHUR DA SILVA TORRES, registrado na Biblioteca Nacional em 1926, pioneirismo no Sudeste à frente de São Paulo;  em 1945, retirantes de quem originaria a famosa Feira de São Cristóvão:  carne de sol, manteiga de garrafa, redes de dormir e... cordelistas e repentistas.  Repente não é cordel e sim confronto  (um sujeito faz rimas para atacar o outro, que revida com mais rimas0 e improviso feito na hora, 'de repente'  /já o cordel faz parte do repertório oral do repentista,  antes de ser escrito após revisões/.- ideal sempre perfeição rítmica e sonoridade, isto é, métrica e rima.   -----   O cearense GONÇALO FERREIRA DA SILVA, 77 anos /2015/, veio para o Rio em 1965, feira já estabelecida no então Estado da Guanabara.  Entre os cordelistas, destacaram-se ELIAS DE CARVALHO, mestre AZULÃO e APOLÔNIO ALVES DOS SANTOS - deste, nos anos 50:  "Tinha graça o carioca / se misturar com cimento / como faz o nordestino / que chega ficar cinzento / carioca só procura / um emprego que figura / moral e comportamento."   -----  O folheto de cordel pede uma imagem na capa  (poeta-xilógrafo só o pernambucano J. BORGES), o ofício da xilogravura é a arte de riscar desenhos na madeira e gravá-los em papel, técnica no Rio de MARCELO SOARES, JOEL BORGES e CIRO FERNANDES.  Ciro, 73 anos, nasceu em Uiraúna interior da Paraíba, já desenhava desde criança e Rio se especializou em xilogravura e outras bossas - figuras de rosto comprido e olhos grandes chegaram a capas de livros, cartazes de teatro e exposições - ele conhece madeira pelo cheiro:  cedro, mogno e cumaru  (recomenda chá para beleza feminina.  "Lá em casa se lia muito cordel e com ele minha mãe me alfabetizou."   -----   Surgiu a ABLC, criada por GONÇALO em 1988 nos moldes de ABL, à revelia de quem dispensava formalidade ("Não precisa!"):   40 membros vitalícios, substituídos por morte - sedes provisórias até chegar ao casarão perto do centro da cidade;  no térreo, parte do acervo de 13 mil cordéis.  Uma cláusula no estatuto:  "25% das cadeiras para acadêmicos residentes fora do Rio de Janeiro".  O nascido petropolitano, nenhuma ascendência nordestina, ISAEL DE CARVALHO, titular da cadeira 13, do mesmo subúrbio carioca de RAIMUNDO SANTA HELENA, viu folhetos de cordel na vitrine de uma livraria, semelhança com o que já produzia - poemas rimados, humor, cotidiano - , pediu dicas na academia, descobriu a técnica no... décimo poema - entre os temas abordados, "Caso goleiro Bruno", elogios a Raul Seixas e Michael Jackson.  Forte para o cordel irônico o filão de biografias não-autorizadas.  Obsessão de versejar o mundo, mesmo sem lucro algum.  Num cenário majoritariamente masculino, MARIA DE LOURDES ARAGÃO, a "Dalinha Jacunda", cearense, há 40 anos no Rio, cadeira 25, "...mas não adianta aprender a rimar e netrificar se nao tiver a poesia na alma" - a cordelista já cantou o Rio no cordel "Cidade Maravilhosa", e prepara coletânea sobre a cidade, vários autores.
 
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FONTE:
 
"Cordel carioca" - Rio, revista O Globo, 17/5/15.
 
(Segue.)

Rubemar Alves
Enviado por Rubemar Alves em 30/11/2019
Código do texto: T6807199
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Sobre o autor
Rubemar Alves
Salto - São Paulo - Brasil, 52 anos
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