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12- A NARRATIVA – as marcas da Narrativa: o Pretérito Perfeito e o Pretérito Imperfeito do modo Indicativo


Temos estado a observar a NARRATIVA nos seus diferentes elementos.
Também sabemos que para haver NARRATIVA, é necessário que haja uma HISTÓRIA e que queiramos contar como aconteceu:
Isto é, é necessário que haja uma ACÇÃO da qual queiramos falar.

Também já definimos a ACÇÃO como uma sucessão de factos.

E também já dissemos que para bem falarmos desses FACTOS, é necessário observar as tais CINCO QUESTÕES de Quintiliano:

O QUÊ – a história = a ACÇÃO – que se DESENVOLVE ao longo de vários
EPISÓDIOS ou Capítulos
QUEM – as várias PERSONAGENS
ONDE – os vários LOCAIS onde a história vai acontecendo
COMO...
e... PORQUÊ...
e
QUANDO – o TEMPO – que pode ser encarado sob diferentes perspectivas:
O TEMPO da NARRATIVA – o Presente da narrativa
e
Remontar, recuar, recordar o PASSADO,
Prever ou antecipar o FUTURO,
E ainda uma particularidade a que chamámos o Tempo Psicilógico.

Também falámos da INTRODUÇÃO e da CONCLUSÃO, e dissemos que uma narrativa pode ter, ou não ter, INTRODUÇÃO, bem como pode ter ou não ter CONCLUSÃO...
Enfim, quanto aos ELEMENTOS da NARRATIVA, já tocámos em muitos pontos essenciais...

Mas falta-nos ainda ver outros pormenores:

Se nós contarmos uma história... contemplando apenas essas questões, teremos uma história apenas no seu “esqueleto”... uma história sem subtilezas...
Por exemplo:
Vamos observar esta breve sequência:

 “Ele CHEGOU. A Mãe FALOU. A namorada ZANGOU-SE... ”

As palavras que assinalámos em maiúsculas, falam-nos de ACÇÕES: as palavras que nos proporcionam falar das ACÇÕES são os VERBOS:
Ou seja, para compreendermos uma narrativa, temos que recorrer à Gramática!
Acontece muitas vezes, que as pessoas ficaram com muito má impressão       dos seus tempos de escola, porque aprenderam a Gramática apenas decorada, sem lhe entenderem a razão de ser...

Espero não corrermos agora esse risco, novamente. Pois a Gramática é muito interessante!
A Gramática fornece-nos os “instrumentos” que nos permitem COMPREENDER uma história com maior acuidade!

***

Voltemos ao enunciado acima:
“Ele CHEGOU. A Mãe FALOU. A namorada ZANGOU-SE... ”

Talvez pudéssemos fazer daqui uma história...
Pois estas três frases, apenas, não passam de um pobre apontamento... um “esqueleto” do que poderá vir a ser uma coisa com algum interesse.

Então, vamos tentar:

REGRESSO A CASA

Naquela tarde, Francisco CHEGOU a casa muito alterado. "VINHA" muito corado, e a Mãe OBSERVOU:
– Vens todo encarniçado!... Está muito frio lá fora?
Ele RESPONDEU:
– Sim, está frio. Ainda por cima, perdi o autocarro, e não quis ficar à espera do seguinte! Vim a pé!
A Mãe EXPRIMIU a sua preocupação:
– Chegas todo cansado. Não vês que isso te faz mal?
O rapaz ENCOLHEU os ombros e FOI até ao seu quarto. TIROU a gabardine, ENFIOU o velho casaco de malha, e DIRIGIU-se à cozinha.
A namorada já lá "ESTAVA". DISSE-lhe:
– Estou aqui a preparar-te um café, vai-te aquecer!
Francisco nem TEVE tempo de agradecer. A Mãe CHEGOU e OBSERVOU:
– Não podes fazer esses disparates. Depois, queixas-te que te dá uma crise de asma...
Aí, a jovem NÃO PÔDE conter-se:
– D. Josefa! Lá está a Senhora com os seus excessos! Ele tem que fazer uma vida normal! Quis vir a pé? Pois fez muito bem! O exercício só lhe faz bem! Obriga-o a respirar mais fundo!
A futura sogra VIROU as costas. Mas FOI RESMUNGANDO:
– Com os teus cuidados, é que ele há-de ir longe!...
Francisco DISSE:
– Deixa-a lá... Não a chateies! Ela já não muda... – E PUXOU a jovem para junto de si, SENTOU-a no colo, e BEBERAM os dois a ‘bica’.

***

Como vê, assinalámos as ACÇÕES em maiúsculas:

Note-se, de passagem:
1º- podemos exprimir a ACÇÃO de forma afirmativa ou de forma negativa;
2º- por vezes, a ACÇÃO exprime-se através de dois verbos:
      FOI resmungando


Estas formas verbais definem uma ACÇÃO que aconteceu num Passado muito próximo.
No entanto, há formas que estão assinaladas entre aspas...
Porquê?

Porque precisamos de exprimir diferentes matizes nas ACÇÕES do Passado.
Simplificando, podemos dizer:

As formas em maiúsculas (sem mais sinais...) exprimem ACÇÕES que ficam COMPLETAS – completas em si próprias. Exemplo: CHEGOU, REPONDEU, etc...

As formas em maiúsculas, entre aspas, exprimem ACÇÕES INCOMPLETAS...

Melhor dizendo:
CHEGOU
RESPONDEU
EXPRIMIU
ENCOLHEU
DIRIGIU-SE
DISSE
não PÔDE
FOI resmungando
PUXOU
SENTOU-a
BEBERAM
Estas formas exprimem uma ACÇÃO COMPLETA: não ficou nada por fazer:
Quem CHEGOU, chegou mesmo, não deixou nada para trás!
                          É o Pretérito PERFEITO do modo Indicativo

O modo indicativo mostra-nos ACÇÕES REAIS
... não esquecendo que aqui a “realidade” é FICÇÃO!

Agora, vejamos:
"VINHA"
"ESTAVA"
Com estas formas verbais, sentimos que a ACÇÃO NÃO SE COMPLETA...
Nem se informa quando começou, nem quando acaba...
A informação fica num “suspenso”...
Dizemos que é o Pretérito IMPERFEITO do modo Indicativo:
O Pretérito Imperfeito dá-nos uma ACÇÃO INCOMPLETA...
Além disso,
veja-se que:
Quando ele CHEGOU, ela já lá "ESTAVA":
Temos duas ACÇÕES a ACONTECER em SIMULTÂNEO!

É o Pretérito IMPERFEITO do Modo Indicativo

***

É evidente que quando Machado de Assis, ou Eça de Queiroz, ou Balzac, ou mesmo qualquer um de nós - é evidente que quando falamos, ou escrevemos, não estamos a pensar se estamos a usar esta FORMA VERBAL ou aquela!
Mas esta informação é importante para a análise das obras literárias, para as compreendermos em profundidade.
E é também importante para a nossa própria formação, para podermos escrever com propriedade! Com pleno conhecimento da valência das palavras que utilizamos!
E é também importante para os nossos Estudantes, que são os nossos Aprendizes de Feiticeiro!

E por hoje, penso que devemos ficar por aqui!




© Myriam Jubilot de Carvalho
2020



Myriam Jubilot de Carvalho
Enviado por Myriam Jubilot de Carvalho em 20/12/2020
Reeditado em 20/12/2020
Código do texto: T7139768
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Myriam Jubilot de Carvalho
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