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9- Os elementos da NARRATIVA: o NARRADOR




Quer seja Conto Tradicional, quer seja Narrativa Literária – romance, conto ou novela, a narrativa é contada pelo NARRADOR.

Ou seja, para haver história, tem que haver alguém que a conte:
É o NARRADOR:

O NARRADOR, e o AUTOR da história – são coisas diferentes:

= O AUTOR é quem ESCREVE, é o criador da história.

= O NARRADOR é um artifício. O NARRADOR faz parte da ARTE de CONTAR:
Por exemplo:

* No romance DOM CASMURRO, de Machado de Assis:
O PROTAGONISTA, ou seja, A PERSONAGEM PRINCIPAL, conta a sua própria história. Logo no Capítulo I, o romance começa assim:

“Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, ENCONTREI no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que EU conheço de vista e chapéu. Cumprimentou-ME, sentou-se ao pé de MIM” – etc, etc

Vemos bem que quem vai narrar toda a história é o próprio protagonista:
Ele vai ser o NARRADOR.

Ora, como sabemos, tudo isto é FICÇÃO:
Então, contar uma história na PRIMEIRA pessoa do singular, é um procedimento artístico normal!
É uma maneira de tornar a história muito verosímil, muito sugestiva, como se assim fosse muito “verdadeira”:
Dizemos que é um NARRADOR PARTICIPANTE.

Encontramos um outro exemplo muitíssimo interessante deste tipo de NARRADOR, em MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS, igualmente de Machado de Assis:
Ele abre o primeiro capítulo de forma deveras original, e mesmo divertida - ou irónica - pondo o defunto Brás Cubas a contar-nos como decidiu narrar a história da sua vida!
"Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto que o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adoptar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa  foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo." (1)


* Como todos sabemos, há outra maneira de contar as histórias:

A história também é contada em todos os seus detalhes, inclusive até nos é apresentado o íntimo das personagens – os seus pensamentos, os seus sentimentos, as suas intenções!
Mas a narrativa é contada na TERCEIRA pessoa gramatical:
Temos um narrador que sabe TUDO sobre todas as personagens, sobre todas as circunstâncias da história – é o Narrador OMNISCIENTE:

Como exemplo, recorremos ao romance ANNA KARÉNINA, de Leon Tolstoi:

Logo no primeiro capítulo, na segunda frase, lemos:
“Tudo era confusão em casa dos Oblonski. A mulher soubera que o marido mantinha uma relação com a antiga preceptora francesa e informou-o de que não podia continuar a viver com ele na mesma casa. ( ... ) A mulher não saía dos seus aposentos, o marido não vinha a casa havia três dias.”

Todo o romance vai ser contado na 3ª pessoa – na 3ª pessoa do singular, ou do plural.


* Agora, compreendemos que o NARRADOR é uma criação, uma invenção do Autor:
A escolha do tipo de narrador faz parte da opção artística do Autor.



(1) Podemos recordar o que foi dito no capítulo 3, sobre a diferença entre 'romance clássico' e 'romance contemporâneo':
No romance "clássico" a história começa a ser contada pelo princípio; no romance "contemporâneo", a história pode ser começada quer pelo princípio, quer pelo meio, quer pelo fim...
Claro que Machado de Assis não é nosso "contemporâneo". Mas foi um grande percursor, na medida em que é um autor dos finais do século XIX (Machado de Assis: 1839-1908):
"Memórias Póstumas de Brás Cubas" foi publicado em 1881;
"Dom Casmurro", foi publicado em 1899.
ESTA NOTA tem como finalidade exemplificar como os grandes criadores usam os diferentes processos artísticos sem observarem estritamente as regras! A ARTE está em saber combiná-las, tirando delas o melhor efeito!



© Myriam Jubilot de Carvalho
2020
Myriam Jubilot de Carvalho
Enviado por Myriam Jubilot de Carvalho em 07/12/2020
Reeditado em 10/12/2020
Código do texto: T7129735
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Myriam Jubilot de Carvalho
Portugal
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