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ARAFAT, MORTO

“O prisioneiro, cuja morte anseiam,
Sentado está,
O prisioneiro, que outro sol no ocaso
Jamais verá!
Contudo os olhos d’ignóbil pranto
Secos estão;
Mudos os lábios não descerram queixas
Do coração.
Mas um martírio, que encobrir não pode,
Em rugas faz
A mentirosa placidez do rosto
Na fronte audaz!”

(GONÇALVES DIAS, I-Juca Pirama – “O que vai morrer”)

Yasser Arafat, 75 anos, amparado por seus correligionários Abu Mazen e Ahmed Korei, deixa a Mukata (sede da Autoridade Palestina em Ramallah, Cisjordânia). Segue rumo ao elísio médico francês, graças à providencial ajuda da Jordânia, fornecedora dos helicópteros que providenciarão seu transporte (melhor, translado).

A figura trôpega, frágil, do líder palestino, inexoravelmente carregado rumo a um helicóptero, deixando para trás a pátria (”terra de nossos pais”) guarda consigo um simbolismo cruel, como se perdido estivesse o último às na manga de um jogador que caminhou por anos com galardia pelo fio da navalha do improvável. Como um exemplar contemporâneo das admoestações de Nicolau Maquiavel acerca da volatilidade da fortuna.

Não haveria mais tempo para jogadas inusitadas como a Paz de Oslo de 1993, na qual Arafat tentou oportunamente converter a derrota do apoio a Saddam Hussein (na Guerra do Golfo de 1991) numa vitória, mesmo que de Pirro, do esboço de um estado palestino. Óbvio que os ventos eram outros, o do entusiasmo do pós-Guerra Fria, da “nova ordem mundial” de George Bush sênior (para desgosto dos democratas e incômodo dos atuais republicanos, verdadeiro estadista). Israel, cuja dependência em relação aos Estados Unidos (e vulnerabilidade militar) fôra demonstrada à exaustão na mesma Guerra do Golfo, aceitara ressabiada o trade-off “terra por paz” sob a as asas da águia (à época, quem duvidaria, inexpugnável – Osama Bin Laden ainda passava por “nosso valioso aliado no Afeganistão”).

Em nossos dias, a fortuna parece ter voltado sua face benfazeja aos israelenses. Uma vez sacrificado Yitzhak Rabin na pira do extremismo político-religioso, os revezes de Arafat se seguiram em quantidade (na mesma proporção das concessões feitas a Israel por um Arafat cioso das conquistas diplomáticas de então), como marcos no deserto de Neguev – Wye Plantation, Al-Aqsa, a nova Intifada, a ascensão de Sharon, Jenin, o Muro, o Mapa da Paz.

A jornada de Arafat pelo deserto político da década de 1990 teriam, para muitos observadores, similaridade com as narrativas bíblicas de tentações entre as dunas – provações as quais o líder palestino não teria sabido enfrentar. Nos anos 60, Arafat era o proverbial “homem mais procurado do mundo” (OK, descontado Fidel Castro) que, no ocaso do pan-arabismo, deu consistência e coerência a um dos mais robustos movimentos nacionalistas do planeta, against all odds. A OLP, surgida nas convulsões dos anos 60, sobreviveria aos Seis Dias, ao Yom Kippur, ao Setembro Negro, à guerra civil libanesa e ao golpe mais profundo da invasão israelense no Líbano em 1982. Arafat tornou-se um profissional do risco. Obtendo respaldo internacional para a criação do estado palestino ao longo dos anos 70 e 80, Arafat foi alçado à condição de peça-chave no xadrez da política internacional (uma façanha para quem, nos anos 60, era tido e havido como um mero gendarme do terrorismo internacional, marionete dos governos árabes de então).

Fazendo referência à obra de Ernest Kantorowitz *, podemos delinear a trasmutação do cacife político de Arafat, o sobrevivente, no corpo político que conhecemos por Estado Palestino. Arafat, como os reis medievais, incorporando “a nação”, passa a ser possuidor de dois corpos, o corpo físico, perecível, e o corpo transcendente, equivalente ao corpo político de toda a sociedade (e, diriam os mais cínicos, daí viria o “direito natural” de governar) . É nesse sentido que o confinamento de Arafat por Israel na Mukata, no começo do século XXI, implica não apenas a desconstrução da figura mítica do Arafat guerreiro temerário, sobrevivente de mil batalhas – mas, principalmente, a separação entre a nação e o “soberano” que a construiu, com efeitos devastadores para ambos.

Na Europa dos séculos XVIII e XIX, tal processo (a quebra do “complexo Rei-sociedade) origina o Estado de Direito, com a soberania sendo retirada do corpo transcendental do Rei, passando a constituir o cerne de um corpo político de cidadãos livres – a comunidade política. A personificação do poder na figura do monarca perde toda a sua legitimidade e o Estado assume os elementos de legitimação do poder e de explicação desse poder, através de um ordenamento jurídico de conotações abstratas. No caso palestino – calcado nas conquistas políticas (mais, simbólicas) de Arafat – Israel promove astutamente o esfacelamento do processo de constituição de um estado palestino. No seio dessa desconstrução, torna-se fundamental empregar um simulacro, arremedo do processo de “ruptura modernizante” que teve lugar na Europa, propugnando a democratização das instituições palestinas e, por tabela, condenando Arafat por sua “autocracia”. O duplo fogo do descrédito (interno, pelas concessões cada vez maiores feitas a Israel) e externo (suposta ausência de credenciais democráticas – a eleição de Arafat em 2000 parece não ter tido qualquer relevo – e ação cada vez mais intensa dos grupos “terroristas” palestinos, para além do controle da OLP, transformada em Autoridade Palestina) consumiu o capital político de Arafat. A ascensão dos neoconservadores nos Estados Unidos e o 11 de Setembro infligiram golpe decisivo na direção do surgimento, a fórceps, de “lideranças moderadas palestinas”, promovendo o congelamento indefinido da “paz por terra”.

O esvaecer de Arafat, no estrangeiro, surge como peça final do intrincado quebra-cabeça político israelense, na tarefa simultânea de construção de seu estado e inviabilização de um similar palestino, processo que remonta à segunda metade do século XIX. Ambos os lados fizeram seguidas exibições de robustas ações coletivas (colonos israelenses e Intifada como exemplos mais candentes), empregaram o terrorismo a la carte, buscaram aliados de vulto para seus projetos nacionais, esgrimaram nos palcos da diplomacia de cúpula e demonstraram sua indiferença perante o Direito Internacional em ocasiões diversas (ainda que a balança das violações penda consideravelmente mais para o lado israelense). O estado palestino, porém, cada vez mais se assemelha a um bebê retirado prematuramente do ventre e forçado a correr uma maratona. Double-standard tornou-se a palavra-chave no vernáculo político palestino.

Arafat, oportunamente autorizado por Israel, vai cambaleante a caminho do cadafalso francês, deixando atrás de si o território tão duramente “conquistado” (ou cedido?) que seu povo habitou por séculos. Da forma que seria mais adequada para as aves de rapina do Likud – esvaziado de simbolismo, um amainado aliado dos EUA e de Israel, sob pesadas críticas de seus compatriotas, ex-guerreiro confinado por anos, como uma princesa dos contos de fadas, nas ruínas do castelo de Ramallah. Sharon, nesse ínterim, não deixa dúvidas quanto a quem dá as cartas no atual contexto, na retirada unilateral (cirúrgica) dos colonos de Gaza e na manutenção do novo Muro da vergonha.

Arafat, o sobrevivente, busca o ar que lhe restou em plagas francesas, ou mais ainda, a virtú que lhe escapou lentamente ao longo de uma década de concessões – sabedor de que escasseiam as oportunidades de converter derrotas profundas em vitórias improváveis. Enquanto isso, o estado palestino agoniza ainda mais profundamente. Abu Mazen e Ahmed Korei, prováveis cabeças coroadas do porvir, se entreolham com pesar, mais por desconfiança mútua do que em homenagem a Arafat.

“Digo por que se vê um príncipe hoje em franco e feliz progresso e amanhã em ruína, sem que tenha mudado sua natureza ou as suas qualidades; isso resulta, segundo creio, primeiro das razões que foram longamente expostas mais atrás, isto é, que o príncipe que se apoia totalmente na sorte arruína-se segundo as variações desta. Creio, ainda, seja feliz aquele que acomode o seu modo de proceder com a natureza dos tempos, da mesma forma que penso seja infeliz aquele que, com o seu proceder, entre em choque com o momento que atravessa” **

A fortuna, mais uma vez, está lançada.

(Escrito na noite de 29/10/2004)

* KANTOROWICZ, Ernest H. Os dois corpos do rei - um estudo na teologia política medieval. São Paulo: Companhia das Letras, 1988. Vide também GAMA, Carlos F. P. S. A Soberania, essa estranha – refletindo sobre os alicerces da análise em Relações Internacionais. O DEBATEDOURO 37, Outubro 2003.

** MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. São Paulo, Editora Cultrix, 1977, p. 35.
Swancide
Enviado por Swancide em 30/12/2004
Código do texto: T1027
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Sobre o autor
Swancide
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 38 anos
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