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10- Os elementos da Narrativa. O TEMPO e o LUGAR

Recordemos os capítulos 1 e 8:
Já sabemos que a ACÇÃO corresponde à questão O QUÊ: que FACTOS é que aconteceram.
É fácil percebermos que se uma história é longa, os factos narrados são distribuídos em diferentes CAPÍTULOS;

Também já sabemos que a PERSONAGEM ou PERSONAGENS correspondem à questão QUEM; e que para que a história tenha impacto, caracterizamos física e psicologicamente as personagens.

À questão ONDE, corresponde o LOCAL (ou vários locais) pois a ACÇÃO tem que ter um local para acontecer!

Hoje, vou servir-me de um episódio da minha infância para exemplificar a resposta às questões ONDE e QUANDO, que nos dão o LUGAR e o TEMPO.



Memórias da minha infância

Eu nasci ainda a Segunda Guerra Mundial se encontrava no seu auge. Claro, não me lembro de nada disso. Mas recordo muito bem o que os meus Pais costumavam contar... Havia escassez de alimentos, escassez de pão... Para que as pessoas não se atropelassem nas lojas, havia senhas para só se poder adquirir quantidades mínimas de cada produto... Era o racionamento...
Corria o Verão de 1951... Eu teria uns 7 anos... Lembro-me que andava muito feliz. Sentia-me muito importante pois tinha passado da 1ª para a 2ª classe.
Uma prima do meu Pai veio passar alguns dias de férias em nossa casa. Ela era professora primária, solteira. Teria uns 40 anos... Mas não vinha sozinha.
Não sei bem como foi... Sei que, talvez a meio ou no final da Guerra, a Cruz Vermelha Internacional tinha recolhido crianças que tinham ficado órfãs e vagueavam sozinhas e desamparadas pelas ruas das cidades destruídas, por essa Europa fora... A Prima Celeste tinha recolhido uma dessas crianças... Era uma menina austríaca, mais velhinha do que eu... Lembro-me dela... Crescidinha, talvez uns onze ou doze anos... Usava os cabelos compridos até aos ombros, e prendia-os do lado direito com um estreito laço...
Era muito calada... com o seu olhar muito sombrio, nunca sorria...
Ela já falava algumas frases em Português, pois já se encontrava em Portugal havia bastante tempo, e a Prima Celeste levava-a com ela, para as suas aulas...
Lembro-me que ela vestia uns vestidos desengraçados, alguns já lhe ficavam curtos... A Prima Celeste foi na verdade muito bondosa, mas não tinha gosto com a Inger, tratava-a com bastante indiferença... Muito triste...
Eu era muito pequena, mas como me tinham explicado a razão da sua presença entre nós, eu pensava – “Esta menina não fala comigo porque vive mergulhada em pensamentos muito tristes...”
Como não havia camas bastantes para tanta gente, puseram a Inger a dormir na minha cama... Certa noite, acordei... acordei com um abraço... A Inger tinha passado um braço sobre os meus ombros, e percebi que chorava... Apertei-lhe as mãos contra o meu pequeno coração... E foi então que ela falou... Lembro-me como se fosse hoje. No meio da noite, alguma luz entrando pela vidraça da janela... E ela, num Português mal amanhado, mas eu percebi tudo:
– Quando vejo Vocês todos a conversar... Lembro-me meus Pais... A Mãe era muito bonita... como a tua... Mais bonita! Minha Mãe tocava violino... Eu estou sempre a ouvir o violino... Vocês estão à mesa, e eu estou na minha casa, a minha Mãe, a minha Avó, o meu Pai... O rádio, as notícias... Os aviões... Muito barulho, muitas bombas... Um dia, fui à loja, comprar pão... Quando voltei... já não estava lá nada...
Depois, sacudiu-me, e perguntou muito angustiada:
– Percebes o que eu disse?
E eu respondi, chorando como ela:
– Sim, percebi tudo... Mas eu sou tua amiga...


1: Comecemos pelo TEMPO:

O TEMPO da narrativa corresponde à questão QUANDO – quando é que os factos narrados aconteceram...

Nesta pequena narrativa, temos vários tipos de TEMPO, pois apesar de tão breve, este texto contempla DOIS MOMENTOS DIFERENTES, ambos do PASSADO:

=A: Um MOMENTO principal: um momento que é o PRESENTE da Narrativa:
“Corria o Verão de 1951... Eu teria uns 7 anos...”
ESTE é o TEMPO principal, o TEMPO DA NARRATIVA, o TEMPO que a NARRADORA está a RECORDAR:
A Narradora recorda que nesse Verão, uma prima do seu Pai viera passar uns dias em sua casa e trazia com ela uma Menina, a Inger, protegida pela Cruz Vermelha Internacional...

=B:
Mas tanto a Narradora como a Inger, cada uma à sua maneira, recordam-nos um TEMPO ANTERIOR, os anos da Segunda Guerra Mundial. Nomeadamente a Inger recorda os tempos dramáticos que viveu no seu país natal, e como perdeu os Pais...
ESTE é também um TEMPO do PASSADO. Um PASSADO anterior ao verão de 1951...

Em A e em B, temos exemplos de TEMPO CRONOLÓGICO:
é um tempo REAL, um tempo marcado no calendário – um tempo que situa as personagens numa certa época;

= mas há ainda um TEMPO “diferente”... Há um tempo que se passa no íntimo da personagem, no mundo interior da Inger:
aquele tempo em que a personagem se recolhe em si mesma, quando as cenas do presente lhe recordam o seu próprio passado familiar, a sua Mãe, a Avó, o Pai... E como de um momento para o outro, tudo perdeu...
Inger desliga-se do ambiente real que a rodeia, ou seja, desliga-se da ACÇÃO circundante, e tudo o mais passa a decorrer apenas dentro da sua saudade:
É o TEMPO PSICOLÓGICO

PORTANTO:
Numa dada narrativa, há vários momentos:
a história acontece em vários momentos diferentes...
E há momentos de recolhimento, em que uma dada personagem se recolhe em si mesma, alheando-se do mundo real que a rodeia, e se entrega aos seus próprios sentimentos e reflexões...

Podemos dizer que este TEMPO PSICOLÓGICO dá profundidade psicológica às personagens!



2: O LUGAR

O LUGAR corresponde à questão ONDE:
Nesta pequena história, a ACÇÃO decorre em vários LOCAIS diferentes:

= Em casa da narradora;

= Num local indeterminado, que a narradora nem sequer nos informa qual foi. O local onde a Prima Celeste vivia e era professora primária. A narradora não tem a preocupação de nos dar essa informação. Provavelmente, essa informação não era relevante para o desenvolvimento da sua história...

= Num país do Estrangeiro, afectado pela Segunda Guerra Mundial. Sabemos vagamente que foi a Áustria, pois a narradora informa que a Inger era austríaca. Mas não sabemos em que cidade ela vivia...
Talvez porque essa informação só viria complicar a narrativa... Essa informação fugiria ao objectivo da narrativa...



Então, qual teria sido o objectivo desta breve narrativa?
Em primeiro lugar, este conto surgiu agora mesmo, para ilustrar o tema de hoje.
Mas ficou, certamente, um pequeno memorial a recordar como é destruidora a barbaridade das guerras... E como no meio da barbárie, há gestos generosos.
Myriam Jubilot de Carvalho
Enviado por Myriam Jubilot de Carvalho em 11/12/2020
Reeditado em 12/12/2020
Código do texto: T7133495
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Myriam Jubilot de Carvalho
Portugal
118 textos (1856 leituras)
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