VESTIBULAR E ESTRESSE

José Neres

(Professor e Escritor)

Não há como negar que um dos momentos mais estressantes na vida de um estudante é aquele que antecede a prova do vestibular. A contagem regressiva aumenta o grau de ansiedade e as cobranças da família, da sociedade, das instituições de ensino e do próprio candidato. As dúvidas se multiplicam a cada hora, transformando o dia de prova em um fardo insuportável.

O assunto é estudado por profissionais de diversas áreas do conhecimento humano. Educadores, psicólogos, médicos, nutricionistas e tantos outros estudiosos se debruçam sobre o tema procurando entender o que se passa na cabeça e no corpo do vestibulando nos dias que antecedem a prova que decidirá sobre o futuro do candidato a uma vaga nas universidades.

Em sua tese de doutoramento, defendida na Unicamp, em 2007, a pesquisadora Maria Cândida Carvalho, a partir de análise da saliva de pré-vestibulandos, chega à conclusão de que os índices de estresse nesses estudantes aumentam nos meses que antecedem as provas. Ao estudar alunos de cursos preparatórios e concludentes do ensino médio, a médica Célia Regina da Silva Rocha, em sua tese defendida em 2010, na Universidade Estadual de Campinas, comenta os distúrbios do sono, a compulsão alimentar e a depressão de que são acometidos os estudantes nos momentos que se aproximam da data dos exames.

Nessa época, os alunos acabam acreditando que cada minuto desperdiçado pode ser o diferencial para a aprovação ou não no concurso. Então alguns deles acabam entregando-se a uma verdadeira maratona de estudos que vão além dos horários escolares e dos próprios limites físicos. A esse tempo extra de estudo, professor e psicólogo Afonso Celso Tanus Galvão, amparado por diversos teóricos, chama de estudo deliberado e alerta para o fato de que tal atitude pode levar à fadiga e a outros problemas de ordem motivacional.

É nesse momento que os familiares e as pessoas mais próximas ao vestibulando podem dar sua contribuição, que nem sempre é positiva. Pais que comparam o desempenho escolar dos filhos com os outros irmãos mais velhos, com vizinhos ou com parentes próximos, geralmente levam o estudante, que já está em estado de estresse por causa de inúmeras cobranças do dia a dia, a um estado de desespero, que pode culminar em atitudes agressivas ou em retraimentos como forma de defesa.

Da mesma forma, mercenarizar uma possível aprovação com promessas de gratificações nem sempre é uma boa estratégia motivacional, pois, de todas as recompensas, a que mais interessa ao vestibulando é ver seu nome na lista de aprovados, e isso é algo que pais não podem prometer... Mas podem e devem criar condições para que isso aconteça.

Outro fator importante a ser lembrado que os seres humanos têm reações diferentes diante de um mesmo estímulo. Dessa forma, quando se aproxima o vestibular, alguns estudantes ficam aparentemente tranquilos, outros, no entanto, vivem momentos de extremo desconforto emocional e não são raros os casos em que usam agressões verbais ou até mesmo físicas contras as pessoas mais próximas como válvula de escape contra a situação adversa por que estão passando.

Além dissa ainda há a insegurança com relação ao resultado das provas e as inconstâncias sobre o fato de a prova ser ou não anulada por fatores que vão além das forças dos atores envolvidos no processo.

Na recente polêmica sobre a aplicação da prova do ENEM, alguns representantes do INEP tentaram argumentar que não houve prejuízo para oa alunos que tiveram problema de impressão em suas provas ou na folha-gabarito, contudo é preciso sempre ter em vista que todo fator que não esteja previsto é capaz de desestabilizar o estado emocional de alguém que está focado em uma prova que poderá mundar os rumos de sua vida.

Não é tarefa fácil para pais, parentes e amigos próximos a convivência com alguém, jovem ou adulto, que esteja vivendo o estresse dos momentos que antecedem a prova do vestibular. Colocar-se no lugar do vestibulando e tentar entender que aquele momento é especial para ele, mantendo a distância exata para ajudar sem invadir o espaço físico e mental reservado à ritualização dos estudos pode ser uma forma de ajudar. Mas a aprovação é o único remédio que põe fim a esse sofrimento momentâneo e incômodo.

José Neres
Enviado por José Neres em 17/11/2010
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