A geração "X"

Engraçado que as curtas palavras que escrevamos no decorrer de nossa existência influenciem toda uma geração e talvez as posteriores; vivemos do passado, enquanto outros aspiram a vida inteira por um futuro melhor, e a geração atual não aspira mas devora vorazmente (Desculpem o cacófato intencional) sua realidade do presente, como se o presente fosse um presente dado por deuses do prazer e do hedonismo para o deleite (de quem não mais bebe leite) dos deuses gregos do consumo. Infelizmente esse mesmo consumo qual mito pós-moderno se torna um monstro pré-histórico pronto a devorá-los, se não conseguirmos (nós ou eles? Só o tempo dirá) decifrar tal charada: o que quer (ou não quer) a geração conhecida como Geração X?

A minha geração deveria ser conhecida como a geração X, já que fomos submetidos a lavagem cerebral perpetrada por apresentadoras infantis que inventaram a língua do X (ah, que saudades da língua do “P”, dos códigos infantis de falar da vida alheia na sua honrosa presença)... porém o parênteses não cabe nesse momento; esse é o problema de se levantar a noite, para escrever, a mente divaga (não tão devagar quanto deveria) pelos prados verdejantes da imaginação... mas voltando à vaca fria, digo, ao assunto que ora nos tira da cama e não nos deixa dormir, a geração X, nome científico pelo qual se convencionou chamar aos jovens de 13 aos 21 anos, que já foram conhecidos como adolescentes, púberes, hoje leva no peito a marca de toda uma vida, clichê de outrora, que repetido à exaustão hoje não é mais bordão, mas fardo pesadíssimo por sinal: “os jovens são o futuro do Brasil” (tema do meu primeiro e saudoso vestibular) .

De tanto ser debatido, a introdução do meu pretenso texto tomou dois parágrafos para dar tempo de se pensar nos seus argumentos; tema tao delicado e de tamanha complexidade, visto que, como educador, sou obrigado a procurar desdobrá-lo, lidar com ele e tentar direcioná-lo a um fim favorável, nas reflexões que ora fiz percebo que:

1. Somos obrigados a fazer parte de um tempo de reflexão e de reformulação de conceitos consagrados, como o de que o currículo escolar deve ser engessado em APRENDER A APRENDER, APRENDER A SER, APRENDER A FAZER;

2. APRENDER A APREENDER, e (o mais importante de todos), APRENDER A MANTER são pilares que deveriam ser definidos como parâmetros curriculares essenciais a todas as disciplinas;

3. Os jovens são responsáveis pela sociedade atual e futura, mas foram criados numa geração que não vivenciou a década de 60, seus líderes e ícones culturais, não lutaram pelas diretas já ou junto aos caras-pintadas, estavam nascendo quando o LP era o auge da ignara massa em termos de cultura e de bom gosto, são bombardeados diariamente de tanta informação e cobranças de soluções para questões que não apreenderam totalmente (tanto pela vivência quanto pela convivência) que se escudam desse estranho novo mundo por trás de seus IPODS, MP3 e celulares, únicos amigos virtuais que falam sua linguagem, além da cultura inútil que ora grassa em nossa sociedade: as bandas de consumo.

4. A escola ainda não está preparada para lidar com a massa que ora ocupa seus bancos antes acadêmicos; onde antes se sentavam futuros pintores e escritores, temos skatistas, grafiteiros, rappers (correlatos urbanos dos antigos trovadores/cordelistas/repentistas), com sua linguagem própria (que saudade da língua do “P”), uma vez que o já citado currículo está engessado em passar conceitos abstratos a alunos que aprendem na internet e nas ruas tudo que a escola ensina, não digo de forma correta mas de forma mais ampla que a maioria gostaria, já que o contato com tais conceitos se dá de forma empírica, os educadores ficam numa sinuca de bico, sempre tocando seu samba de uma nota só: ou de forma oral ou através de slides, filmes, vídeos, músicas, trabalhos manuais, análise de mapas, situações, imagens ou outros aparatos, a dificuldade de nós educadores sempre foi essa: o medo de sermos substituídos por uma máquina, (computador, celular ou tocador de MP3);

A escola como foi concebida, para uma elite que iria comandar os rumos do país, com disciplinas basilares tem que mudar esse conceito arraigado em sua gênese, já que hoje temos uma gama selecionadíssima de tipos humanos, objetivos, vivências, conflitos e outras inúmeras formas de convivência urbana ou rural em nossas escolas; quanto mais nos inteiramos como educadores de que precisamos manter o que foi feito até o momento, tanto no registro oral quanto escrito de nossa História oficial ou não-oficial, das conquistas cientificas, filosóficas e sociológicas, das mudanças na linguagem, no físico dos jovens (amadurecem o corpo mais cedo mas a mente demora a evoluir ou evolui cedo demais e de forma atrofiada por valores voltados a uma vida individualista, egoística e dominada pelo consumismo), mais fácil será lidar com essa situação, que ora se nos apresenta. O jovem de hoje precisa que nós nos tornemos no canal de contato com seus medos, anseios, dificuldades, dúvidas, que sejamos capazes de entender sua alma, sua mente, seu modo de ver o mundo que o cerca, voraz e exigente, para que eles se situem no tempo e no espaço, não tenham sua mente deturpada pela cultura inútil, que prega o amor, o sexo, o consumo, a falta de regras, pais ou professores, o imediatismo das coisas, a chama que se extingue rapidamente como o fogo na palha e o apagar da vela do próximo para que a escuridão ao seu redor faça sua vela brilhar mais forte;

Se não formos esse canal, essa ponte, essa ligação entre o conhecimento empírico e o abstrato, o jovem apenas nos verá como inimigo a ser ignorado e combatido, se escondendo nos escudos naturais de seus grupos sociais, (pseudo-panelinhas), virtuais (milhares de amigos nas redes sociais e pouquíssimos amigos na vida real, tímidos e arredios, sozinhos na multidão), não aptos a diálogos produtivos, e os rebeldes sem causa de outrora serão substituídos pelos rebeldes sem calça (cada vez mais caída), contestadores do status quo, mas sem objetivo pré-definidos, futuros clientes de terapeutas e incapazes de formularem uma frase escrita, já que os celulares com internet e mensagens instantâneas respondem as provas por eles.

A geração X continua a ser uma incógnita, com suas tribos e trilhas, caminhos desconhecidos a serem trilhados, mas nunca remando contra a maré, já que nem sabem qual a maré ou a pergunta que devem responder, ou tentar entender; por hora espero que fique a pergunta mais importante: o que nós como escritores, pensadores,filósofos de botequim e notívagos sem causa (espero que não sem calça) poderemos fazer por essa massa que se informa (deforma?) cada vez mais e se forma cada vez menos? Será que a tábula rasa que tanto ansiamos não está diante de nossos olhos mas nos recusamos a ver? Será que a mão estendida, cada vez mais perdida em meio ao mar de conhecimento navegue sem rumo em busca de uma lanterna dos afogados, em busca de uma salvação que nos recusamos a oferecer, do alto do tablado de nosso conhecimento absoluto (limitado pelas rédeas de nosso comodismo)? Pensemos nisso por ora, caros amigos e leitores.

Adilton Gomes Silveira, 16/09/2011. 02:51

Adilton
Enviado por Adilton em 16/09/2011
Reeditado em 09/03/2016
Código do texto: T3222509
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