UMA ETERNA LITANIA

José Neres

Uma velha mendiga, combalida pela miséria, pelas sevícias do tempo e pelas agruras de uma vida inteira de dores e amarguras, atravessa a cidade em busca da sobrevivência. Um mero pedaço de pão endurecido transforma-se em um banquete diante da fome que a corrói. Uma moeda de qualquer valor é vista como verdadeira fortuna. A mendiga passa quase invisível diante de olhos que teimam em enxergar apenas um lado da realidade. A velha senhora, aos poucos, vai perdendo as forças e percebe que seus últimos instantes se aproximam. Uma chuva torrencial leva para longe os parcos pertences da mulher, suas esperanças, seus sonhos e até sua história.

A cena acima descrita poderia servir de enredo para uma notícia de página de jornal, ou para uma conversa de esquina, quem sabe para ilustrar uma palestra sobre direitos humanos... Mas nas hábeis e poéticas mãos de Arlete Nogueira da Cruz, esse pequeno fragmento de vida ganhou a dimensão de poesia e veio à luz com pertinente título de Litania da Velha, um dos mais interessantes e contundentes exemplos de como engajamento social e lirismo, palavras e imagem podem conviver pacificamente nas páginas de um livro sem a necessidade de o autor cair na mera verborragia sentimental, ou no puro panfletarismo de caráter político. Não! Em Litania da Velha, o que há poesia em seu mais alto grau e um laborioso trato com a linguagem, para tirar de cada vocábulo a seiva poética que permite ao artista dizer muito com poucas palavras.

Utilizando pouco mais de meia centena de estrofes, todas em formato de dísticos bastante longos, Arlete Nogueira consegue, no ritmo de cada verso, reproduzir para o leitor o cansaço que se apodera da protagonista a cada passo dado rumo a seu inexorável destino. A cada ladeira vencida ou a cada esquina dobrada, o peso do viver se multiplica e o corpo da mendiga se verga à certeza de que já lhe é impossível suportar as injustiças do mundo e os inúmeros descasos sociais que espreitam os menos favorecidos em cada esquina e em cada decisão tomada.

Ao longo das páginas, o leitor vai percebendo que, como tudo no poema, a imagem da velha é também uma grande metáfora utilizada pela arguta autora para fazer suas denúncias subliminares. Aos poucos a mendiga e a cidade por onde ela vaga entram em processo de fusão, e, metaforicamente, transformam-se em um amálgama em que o sofrimento de uma se reflete na dor da outra, e a decadência da mulher é o prenúncio do abandono pelo qual passa a cidade.

De um modo bastante singelo, Arlete Nogueira deixa a seus leitores a mensagem de que da mesma forma que uma velha mendiga aparentemente insignificante morre à vista de todos (cidadãos comuns e autoridades), a cidade também está agonizante e ninguém se move para socorrê-la ou para tentar salvá-la do acelerado processo de decomposição física, histórica e moral. Tal mensagem pode ser percebida não apenas pelo elegante jogo de metáforas utilizado pela escritora, mas também pelas ilustrações que acompanham o texto. As fotografias tiradas por Edgar Rocha, Raimundo Guterres e Wílson Marques dialogam com o poema e reforçam as relações entre o desrespeito aos seres humanos e o depauperamento das edificações que guardam também nossa história

Litania da Velha é um livro para ser lido de uma só vez, mas que exige uma pausa em cada final de verso. Uma pausa para reflexão, pois, como em uma eterna litania, a história se repete dia-a-dia, e nós não nos damos conta de que caminhamos de cabeça baixa e olhos suplicantes rumo ao nosso próprio fim.

José Neres
Enviado por José Neres em 31/01/2011
Código do texto: T2763162
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