Teologia do arrebatamento

Arrebatamento é uma crença muito presente nas denominações pentecostais de que em algum momento antes do fim do mundo os crentes em Jesus Cristo seriam instantaneamente removidos da terra para encontrar o Senhor nos céus. Algumas lideranças religiosas até estimam quando acontecerá esse plano de Deus para arrebatar aqueles que estiverem preparados, no caso os crentes daquela denominação religiosa. Trata-se da deportação dos Santos daqui da terra para o céu antes da tribulação. Esse grande evento seria secreto, pois ninguém saberia que ele aconteceu e aqueles que ficarem na terra saberão apenas por não terem mais notícia de determinadas pessoas queridas. Também se acredita que nesse momento carros ficarão desgovernados, aviões cairão dos céus, pois seus motoristas e pilotos foram arrebatados para o céu.

 

Não existe arrebatamento. Você viu, assim como eu, a Baby do Brasil pregando o terror no carnaval de Salvador e dizendo que em cinco ou dez anos acontecerá o arrebatamento. Outros pregadores já fizeram previsões semelhantes que não se consumaram. Portanto, já passou do prazo. Hal Lindsey predisse em 1970 que “em quarenta anos desde 1948 quando foi formado o Estado de Israel que seria o início da última “geração” conforme descreve Mateus 24, 32-33; 24, 34. Logo, o arrebatamento deveria acontecer em 1981 ou 1982. São predições sensacionalistas como essa que atravessam a vida de fé de tantas pessoas simples, que se apoiam em crenças e pouco estudo possuem. Essas predições como a que fez Baby no Carnaval não seriam usadas para garantir a fidelidade de seus seguidores na igreja que dominam ou congregam?

 

As palavras gregas usadas no Novo Testamento para descrever o retorno de Cristo são parousia-vinda, apokalypsis-revelação e epiphaneia-aparecimento; não sugerem um arrebatamento secreto antes da tribulação. Não é esse conceito que expressa a esperança cristã no Advento de Cristo.

 

Pois é, não existe arrebatamento, nem nas Escrituras e nem na história de 2000 anos da Igreja Cristã. A doutrina do arrebatamento é uma invenção de fundamentalistas evangélicos estadunidenses do século XIX, deturpando uma tradução de 1 Tessalonicenses 4:17, que trata especificamente da doutrina da Ressurreição dos Mortos. A “palavra de ordem”, “a trombeta e o grande ajuntamento dos vivos e santos ressuscitados dificilmente sugerem um evento secreto, invisível e instantâneo. Ao contrário, as referências apontam um momento barulhento, público, sem nenhum traço de arrebatamento secreto. Então, por que insistir na pregação de um evento secreto como fazem essas lideranças religiosas? Que interesses esses pregadores possuem sobre seus seguidores?

 

Aqui no Brasil, onde os evangélicos são em sua maioria fundamentalistas, essa doutrina perversa e doentia, se alastrou. A ideia de que pessoas serão abandonadas na terra para sofrer, que carros ficarão desgovernados e aviões cairão do céu, por conta do “rapto” dos crentes que desaparecerão da terra, não reflete a Graça de Deus, revelada nos Evangelhos. É contrária à misericórdia divina de um Deus amoroso.

 

Karen Armstrong chama o arrebatamento de “a doutrina do ressentimento”, de uma classe religiosa magoada e que deseja o sofrimento de todas as pessoas que não pensa como ela. O arrebatamento não combina com Jesus.

 

As passagens bíblicas sobre a tribulação não oferecem suporte para um arrebatamento pré-tribulação da Igreja, pois Mateus (24, 22) nos fala “por causa dos escolhidos tais dias serão abreviados”, mas não se refere apenas aos judeus crentes ou a uma Igreja em particular. Cristo se dirigia a seus apóstolos que representavam a Igreja em geral. O evangelista Mateus descreve a segunda vida de Jesus após a tribulação.

 

A Volta de Jesus, a Ressurreição e o Apocalipse são uma mensagem de graça e esperança, de um novo céu e uma nova terra, sem sofrimento, sem dor, e toda forma de opressão. As Igrejas rancorosas são inconvenientes e sem Graça. Sem Deus. Usam de meios aterrorizadores para dominar os simples, os crentes de pouco estudo. Dominam e alienam o povo que os segue. Na Idade Média a Igreja católica também procedia com esses mecanismos aterrorizantes. Inclusive vendia o céu aqui na terra mesmo através do comércio das indulgências. Será que não estaríamos retornando a uma nova cristandade medieval de viés pentecostal?

 

Desta forma, concluímos que qualquer pregação a respeito de uma vinda secreta de Jesus Cristo para arrebatar a Igreja antes da tribulação final é desprovida de qualquer apoio bíblico. Tal crença torna Deus culpado de dar tratamento preferencial à Igreja removendo-a da terra, deixando os crentes judeus a sofrer a tribulação final. A segunda vinda de Cristo é um evento único que ocorre após a grande tribulação e será experimentada por todos os crentes de todas as eras e de todas as raças e de todas as religiões e igrejas. Esta é a bendita esperança que une toda nação, tribo, língua e povo (Ap 14, 6).

Edebrande Cavalieri
Enviado por Edebrande Cavalieri em 20/02/2024
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