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Um aluno-problema falando do seu problema.

 Quando somos crianças, o que nossos pais fazem profissionalmente parece ser o máximo, e até mesmo o respeitamos por nos sustentar com o seu trabalho heróico. Eles parecem ser pessoas muito inteligentes, afinal, nós não sabemos de nada... ainda. E por isso mesmo, sentimos uma linda vontade inocente de ser quem eles são!
 Então começa nossa grande jornada para realizar esse desejo - Entramos na escola para aprender a mágica lição de como sermos tão inteligentes como aqueles adultos de nossa infância.
 Uns anos se passam nesse campo de concentração ou escola e já terminado o primário ( em muitos casos nem se precisa terminá-lo para perceber) percebemos que sentimos uma certa resistência em aceitar como a magia se sucede, nos transformando em algo que não pedimos exatamente. Em vez do pó mágico transformar o sapo em príncipe, conforme o desejo da princesa, quem se transforma é a princesa em sapo. Percebemos que as regras são muito esquisitas, pois já estamos mais crescidinhos para ouvir "Cale a boca que eu sou o professor e vou os ensinar". Aí os alunos devem se perguntar: - Ensinar a calar a boca? Mas não era bem isso que eu queria aprender. Eu queria é aprender a falar, a ser inteligente como os adultos parecem ser.
 É, aqui acaba o conto de fadas mais importante da infância: Os adultos não são tão bons quanto imaginávamos. Eles são sapos e não príncipes.
 Então começa a surgir a resistência em aprender, afinal, ninguém quer virar sapo.
 Aí começa a "Pedagogia do Oprimido". E realmente nos ensinam ou nos põe pressão e medo - como preferirem - para a vida de adulto impotente e sensato. E olha que imaginávamos que sensatez e impotência tinham a ver com inteligência. Mas não estávamos de todo enganados.
 Pois agora com inteligência perante nosso precioso serviço de peões, abaixamos a cabeça e ouvimos um "Cale a boca que eu sou o Chefe aqui" para não perdemos o emprego. Um ato inteligente até, pois é sensato. "Quem é sensato é inteligente", nos ensinam.
 Mais um tempo se passa e já estamos na meia-idade. Aí surge um jovem maluco não sei da onde e nos pergunta inconformado: Porque não há mais revoluções? E responderemos inteligentemente: Por que é mais sensato não haver.
 Essa historinha é pra explicar o porque chamo a sensatez de anestesia mental. Pois eu vejo até a cara de dopado dos que dizem: "É mais sensato ficar na sua ao invés de levantar essa bunda da carteira e causar o caos dizendo o que você, jovem, pensa."
 Outro exemplo de anestesia mental é a atividade dos que se dizem cultos. Esses aí leram vários livros de filósofos gregos, alemães, franceses, leram livros de psicologia, neurologia e muitos até fizeram faculdade de Pedagogia. Óóóóhh, que espetacular mente!  Só que no entanto usam esse conhecimento todo apenas com a pretensão de serem considerados como autoridades do conhecimento. Esse é o seu poder e é isso que mais vale perante o que sabem.
 Porém ter o conhecimento e não praticá-lo é mais inútil que não saber nada. Pelo menos o que não sabe nada deve ter usado mais saudavelmente o seu tempo do que o que sabe, lendo neuroticamente sentado na sua cadeira fumando um charuto impotente e imponentemente.
 Para se ter uma idéia do "benefício da sensatez" menciono a política de hoje. Os desfalques e as canalhices da política estão por todos os cantos, em aberto como nunca, como se fosse um tipo de moda para ser desfilado. Será que isso se deu pela Ordem e Progresso da Sensatez? ( Pois o povo, com grande inteligência sensata, pensa que é a política que tem o poder de mudar o mundo mesmo sabendo que ela é sórdida. "Mas é melhor que ELES pensem um jeito de mudar o que está errado e não eu. Eu não posso fazer nada, por isso existe a Política" Humm!!!! Que delícia me anestesiar com esse posinho mágico da sensatez.) E tá tudo BELEZA!
 Agora volto ao início do meu texto para ressaltar o fato de haver essa resistência em aceitar o tipo de ser humano que os professores nos ensinam ou impõe ou nos obrigam a ser. Nós não queremos. Estamos pichando as ruas em protesto, pois não é simples explicar e nem ao menos entender porque estamos tão revoltados com o Ensino, porque estamos tão revoltados com nossos pais nos dizendo que se a gente não estudar, seremos vagabundos e inúteis. Mas nós sentimos que se nos rendermos a esse tipo de Educação, aí sim seremos uns tapados como os adultos que nos dizem que seremos inúteis. Na escola os professores nos entitulam de "aluno problema" e nos excluem. Mas eu não me zango com essa entitulação. Pois é mais sensato para eles excluírem este aluno e se anestesiarem com a idéia de que ele só dá problema e será abafado pela Direção da escola. Pois no seu currículo contém as competências do que nos ensinam - ladainhas, mentiras, repressão. Mas eu até encaro este título de aluno problema como um elogio, já que aluno bom é aluno bem quietinho!
 Não é simples se calar diante do que estamos vendo - o nosso conhecimento encaixotado claustrofobicamente pelo que chamam de sensatez.
 A senstatez em si não é assim tão violenta, mas o jogo daqueles cultos é usarem as palavras de maneira ambígua afim de nos calar de tal maneira a acharmos que eles têm razão no que dizem.
 Os sentidos das palavras podem ser traidores e sabemos disso. Prova disso é a nossa resistência a aceitar o que andam fazendo com a nossa vida, nos ensinando - na verdade - a não sabermos de nada. E só porque não saber é mais sensato, mais anestesiador, mais sossegado, deixa a vida me levar, vida leva eu... Pensam com o giz na mão: - Depois do expediente vou fumar meu charuto na minha poltrona vermelha/tomar aquela cerva gelada no bar da esquina...
 O valor que o professor dá à arte de educar é similar ao valor capital que ele recebe como professor.
 E não é sensato ele pensar assim?
 Ou ele confundiu os sentidos da palavra VALOR por sensatez?


 Quem mais precisa usar o dicionário na sala de aula é o professor.
Patyleni
Enviado por Patyleni em 15/11/2006
Código do texto: T291848
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Sobre a autora
Patyleni
Sorocaba - São Paulo - Brasil, 30 anos
2 textos (608 leituras)
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