Einstein, meu avô e o Soturno Castelo do Plácido

Vivi minha meninice envolto por seres fabulosos. Guerreiros estóicos; Imperadores bons e honestos; Lindas princesas; Índios valentes e honrados, defensores de nossas matas nativas... Meu pai foi um excelente contador de histórias, depois, só muito depois, vi que nem tudo era fantasia dentre as inúmeras narrativas que dele ouvi, deitado numa confortável rede de algodão, na varanda do belo sítio Lidiane, onde nasci, na Fortaleza de antigamente. No quadrilátero formado pelas ruas Tibúrcio Cavalcante, Santos Dumont, São José (que hoje é nome de desembargador, não me lembro qual) e Joaquim Nabuco, nesse tempo, com área já bem reduzida.

Me encantava quando ouvia as histórias sobre meu bisavô, homem impressionante, conhecido por teorizar sobre as idéias de Einstein. Antes mesmo da publicação da Teoria Geral da Relatividade, este Cearense questionou (filosoficamente) a natureza material das partículas de luz e o conseqüente efeito gravitacional sobre as mesmas, isso em livro publicado na Europa em 1907, quase uma década antes do grande Einstein publicar sua fenomenal Teoria da Relatividade, segundo relato de Guilherme Studart, o Barão de Studart, dentre outros historiadores elegante e estranhamente chamados de Cronistas, aqui na nossa querida terrinha. Livro este que, por sinal, estou a devê-lo a meus queridos leitores, o "Fragmentos de Filosofia Natural e Especulativa". Antes, porém, tentarei postar o "Hipotipose do Mundo", logo que o formatar em PDF. Lembrando-vos que no site http://www.pianoclassico.org está à disposição o "Jesus Cristo & Maria Madalena, Lenda Judaica - Traços Românticos", todos de João Miguel da Fonseca Lobo, uma reedição do século XX.

Pois bem, caro Leitor, vivi envolto com esses heróis lendários e reais, sem divisar bem onde acabava o real e iniciava o lúdico, e era formidável, como criança, construir valores e atitudes baseados nesses conceitos, pelo menos nobres e decentes. Sim, profundamente decentes...

E havia tanta coisa esdrúxula acontecendo bem embaixo de nossos narizes, que muitas vezes nem as percebíamos por estarem tão próximas e de maneira tão usual. Quer um exemplo?

No início do século passado, viveu em Fortaleza um rico proprietário de imóveis, comerciante e industrial, o Senhor Plácido de Carvalho. Ora, durante uma viagem à Itália, enamorou-se duma bela jovem, que, como conta a história, declarou ao amado seu intento de só mudar-se para o longínquo Brasil, se o fizesse a fim de morar em um grande castelo. Sem medir esforços, naturalmente amparado pelas altas somas em dinheiro de que era possuidor, o apaixonado empresário contratou imediatamente um afamado arquiteto Italiano, a fim de executar a planta de um majestoso castelo.

Imediatamente passa a construí-lo, na Av. Santos Dumont, na velha e esnobe Fortaleza do século passado. O imóvel, ricamente revestido de linda cerâmica artisticamente decorada, amplos e confortáveis salões, vastos corredores, lindos castiçais, era, enfim, um verdadeiro castelo Real. Uma razoável fortuna foi gasta na consecução do bizarro sonho acalentado por sua amada que, finalmente vem ao Brasil deleitar-se em nababesca existência ao lado de seu apaixonado marido. Não é um conto de Fadas? É sim, realmente. Um conto de fadas Nordestino, real como os contos que meu pai contava...

Se hoje vos falo deste velho casarão é, na realidade, por ter ele demasiada importância em minha vida. Há anos, na minha meninice, meninote de treze ou quatorze anos, por aí, estudava num colégio distante da casa de meus pais umas vinte quadras, por aí, e a dez ou menos quadras, situava-se o tal castelo, no meio do caminho da escola. Ora, pela manhã ia de carro, mas, na volta, dispensava qualquer meio de transporte, fazia questão de retornar à pé. Por essa época o castelo já estava abandonado e bem deteriorado, porém, sua opulência e majestade fascinavam-me demasiadamente. Sempre que podia entrava furtivamente por uma brecha no madeirame do muro que dava acesso aos jardins, escondia meus cadernos por ali mesmo e, emocionado, profundamente emocionado adentrava o castelo. Pra mim, nesta época, um verdadeiro castelo encantado.

Ora, apesar do estado lastimável em que se encontrava aquela bela construção, meus olhos de menino sonhador viam ali, reis e rainhas, nobres cavaleiros andantes, fiéis escudeiros, bela princesinha a me esperar... E passava por lá momentos de verdadeira transcendência espiritual, verdadeiro alumbramento. E como por essa época já sentia grande fascinação pela música Medieval e Renascentista, aquele ambiente era o complemento ideal para minhas fantasias de menino. Na escadaria da torre, empunhando tosco pedaço de pau, era um nobre cavaleiro com sua reluzente espada prateada. Ora era um nobre taciturno a sonhar com sua amada, ora era um valente guerreiro maquinando planos para salvar sua princesa cativa...

O belo castelo, fonte de tanta alegria para tantos quantos o conheceram mais de perto, ou mesmo para os que somente o admiravam à distância, teve sua gloriosa existência bruscamente interrompida, foi brutalmente demolido. Fruto da ignorância e indignidade humanas.

Demolido, deu lugar a uma dantesca construção em estilo moderno ou, futurista, sei lá, só sei que horroroso, hediondo, fruto das lucubrações mentais, certamente, de retardados...

Deixemos isso para lá. Lembremos apenas dos gloriosos dias de majestade do aristocrático castelo do Plácido.

Quanto a mim, continuo, ainda hoje, a sonhar minhas amadas princesas... Nobres guerreiros... Índios valentes!

Lobão
Enviado por Lobão em 06/01/2011
Código do texto: T2713792