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O Discurso Erótico e o Pornográfico



Dias atrás, ao escrever dois poemas e ter que escolher uma categoria, fiquei na dúvida. Os dois eram bastante sensuais mas não sabia se colocava-os como eróticos ou não. Fui tomada pelo espírito maníaco pesquisador, rata de biblioteca dos tempos da Facu, quando cursei Letras.  Não cheguei a nenhuma conclusão plausível. Parece que o limiar entre o erótico e o sensual é bastante tênue e relativo, mas li algumas coisas muito interessantes como o olhar erótico masculino e o feminino, que parecem ser diferentes. Na literatura, para algumas escritoras como Clarice Lispector a questão de ser homem ou mulher quem escreve, não importa. Já a escritora Marina Colassanti, tem uma postura bastante feminista a respeito...e por aí vai. Mas o que achei interessante publicar aqui no Recanto, de maneira mais sucinta, foi um artigo sobre um livro de contos eróticos, "Intimidades", que reúne uma coletânea de contos de dez escritoras: cinco brasileiras e cinco portuguesas. Entre outras Lygia Fagundes Telles e Nélida Piñon, Lidia Jorge e Theolinda Gersão. Já na apresentação, Luisa Coelho, a organizadora do livro diferencia o erotismo da pornografia da seguinte maneira:
O pornográfico como discurso que, "com descrição crua dos atos sexuais, tem como principal objetivo produzir a excitação de um terceiro e, com isso, esvazia o mistério da sexualidade de todo seu conteúdo". O discurso pornográfico é aquele que torna o ato sexual transparente, revelando aquilo que na sexualidade do dia-a-dia é invisível, numa estética hiper-realista, onde as cenas descritas são mais reais do que a própria realidade. O sexo surge em relação com o sujeito sem intimidade.
O erótico como o discurso a que "cabe seduzir, encara a representação da sexualidade como não sendo apenas confinada ao sexo, mas envolvendo uma história, consciente e inconsciente, onde se inscrevem relações entre o desejo e o interdito, o encontro e o desencontro, o prazer e a dor, o sonho e a realidade, o amor e a morte". O discurso erótico é um dos meios usados para fazer uma representação verbal mais completa de Eros, com todos os seus componentes, e não apenas como uma exploração grosseira e gratuita da libido. Duas autoras tomam a palavra: "O pornográfico é o cruel, aquilo que, despindo-se, chega ao osso" (Lídia Jorge). "É pura carne descarnada" (Piñon). Para ambas a literatura e o erotismo se pertencem. "O literário é o campo próprio daquilo que é o metafórico, o lúdico, e o lúdico está com o erótico, não com o pornográfico" (Jorge). "O verbo é erótico. O cotidiano se erotiza enquanto você fala. Com os gestos, com a boca, com o movimento dos lábios" (Piñon).
Inês Pedrosa assume o rumo da diferença: "Todos somos, de vez em quando e por muito que o neguemos, moralistas. Em geral, consideramos pornográfica a relação sexual da pessoa que amamos com outra pessoa. Ou seja: é erotismo o sexo que nos envolve, é pornografia o que nos exclui. Na literatura também é assim: erótica é a obra que nos desperta a alma e os sentidos; pornográfica a que, por ser vulgar, previsível, não nos perturba".
Acho que deu para elucidar um pouco o assunto: erótico e pornográfico. Quanto a sensualidade, continuei flutuando em algumas dúvidas, mas encontrei esse texto, até que bem interessante :  “ No altar da hipermodernidade, não há lugar para o sensual, que é o velado, o desejo de buscar, de sonhar, de lutar por alguma coisa, pois você tudo pode, já tem tudo e mostra tudo. Nessa apologia incessante do corpo, não há lugar para sutilezas, mistério, insinuações. Nada é instigante. Tudo é hiperexposto. A tênue linha entre o erótico e o pornográfico foi apagada pela geração Big Brother, que revela sua intimidade à luz das câmeras, entre cobertores, duchas e piscinas”.
 
 
 

Ana Valéria Sessa
Enviado por Ana Valéria Sessa em 18/01/2006
Reeditado em 19/07/2007
Código do texto: T100614

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Sobre a autora
Ana Valéria Sessa
São Paulo - São Paulo - Brasil
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