QUANDO FERRO VIRA POESIA

José Neres

(Professor e Escritor)

Por razões mais sociais que intelectuais, literárias ou de talento, o número de homens que publicam nas letras maranhenses ainda é maior que o de mulheres que expõem ao público seus versos, romances, contos ou peças. Mesmo assim, há uma boa quantidade de mulheres brindando os leitores com suas obras e mostrando que a competência no manejo com as palavras escritas não faz diferença de gênero, condição financeira ou grau de escolaridade.

Nomes como Arlete Nogueira da Cruz, Lúcia Santos, Geane Fiddan, Rosemary Rêgo, Lenita Estrela de Sá, Hélia Lima, Sonia Almeida, Ceres Costa Fernandes, Dorinha Barros, Raimunda Frazão, Zelinda Lima, Mundinha Araújo e Aurora da Graça, entre tantas outras, ou têm seus espaços consolidados ou em vias de solidificação na história literária maranhense, que ainda carece de estudos mais aprofundados a respeito de seus autores, não apenas com relação à produção intelectual das mulheres, mas sim em todos os âmbitos.

Aos nomes acima citados, podemos acrescentar o de Ana Luiza Almeida Ferro, escritora que se divide entre as argumentações técnicas dos estudos jurídicos e as sutilezas metafóricas da poesia. De sua atuação no campo da magistratura resultaram alguns livros teóricos como “Escusas absolutórias no Direito Penal”, “O crime de falso testemunho ou a falsa perícia” e “Interpretação constitucional: a teoria procedimentalista de John Hurt Ely”, entre outros trabalhos muito apreciados pelos profissionais da área do Direito.

Mas como nem tudo pode ser definido pelo olhar técnico do estudo das leis, Ana Luiza Almeida Ferro também se dedica à tessitura poética, tendo recebido algumas honrarias em concursos literários, além de comentários elogiosos de estudiosos voltados para as letras. Em parceria com seu genitor, o pesquisador, poeta e prosador Wilson Pires Ferro, publicou o livro “Versos e Anversos”. Depois, sozinha, e sem estardalhaço, trouxe à luz, em 2008, o livro “Quando”, uma coletânea de poemas que foram amadurecidos ao longo de anos e mais anos de trabalho com as metáforas que compõem a obra.

O livro tem pouco mais de 80 páginas e é composto por 37 poemas, que abarcam desde a metalinguagem até as questões sociais do dia a dia, passando por experimentalismo gráficos e espacializações de palavras (que lembram a vanguarda concretista) e por incursões metafísicas, como solidão, amores, desesperança e a dor/alegria do existir. Alguém que lesse apressadamente o livro poderia argumentar que essa variedade de temáticas e de técnicas utilizadas traz seus reflexos na qualidade, na forma e na recepção dos poemas, principalmente pela falta de unidade temática entre os textos do livro. Contudo, um olhar mais atento ao volume, a começar pelo título e pelas datas dos poemas, mostra que o que o leitor tem em mãos não é um conjunto planejado, mas sim o apanhar de diversos momentos que foram paralisados e fixados na folha do papel ou na tela do computador.

O “Quando” que dá nome ao volume é bem mais que o título do nono dos 37 poemas do livro, é, principalmente um prolongamento temporal que não se fixa no presente, no passado ou no futuro, mas sim que tenta enlaçar o contínuo e o descontínuo temporal de diversas experiências em um todo que não encontra em si mesmo uma unidade. O quando é o agora, é o ontem, mas também é o amanhã. Mas o quando também pode ser o sempre ou o nunca, dependendo do “indelével oscilar / previsível variar / vida pendular”, como diz um dos poemas.

A sensação da fluidez do tempo, da alegria, da dor e da própria vida é uma constante no livro de Ana Luiza Almeida Ferro. Porém, não é por dar ênfase a esse movimento pendular de idas e vindas que ele deixa de observar o cotidiano de nossa realidade social, com se dá, por exemplo, em “Inocência perdida”, “Pixote” e “É carnaval”, poemas que dissecam alguns aspectos sociais visíveis em qualquer grande centro, mas que, de tão repetitivos, tornaram-se invisíveis aos olhos da sociedade em geral.

“Quando” é um livro para ser lido com calma, sem compromisso com as teorias literárias, mas sem fechar os olhos para as metáforas que afloram a cada página.

José Neres
Enviado por José Neres em 16/11/2010
Reeditado em 18/11/2010
Código do texto: T2618754