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Direito ao voto

Em ano de eleição presidencial e Copa do Mundo (e que Deus nos ajude), sempre me pergunto: elegemos mal por que não sabemos votar, ou  nunca tivemos líderes de verdade para eleger?

Cresci a sombra da ditadura militar,  em um lar onde meu pai, apesar de ser da Marinha de Guerra, era um homem esclarecido e  estimulava o nosso raciocínio político.

Para se ter uma idéia, dois jornais(denominados imprensa marrom na época, e se alguém souber de onde vem esse adjetivo pejorativo, por favor me esclareça), tinham passagem livre em minha casa: a Tribuna da Imprensa (clandestino) e o "PASQUIM",  onde aprendi com o personagem Graúna o que era o verdadeiro significado de sarcasmo.

No ano do golpe militar,e que meu pai fazia questão de diferenciar que não ocorrera revolução, eu tinha três anos,e, portanto somente pelos idos dos anos setenta, por volta dos oito ou nove anos, foi que eu comecei a descobrir o mundo da política.

Como eu já expliquei em outro texto,a televisão adentrou a sala de visitas da minha casa, para nunca mas sair, no ano que eu nasci. E assim, eu tive a oportunidade de começar a conhecer a fisionomia daqueles que governavam o país. Ver o rosto dos nomes que guiavam a nação. Era o início do que os militares chamariam no governo de Ernesto Geisel de "abertura  politica".

Eu recordo que só existiam dois partidos, e por favor, me corrijam os historiadores de plantão: a ARENA e o MDB, e para mim, que começava a descobrir o que era política, todo final de noite era sagrado. A propaganda política se tornava o melhor programa da televisão.

Está certo que existia influência paterna, mas era divertido ouvir os candidatos, tanto quanto é hoje. O diferencial estava no fato de que pessoas estavam morrendo nas delegacias e no quartéis para que aqueles poucos minutos de falsa liberdade pudesse ir ao ar.

O MDB, partido da oposição, apresentava um programa bem feito, com logotipos e toda uma diagramação estruturada por profissonais da área de comunicação, em uma época que ainda não se falava em layout, designers,  e o termo progamação visual lembrava se arrumar para ir a um casamento.

A ARENA era o partido do governo, e tinha como apresentador o impagável Amaral Neto, lembram dele? sempre pendurado acima de crocodilos? uma mistura de caçador de aventuras com garoto propaganda do governo?

O programa era mal feito, mal editado, e sempre ao final seus produtores faziam questão de justificar que não tinham os recursos financeiros do outro partido, que era mantido pelas forças do mal, ou qualquer coisa parecida.

Foi então que veio a minha primeira eleição. Eu mal havia completado dezoito anos.

Ainda brincando de bonecas, lá fui eu para  as urnas, levando na bolsa uma cédula pronta para ser copiada. Pois é, tanta democracia dentro de casa, mas na hora de votar meu pai me achou criança demais para escolher, e queria ter certeza eu eu nao iria errar. Lembro que me entregou o nome e os números dos candidatos que eu deveria " votar". Todos obviamente da escolha dele. Não tinha erro. Era só copiar. E eu copiei.

Eu poderia ter negado, e escolhido outros candidatos. Ocorre que eu estava  encantada com o discurso daqueles homens, que pregavam  liberdade de expressão, coisa que desde que aprendi a ler e escrever, se tornou para mim algo tão precioso. Vivia em um Brasil que sofria todas as restrições intelectuais, culturais e cientificas possíveis, e me sentia honrada em copiar aquela cédula.

Foi a minha primeira eleição e a última do meu pai, pois ele faleceu um pouco antes da próxima. Sei que nesta eleição, Brizola se tornou governador do Rio de Janeiro (com meu voto), Saturnino Braga foi o senador mais votado do pais(com meu voto). Felizmente meu pai não viu o que aconteceu depois neste país, mas eu vi e senti!

Se perguntarem quem eram os outros candidatos,  eu nao saberei dizer!

Mas  recordo muito bem  que,  rostos que hoje aparecem apontados como corruptos e corruptores nas CPI´S (também muito bem produzidas e televisionadas), desabrochavam como nossos futuros líderes, manobrando muito bem o que hoje chama-se marketing.

Somos um povo que sabe votar. O problema é ainda votamos na imagem que vemos, do mesmo jeito que compramos um veiculo ou uma roupa. Os partidos políticos estão vendendo ao povo um produto, mas não oferecem serviço de atendimento ao cliente. Assim sendo, nós os consumidores finais, quando descobrimos o vício ou defeito oculto não podemos devolver ou exigir uma indenização.

Se temos líderes? nao sei dizer! Todos estão tão iguais e fazem os mesmos discursos, como se aprendessem na mesma escola, que se torna dificil saber se há idéias ou partidos políticos como melhores redatores!

Mas, dentro do espírito democrático que fui criada, questiono se escolhemos o lado certo. Penso em milhares que morreram ou simplesmente desapareceram defendendo um ideal. Será que  entre estes não estavam os verdadeiros líderes que precisávamos e ainda precisamos?

Um dia,e talvez não demore muito, vamos estar tão cansados de produtos defeituosos que nos recusaremos a comprar. Poderemos até ir para as urnas, mas não traremos ninguém para casa. E quando esse dia chegar, o povo realmente vai estar no governo deste país!
marta cruz de lima
Enviado por marta cruz de lima em 22/01/2006
Reeditado em 22/01/2006
Código do texto: T102480
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Sobre a autora
marta cruz de lima
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 55 anos
9 textos (1273 leituras)
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marta cruz de lima