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13.1- Enriquecimento da Narrativa – A DESCRIÇÃO; suas "marcas"




Enriquecimento da Narrativa – A DESCRIÇÃO

As MARCAS da Descrição:
ainda o Pretérito Imperfeito do M. Indicativo;
os ADJECTIVOS;
o Gerúndio;
a Comparação

***

Já vimos vários aspectos da Narrativa. No entanto, ainda nos falta assinalar mais alguns pormenores.

Já sabemos que para haver Narrativa, temos que ter em consideração –

           O que se faz (O QUÊ) ... \
                                                 \
                                                 a ACÇÃO
                                                /
           Quem faz (QUEM) ......  /

E ainda: as CIRCUNSTÂNCIAS em que a ACÇÃO decorre:
                                          QUANDO
                                          ONDE
                                          e
                                          COMO

Já vimos que por ACÇÃO, podemos entender todo o ENREDO de uma OBRA:
Nesta acepção, a ACÇÃO é a essência da obra, o resumo, a ideia:
Exemplo:
Podemos perguntar:
Qual é a ACÇÃO da obra “MADAME BOVARY”?

A resposta poderá ser assim:
“Madame Bovary”, um romance do século XIX, foi publicado pela primeira vez em 1856. O seu autor, Gustave Flaubert, pretendeu mostrar que a “educação romântica” que nessa época se ministrava às meninas e rapariguinhas era errada, levando-as a conceber e desejar um mundo irreal, um mundo de sonhos, incompatível com a realidade do dia-a-dia. Educadas desse modo, as jovens esposas sentiam-se desiludidas com o casamento, e insatisfeitas quanto aos maridos. Assim, sem preparação adequada para compreenderem as realidades de uma vida banal, muitas mulheres ficavam disponíveis para acolherem como verdadeiras e leais, as intenções abusivas e oportunistas de falsos apaixonados. Advindo-lhes daí muito maiores desilusões.

***

Ora bem. Quem conta uma história, tem que a mostrar sugestiva!

Qualquer que seja o Autor, ele terá que ENQUADRAR cada episódio, num TEMPO (uma dada época histórica, ou um dado momento do dia, ou um dado momento interior da sensibilidade da personagem... ) e num ESPAÇO (um local, real ou imaginário).

Esses enquadramentos constituem a DESCRIÇÃO:

Para o nosso artigo de hoje, escolhemos a DESCRIÇÃO de um LOCAL.
Mas... Um LOCAL está sempre relacionado com a época do ano, a hora do dia... E até com quem o frequenta num dado momento...

Aqui temos mais um exemplo, ainda retirado da obra “Madame Bovary”:

““Estava-se no princípio de Abril, quando as primaveras começam a desabrochar; corria um vento cálido sobre os canteiros cultivados e as hortas, como as mulheres, pareciam cuidar das suas ‘toilettes’ para as festas de Verão. Através das grades do caramanchão via-se, na extensão do outro lado, correr o rio pela pradaria, desenhando sobre a erva errantes sinuosidades. A neblina da tarde passava entre os álamos ainda sem folhas, esfumando-lhes os contornos com uma tonalidade violácea, mais desmaiada e transparente do que um véu subtil pairando sobre os seus ramos. Ao longe moviam-se animais; não se lhes ouviam os passos nem os mugidos; e o sino, continuando a tocar, prolongava nos ares a sua pacífica lamentação.
Com aquele repetido badalar, perdiam-se os pensamentos de Emma nas suas velhas recordações da juventude e do colégio.”” (1)

Se por acaso, Vocês repararam no título deste artigo, já descobriram quais são aqui, neste excerto, as MARCAS da DESCRIÇÃO:

1)- Em primeiro lugar, continuamos com as formas verbais do Pretérito Imperfeito do Modo Indicativo:

““ESTAVA-se no princípio de Abril, quando as primaveras começam a desabrochar; CORRIA um vento cálido sobre os canteiros cultivados e as hortas, como as mulheres, PARECIAM cuidar das suas ‘toilettes’ para as festas de Verão. Através das grades do caramanchão VIA-se, na extensão do outro lado, correr o rio pela pradaria, desenhando sobre a erva errantes sinuosidades. A neblina da tarde PASSAVA entre os álamos ainda sem folhas, esfumando-lhes os contornos com uma tonalidade violácea, mais desmaiada e transparente do que um véu subtil pairando sobre os seus ramos. Ao longe MOVIAM-se animais; não se lhes OUVIAM os passos nem os mugidos; e o sino, continuando a tocar, PROLONGAVA nos ares a sua pacífica lamentação.
Com aquele repetido badalar, PERDIAM-se os pensamentos de Emma nas suas velhas recordações da juventude e do colégio.”” (1)

Estamos novamente perante a “magia” do Pret. Imperft. do modo Indict.:
Essa forma verbal dá-nos uma SENSAÇÃO DE CONTINUIDADE, de permanência:
Aquela bela paisagem já existia antes de Emma ali estar naquele dia;
Estava ali naquele dia a inspirar-lhe nostálgicos pensamentos;
E ali permaneceria depois de ela dali se retirar...

E mais:
Como leitores, esta DESCRIÇÃO transporta-nos para junto da protagonista:
Estamos ali com ela, vemos as suas emoções.
Compreendemos que aquela paisagem, na sua serenidade, reportava-a aos tempos despreocupados da sua juventude.
Aquela paisagem, pela sensação de continuidade que provocou, como que entrou dentro do campo de consciência da infeliz Emma, trazendo-lhe um pouco de paz...

2- Mas neste excerto, há ainda outras MARCAS da DESCRIÇÃO:

Temos que repetir a transcrição, mas agora assinalando outros detalhes:

““Estava-se no princípio de Abril, quando as primaveras começam a desabrochar; corria um vento cálido sobre os canteiros cultivados e as hortas, como as mulheres, pareciam cuidar das suas ‘toilettes’ para as festas de Verão. Através das grades do caramanchão via-se, na extensão do outro lado, correr o rio pela pradaria, DESENHANDO sobre a erva errantes sinuosidades. A neblina da tarde passava entre os álamos ainda sem folhas, ESFUMANDO-lhes os contornos com uma tonalidade violácea, mais desmaiada e transparente do que um véu subtil PAIRANDO sobre os seus ramos. Ao longe moviam-se animais; não se lhes ouviam os passos nem os mugidos; e o sino, CONTINUANDO a tocar, prolongava nos ares a sua pacífica lamentação.
Com aquele repetido badalar, perdiam-se os pensamentos de Emma nas suas velhas recordações da juventude e do colégio.”” (1)


Como se vê, assinalámos umas FORMAS VERBAIS de que ainda não falámos anteriormente:
DESENHANDO
ESFUMANDO
PAIRANDO
CONTINUANDO
Estamos perante o GERÚNDIO:
O GERÚNDIO é esta forma verbal que nem sequer se “conjuga” (2):
Nesta DESCRIÇÃO, sugere-nos COMO se prolongava o entardecer... Reforça a sensação de continuidade que referimos antes!


3- Há ainda os ADJECTIVOS:

Como sabemos, os ADJECTIVOS são a classe de palavras que nos informa sobre as QUALIDADES dos seres (pessoas, animais, mundo vegetal), e das coisas:

Neste excerto, temos:

““Estava-se no princípio de Abril, quando as primaveras começam a desabrochar; corria um vento CÁLIDO sobre os canteiros cultivados e as hortas, como as mulheres, pareciam cuidar das suas ‘toilettes’ para as festas de Verão. Através das grades do caramanchão via-se, na extensão do outro lado, correr o rio pela pradaria, desenhando sobre a erva ERRANTES sinuosidades. A neblina da tarde passava entre os álamos ainda sem folhas, esfumando-lhes os contornos com uma tonalidade VIOLÁCEA, mais desmaiada e transparente do que um véu SUBTIL pairando sobre os seus ramos. Ao longe moviam-se animais; não se lhes ouviam os passos nem os mugidos; e o sino, continuando a tocar, prolongava nos ares a sua PACÍFICA lamentação.
Com aquele repetido badalar, perdiam-se os pensamentos de Emma nas suas VELHAS recordações da juventude e do colégio.”” (1)


Através destes ADJECTIVOS, nós, leitores, sentimos a suavidade daquela tarde maravilhosa! Sentimos que a temperatura da tarde ainda se mantinha quente, sabemos que o rio se espalhava sobre a erva, vemos o céu já cor de violeta do entardecer, e ouvimos o toque do sino na sua mensagem de paz...
Nós, leitores, somos de facto transportados ao mundo da personagem!


4- MAS... Há ainda um pormenor que quase não se nota!
Repare bem na 2ª e 3ª linhas da transcrição:

““...um vento cálido sobre os canteiros cultivados e as hortas, COMO as mulheres, pareciam cuidar das suas ‘toilettes’ para as festas... ...””

É uma COMPARAÇÃO:
O Autor compara a graciosidade dos canteiros tão bem cuidados, com as mulheres que se adornam para uma festa!...

Pois, de facto, era Abril, era Primavera!

A COMPARAÇÃO dá um ar coloquial ao discurso (ao texto)!
PARECE que o Autor está a conversar connosco, os seus deliciados leitores!


Finalmente, para concluir:

Neste exemplo, temos 4 importantes marcas de uma DESCRIÇÃO, todas elas contribuindo para nos dar a sensação de que estamos lá, naquele LOCAL, acompanhando de perto as personagens e vendo tudo o que elas vêem;
Mais, através daquela COMPARAÇÃO, até parece que o Autor está a conversar connosco!

RESUMINDO:

A DESCRIÇÃO é um complemento da Narrativa.

São características da DESCRIÇÃO:
= as formas verbais no Pretérito IMPERFEITO do Modo INDICATIVO;
= as formas do GERÚNDIO – que nos sugerem muito bem uma acção em prolongamento – e percebemos que estas formas se caracterizam pela terminação -ndo;
= a presença dos ADJECTIVOS, classe de palavras que nos informa sobre as QUALIDADES das coisas que vemos ou ouvimos ou sentimos;
= a presença de COMPARAÇÕES.

____

(1)- Mesma edição utilizada nos capítulos anteriores; página 105.


***


INFORMAÇÃO COMPLEMENTAR:


Sobre o GERÚNDIO, poderá ler:
https://www.infoescola.com/portugues/gerundio/




Myriam 2021
Myriam Jubilot de Carvalho
Enviado por Myriam Jubilot de Carvalho em 13/01/2021
Código do texto: T7159085
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Myriam Jubilot de Carvalho
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