Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto
"LEONOR DE MENDONÇA" E O USO ATUAL DO TERMO "ROMÂNTICO".

BREVE ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DA PEÇA “LEONOR DE MENDONÇA,” DE
GONÇALVES DIAS. COMPARAÇÃO COM A FOTONOVELA ”LIVRE PARA VIVER...E
PARA AMAR.”  ARGUMENTO DE PUBLIO CORONA PARA O “ALMANAQUE
CAPRICHO” DE SETEMBRO DE  1976.



Plano dissertativo

1.    A modernidade de Leonor de Mendonça.
1.1.Análise das personagens segundo o esquema de E. Souriau.
1.2.Caracterização da ação através da relação entre as funções das personagens.

2.    A constatação das características românticas em Leonor de Mendonça.
2.1.A relação das personagens com o mundo.
2.2.O conflito.
2.3.O auto-conhecimento.
2.4.A mudança interior.

3.    O conceito atual e impreciso do termo “romântico”.
3.1.A ausência de relação da personagem com o mundo.
3.2. A linearidade da personagem.
3.3. A alienação.

4.    A aproximação das características românticas através da ação.
4.1. Relação entre as funções.
4.2. Gosto pelo proibido.
4.3. A “heroína sofredora e injustiçada”.
4.4. O fator providencial.

5.    Conclusão.


                       ***************************************

          O objetivo deste trabalho é tecer uma análise de “Leonor de Mendonça” para detectar elementos que revelem seu caráter de modernidade (tal caráter entendido aqui com a atualidade da peça, sua possibilidade de ser representada, ainda hoje, com interesse para o público; como algo que possui força de argumento suficiente para não ser olhado como peça de museu, desprovida de interesse a não ser pelo valor histórico). O suporte formal para essa análise foi o inventário de E. Souriau sobre os atuantes no teatro, já que a intenção era a de abordar o aspecto da ação e das personagens. Apesar de termos um inventário de seis funções básicas, está claro que uma mesma função pode ser desempenhada por várias personagens ou que, ao contrário, uma única personagem pode exercer várias funções. Uma análise sempre tende a reduzir a riqueza e a complexidade de um texto, pelo menos em princípio, e iremos efetuar redução ainda maior, ao encarar as várias funções e seu entrelaçamento, não nos níveis em que ocorrem, explorando toda a rede de relações estabelecidas, mas apenas em aspectos mais evidentes aos quais nossa atenção está voltada, por sua ligação mais direta com nossos objetivos. A “força temática orientadora” é exercida por Alcoforado que ama a Duquesa; o “representante do bem desejado” é a Duquesa; o “obtenedor virtual do bem” é Alcoforado; o “árbitro” é também a Duquesa; o “rival opositor” é o Duque e os “adjuvantes” são Paula e Fernão.

Examinemos mais detalhadamente cada uma dessas funções, tentando verificar com as relações entre elas desencadeiam a ação e possibilitam a variedade das situações dramáticas da peça. Alcoforado ama a Duquesa e deseja ser amado por ela. Que tipo de amor é esse e como se manifesta? Há um nítido distanciamento entre ambos: a Duquesa é a mulher do Duque, senhor de Alcoforado, mulher pertencente à alta nobreza, mãe de dois filhos, mais velha que o pretendente ao seu amor. Tal barreira parece fazer por valorizar ainda mais esse Bem desejado e é em função de superar, mesmo colocar por terra o distanciamento, que o “obtenedor virtual do Bem desejado” vai agir. Sua ação tem por alvo anular as barreiras existentes através do sentimento, do amor. Não podemos deixar de vislumbrar o perfil moral desa personagem, em cujo cume está o orgulho, tanto porque mulher de tão alta classe, como porque vê-la admitir que corresponde ao seu amor significa coloca-lo (Alcoforado) a sua altura (p. 24). Ao mesmo tempo, aqui se caracteriza o estabelecimento do amor impossível, do qual tornaremos a falar. A Duquesa é o “Bem desejado”. Sua linhagem nobre não a impede de ser infeliz. Antes, parece acarretar-lhe responsabilidades que cumpre apenas por dever. Sente que não é amada por seu marido, carece de afeto e justifica seu parco relacionamento afetivo com o Duque pelo fato de não ser desejada como esposa. Interessa-se por Alcoforado “mais do que desejaria” e, de certa forma, aceita o amor que o jovem lhe devota. Ela aparenta estar hesitante em relação à atitude a tomar, mas prevalece nela o desejo de atender às instâncias de Alcoforado. Em vez de afasta-lo, ela permite a aproximação do jovem da forma mais insensata (no contexto da peça): recebe-o à noite em seu quarto, recorrendo à presença dos filhos para defender-se dos sentimentos que nutre pelo rapaz. Vivendo um casamento sem amor, a Duquesa, portanto, como “árbitro”, atribui o “Bem desejado” a Alcoforado. O “rival”, o duque, é na verdade aquele que por “direito” possui o Bem (enquanto marido). Ele é uma pessoa atormentada por desgraças ocorridas na família, que teria preferido a carreira religiosa ao casamento, mas que espera de Leonor a compreensão e não o temor (p.20). Ele é um nobre cioso de sua condição, de sua superioridade, que não admite inclusive dever qualquer favor a um dos senhores do seu serviço, ou a qualquer pessoa (p.18). No plano que estamos considerando (o do par amoroso Alcoforado/ Leonor) o Duque é um rival poderoso que, sentindo-se traído em sua honra –há algo mais importante do que a honra para um nobre?- vai ser o juiz e o executor da sentença proferida contra os “traidores”. Temos ainda, como adjuvantes, Paula, servindo de mediadora entre Alcoforado e Leonor e Fernão Velho que revela ao Duque o encontro marcado entre sua mulher e Alcoforado. Podemos dizer, portanto, que a caracterização das personagens através de sua função dentro da peça e as relações entre essas funções nos dão a dimensão do desencadeamento da ação e, de certo modo, de como a ação é determinada como produto final de todos esses elementos.

“Leonor de Mendonça” é uma peça que possui características românticas, a saber: o amor impossível de concretizar-se “neste mundo”, isto é, num plano terreno e carnal (podemos dizer que Leonor e Alcoforado unem-se pela morte, embora não seja esse o desejo expresso por ambos); a relação da personagem com o mundo (Leonor reflete sobre a condição da mulher, sobre seu passado, o amor e a vida que leva ao lado do Duque); o conflito existente nesse mundo é introjetado pelo indivíduo que vive situações “afetivamente contraditórias” (Leonor oscila entre sua posição de “senhora e seu afeto por Alcoforado); o mundo interior da personagem muda de acordo com as situações concretas que ela vive e que se relacionam com o mundo exterior (Leonor, ao final, manifesta antes de tudo um desejo veemente de viver); o auto-conhecimento (Leonor não só reconhece o amor que sente, mas o tipo de amor, confessando-o a si própria e ao jovem) e a mudança interior relacionadas com as situações concretas que ela vive e com o mundo exterior (acima de tudo e apesar de tudo, o desejo de viver). Dessa análise, rápida embora, podemos concluir que o caráter de modernidade de “Leonor de Mendonça” está principalmente na personagem Leonor, que acrescenta à peça um questionamento quanto ao “amor impossível”, que deve “realizar-se” em outras esferas, com seu apego à vida e, conseqüentemente, quanto ao próprio “ideal romântico” do amor. Na dimensão da personagem, temos em cheque os ideais estéticos que a própria peça transmite. Seu argumento, como dissemos de início, adquire força que lhe confere caráter de atualidade. Reforçado pela coerência interna que estabelece sua “propriedade”.

Tomemos agora a fotonovela “Livre para viver...e para amar” para tentarmos determinar a fatuidade de emprego atual do termo “romântico”, sua utilização para designar a fotonovela e os fatores que podem ter engendrado tal uso.* Podemos, também neste caso, aplicar o esquema de E.Souriau e teremos: a “força apetitiva” na pessoa de Duílio, o ator amigo da irmã de Ângela; o “Bem desejado”, Ângela, que se destina, na verdade ao advogado; a função de “árbitro” é exercida por Ângela e o advogado tem como opositores o marido de Ângela e Duílio (a quem ela , respectivamente esteve vinculada afetivamente em fases anteriores de sua vida). Novamente estamos simplificando, ao adotarmos o ponto de vista do par amoroso Ângela/Marcos e as funções determinadas apenas em relação a esse par. Consideremos novamente cada uma das funções através das personagens. Ângela é a mulher de um nobre decadente, com a responsabilidade de sustentar a família (marido, filha e cunhada). Ao viajar para recuperar-se de um “esgotamento”, conhece Duílio e este se apaixona por ela. Ângela resiste a esse afeto, mas ao regressar para casa, descobre que o marido teve um “caso” com a secretária. Assim, abandona a família que a repelira e procura Duílio, com o qual passa a viver até ser acusada e presa por uma agressão. Ângela parece agir sempre por força das circunstâncias, pois seu “foro íntimo” permanece inalterado. Duílio é o ator cercado de fãs que se interessa por ângela enquanto “mulher difícil””, mas perde logo o interesse quando ela passa a viver com ele. O advogado é o homem honesto e trabalhador, aparição providencial, apaixona-se por Ângela assim que a conhece e a “resgata” do ambiente corrompido em que vivera.
Observando as personagens e a ação, vemos que Ângela não se relaciona com o mundo, isto é, não se deixa afetar pelas desgraças que lhe sucedem, pelas situações que vive como esposa, como amante ou como presidiária. Dessa forma ela é “resgatada” por Marcos para um “outro mundo”, representado pelo início de uma nova vida ao lado dele, depois do divórcio (é o mundo onde ela poderá reeducar a filha, onde sua integridade moral será valorizada e premiada). Não temos aqui nenhuma espécie de auto-conhecimento ou de mudança interior. A personagem está “alienada do mundo e de si mesma; ela é boa ‘em essência’ “.

Não obstante esses aspectos apontados, podemos fazer entre as duas histórias (peças), uma aproximação das características românticas através da ação. Tanto num caso, como no outro, há uma relação entre as funções que cria uma série de situações dramáticas. O gosto pelo proibido aparece paralelamente em relação às duas “heroínas”
(relação amorosa Leonor/Alcoforado e Ângela/Duílio em decorrência de um mau casamento e fora dele). O desfruto do proibido também aparece nas duas, pois o leitor ou espectador é conivente com a situação amorosa dos pares e, potencialmente, um torcedor, tomando este ou aquele partido. Apesar de velada, sua participação nesse sentido é inegável. A “heroína sofredora” identifica Leonor e Ângela (ambas são casadas com homens que não as amam),podendo-se ainda identificá-las pelo fato de serem inocentes e injustiçadas. Existe ainda o fator viagem ligado ao tema adultério, embora diversamente por representar para Ângela uma perspectiva e para Leonor, uma possibilidade de afastamento.

Se considerarmos as duas peças quanto à ação, poderíamos enquadrar a fotonovela no conceito de “romântica”, mas o que nos dá a visão “real” da fotonovela é o que pudemos detectar da análise das personagens e nesse caso, o termo “romântico” é impreciso com relação à fotonovela: não há adequação entre o resultado da análise e as características que melhor e verdadeiramente definem o “Romantismo”. Por outro lado, o ponto de ligação da fotonovela com o “Realismo” (personagem definida segundo a sua essência moral) efetiva-se no aspecto “falho” do “Realismo”: o da personagem que aparenta representar os conflitos sociais, mas que na verdade não se deixa envolver pela sociedade ( “concepção mecânica e pobre do relacionamento entre personagens e sociedade”). Conclui-se que não é por certos pontos de contato, por este, ou aquele final, que se pode aplicar tal ou qual denominação a um determinado trabalho. Conceituar igualmente a fotonovela e “Leonor de Mendonça” seria uma impropriedade.


*Esse foi um exemplar antigo, retirado de arquivos, mas é possível aplicar o modelo a um texto do mesmo gênero dos dias de hoje (e mesmo a alguns arguentos de telenovela).


Nilza Aparecida Hoehne Rigo
Maria Augusta Bastos de Mattos

Bibliografia:

CORONA,  Publio- Livre para viver ...e para amar. In:
         Almanaque Capricho nº 412-B São Paulo, Ed. Abril,
         setembro de 1976.

DIAS, Gonçalves – Leonor de Mendonça. Rio de Janeiro,
       Serviço Nacional de  Teatro1972.

GREIMAS, A. J. –Semântica estrutural. Trad. Haquira Osakape
        e Izidoro Blikstein. São Paulo, Cultrix, 1973. pp.229-230.

PRADO, Décio de Almeida – A personagem no teatro. In:
        ROSENFELD, Anatol et alii -  A Personagem de Ficção.
        3ª ed., São Paulo, Perspectiva,1972.

                              - O Teatro Romântico. C. A. E. L., 1976

                              - O Teatro Romântico  e Leonor de Mendonça.

 



Nilza Azzi
Enviado por Nilza Azzi em 30/10/2007
Reeditado em 31/10/2007
Código do texto: T716863
Classificação de conteúdo: seguro

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor Nilza Azzi ). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Nilza Azzi
Campinas - São Paulo - Brasil
2225 textos (391936 leituras)
27 áudios (1214 audições)
4 e-livros (385 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 14/12/17 09:13)
Nilza Azzi