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ALEGORIA É OLHAR DE MEDUSA: as líricas de Charles Baudelaire e de Isidore Ducasse

      Em tempos de Iluminismo, a “Enciclopédia” foi o documento no qual se registrou a poderosa arma ideológica da burguesia do século XVIII contra a tradição despótica. Contudo, uma coisa é negar, criticar; outra coisa é propor uma nova ideologia de cunho altamente racionalista, para superar a antecedente. Assim, nas trilhas do pensamento barthiano, e por mais paradoxal que possa parecer:

“Pode-se dizer que não existe uma só prancha da Enciclopédia destituída de vibração muito além de seu propósito demonstrativo. Esta vibração singular é antes de tudo uma surpresa. A imagem enciclopédica, por certo, é sempre clara: porém, numa região mais profunda de nós mesmos, para além do intelecto, ou pelo menos em seu perfil, nascem perguntas para as quais não encontramos respostas. Veja-se a pasmosa imagem do homem reduzido à sua rede de veias; a audácia anatômica confunde-se aqui com a grande interrogação poética filosófica: O que é? Que nome atribuir? Como atribuir um nome?” (Barthes  1974 , p.39)

     Às vezes, acontece que algumas palavras, linhas e imagens se aglomeram, dando origem a uma nova forma, a uma nova constelação, (re)desenhando, assim, uma certa essência da matéria. Nesse sentido,

“... uma das grandezas da ‘Enciclopédia’ consiste em ‘variar’ (no sentido musical do termo) o nível em que um mesmo objeto pode ser percebido, liberando desta maneira os segredos da forma; examinada ao microscópio, a pulga se transforma num monstro horrível, dotado de uma armadura de placas de bronze, provido de espinhos aguçados, com uma cabeça de ave maldosa, e este monstro atinge o estranho sublime dos dragões mitológicos; mais adiante, e noutro registro, o cristal de neve, ampliado, metamorfoseia-se em flor complicada e harmoniosa. (...) Como vemos a poética enciclopédica sempre se define como um certo irrealismo. A ‘Enciclopédia’ (através de suas pranchas) aceitou o repto de ser ao mesmo tempo uma obra didática, cujo ponto de partida por conseguinte é uma severa exigência de objetividade ( de ‘realidade’), e uma obra poética onde o real se vê constantemente ultrapassado por ‘outra’ coisa (o ‘outro’ é o signo de todos os mistérios).” (Barthes  1974, pp. 39-40)

     Com respeito à dimensão mágica da linguagem, em “Problemas da Sociologia da Linguagem”, Walter Benjamin, lembrando os estudos de Lévy-Bruhl sobre este ponto específico, destaca um importante aspecto nos escritos do referido etnólogo. Lemos, junto a Benjamin, o seguinte:

“... não existe percepção que não seja envolta num complexo místico, nem fenômeno que seja apenas um fenômeno, nem sinal que seja só um sinal. Como é que uma palavra poderia ser apenas uma palavra? Qualquer forma de objeto, toda e qualquer imagem plástica, qualquer desenho possui virtudes místicas; a expressão verbal, que é um desenho oral, não pode, pois, deixar de a possuir. E este poder não pertence apenas aos nomes próprios, mas a todos os termos, quaisquer que eles sejam.” (Benjamin 1993 , p.202)

     A “Enciclopédia”, buscando o ideal de clareza, confunde o simples, o elementar, o essencial e o causal – assim afirma Roland Barthes (1974). Vamos à “Enciclopédia” como quem vai às exposições. No interior do esoterismo técnico, o objeto enciclopédico é subjugado. A “Enciclopédia” - comparada a uma confeitaria - assemelha-se a um certo conjunto barroco:

“A ‘Enciclopédia’ é um vasto balanço de propriedade (...) apropriar-se é fragmentar o mundo, é dividi-lo em objetos prontos (...) Miticamente, a posse do mundo não teve início na Gênese e sim no Dilúvio, quando o homem foi compelido a nomear cada espécie animal e alojá-la, isto é, a separá-la das espécies vizinhas; aliás, a ‘Enciclopédia’ tem uma visão essencialmente pragmática da Arca de Noé; para ela, a arca não é um navio (...) mas sim uma longa caixa flutuante, um cofre receptador...” (Barthes  1974, p.30)

     O mundo dos objetos e o algarismo obsessivo do homem. Sobre isso Benjamin nos informa que:

“Em 1900 a Associação de Engenheiros Alemães empreendeu a redação de um vasto dicionário tecnológico. Em três anos reuniram-se mais de 3 milhões  e meio de fichas, mas em 1907 a direção calculou que seriam precisos quarenta anos para, ao mesmo ritmo de trabalho, terminar o dicionário. A iniciativa foi suspensa depois de ter recolhido meio milhão de termos. Tinha-se constatado que para um dicionário tecnológico era preciso tomar por base as próprias matérias, numa ordem sistemática; a ordem alfabética é insuficiente para um objeto deste gênero.” (Benjamin  1992, p.212)


A LÍRICA NO AUGE DO CAPITALISMO

     Soa uma voz superior na poesia francesa. A poética romântico-simbólica nos seis Cantos de Maldoror - rompendo com códigos e dando liberdade à palavra – apresenta-se, repentinamente, a uma época que apostava no progresso da ciência de uma forma desmedida. Em conseqüência disso, e junto à experiência de um mundo assumindo a rigidez cadavérica, Charles Baudelaire exprime tal sentimento da seguinte forma:

“O que são os perigos da floresta e da pradaria comparados aos choques e conflitos diários do mundo civilizado? Enlace sua vítima no bulevar ou trespasse sua presa em florestas desconhecidas ...”(Apud Baudelaire: 1989 )

     Surgiu um poeta justamente num momento em que a poesia interessava a poucos. “Flores adornam cada estação desse Calvário. São as flores do mal ” (Benjamin, 1989). O mundo é mal e, para ir além do mal, tem-se que passar por ele: “Majestade da intenção alegórica: destruição do orgânico e do vivente - destruição da ilusão.” (Idem, ibidem). O século XIX, obcecado pela perspectiva resolutamente positivista da ciência (que postula a idéia de progresso, para fazer recuar a ignorância e a superstição), foi surpreendido pela sombria melodia recém-nascida dos “Cantos de Maldoror” - eco da última trombeta, convertendo em ruínas o vocabulário da linguagem científica: “musaranho...; rotíferos...; tardígrafos...; acre serosidade supurativa...; estercorários...; anhinga...; unguiculada...; tentaculiformes...; élitros...” são algumas das palavras ou expressões que povoam o Canto V do livro negro de Isidore Ducasse ou do Conde de Lautréamont [1846-1870] - o futuro símbolo do Surrealismo, isto é, chegar ao absurdo do absurdo dentro de um quadro poético-racional ditado pelo inconsciente: “Um olhar absolutamente virgem espia o aperfeiçoamento científico do mundo, ultrapassa o caráter conscientemente utilitário desse aperfeiçoamento, e situa-o, com tudo o mais, na própria luz do apocalipse. Apocalipse definitivo...”, assim proclama o surrealista André Breton, contemplando, maravilhado, a poética de Lautréamont.
     Surgiu, enfim, um poeta que percebeu a sua época – a crise do capitalismo e a ascensão da sociedade de massas concomitante ao “mass media” –,  envolvendo a matéria bruta (suporte do conhecimento científico) num mundo de sentimentos.
     Em tempos de crise de inspiração, o poeta é, agora, o centro do cosmo sem suportes filosóficos ou religiosos, mas apenas abençoado pelo “óleo sagrado da linguagem”. O poeta Lautréamont ou Isidore Ducasse deixa Montevideo, para tombar desterrado na cidade de Paris. Numa espécie de “flânerie” introspectiva, o poeta reúne, pacientemente, fragmentos do discurso científico (que, naquela ocasião, se apresentava como único e verdadeiro), estocados numa memória artificial (o enciclopedismo), colecionando-os e catalogando-os à sua maneira. “Ao leitor de Baudelaire e de Walter Benjamin ocorre, inevitavelmente, a imagem do trapeiro”, falando com Fontes (1).
     Por conseguinte, em contraponto à nossa ânsia de saber enciclopédico, a paródia ou a transfiguração da linguagem técnica em linguagem poética; assim, Lautréamont desnuda o conteúdo do texto enciclopédico de toda cientificidade e tecnicidade, cobrindo-o de poesia, fazendo-o, enfim, significar outra coisa. Mediante o uso de uma linguagem literal de termos científicos, emprestados da “Encyclopédie d’Histoire Naturelle du docteur Chenu” (2) - acessível a todos naquela ocasião - por meio de um gesto alegórico, tudo é reorganizado e re-significado pelo poeta maldito Lautréamont, transformando, desse modo, o texto numa alegoria.
     Assim, se no dicionário enciclopédico pederastia é doença; em contrapartida, na poética de Ducasse, tudo é apocalipticamente redimido:

“Oh, se em lugar de ser um inferno, o universo não passasse de um celeste ânus imenso _ olhai o gesto que faço com o baixo ventre: sim, teria introduzido o pênis no seu esfíncter sangrento, despedaçando-lhe com meus impetuosos movimentos as próprias paredes da bacia! (...) A justiça humana não me surpreendeu ainda em flagrante delito, apesar da incontestável habilidade de seus agentes. Até já assassinei (não há muito tempo) um pederasta que não se prestava suficientemente à minha paixão; atirei-lhe o cadáver para um poço abandonado, e não têm provas decisivas contra mim. Porque estremeces de medo, adolescente que me lês? Julgas que eu quero fazer-te o mesmo? (...) tens razão: desconfia de mim, sobretudo és belo. As minhas partes oferecem sempre o lúgubre espetáculo da turgescência (...).” (Lautréamont 1988, p.175)

     Rodopio da linguagem levado às últimas conseqüências. Frente à sede de infinito de Lautréamont, o leitor pode se perder. Dispersão, perturbação... :

“Gozarei ainda, em segredo, dos exemplos numerosos da maldade humana (um irmão gosta de ver, sem ser visto, os atos dos seus irmãos). A águia, o corvo, o imortal pelicano, o pato bravo, o viandante grou, despertados, a tiritarem de frio, ver-me-ão passar à luz dos relâmpagos, espectro horrível e contente. Não saberão que significa aquilo. Sobre a terra, a víbora, os grandes olhos do sapo, o tigre, o elefante; no mar, a baleia, o tubarão, o peixe-martelo, a informe raia, o dente da foca polar, perguntarão que exceção é esta à lei da natureza (...).” (Lautréamont 1988, p.32)

     Horror e crueldade, ambas situadas. O espaço: América. O tempo: fins do século XIX:

“O fim do século XIX verá o seu poeta (porém, a princípio, não deve ele começar por uma obra prima, mas seguir a lei da natureza); nasceu nas costas da América [Uruguai], na foz do La Plata, onde dois povos, outrora rivais, tentam ultrapassar-se pelo progresso material e moral. Buenos Aires, a rainha do Sul, e a galante Montevidéu estendem uma para a outra mãos amigas, através das águas argentinas do grande estuário. Mas a eterna guerra impôs o seu império destruidor sobre os campos, e ceifa alegremente numerosas vítimas. Tu, jovem, não desesperes, pois tens no vampiro um amigo, embora penses o contrário. Contando com o ácaro sarcopto que provoca a sarna, terás ao todo dois amigos.”  (Lautréamont 1988, p.48)

     Ao todo três amigos malditos: Charles Baudelaire, Arthur Rimbaud, Paul Verlaine. Melhor, ao todo, quatro: Stéphane Mallarmé! Constelação sobre a cinza dos astros... um lance de dados e...  Benditos Anjos Fundadores da Modernidade!



NOTAS

1. Sobre o tema Lautréamont, leitor de Baudelaire, consultar “Poesias de Isidore Ducasse: o argumento pela metamorfose”, de Joaquim Brasil Fontes. In ‘Letras’: R. do Instituto de Letras da Puccamp. Campinas, v.2, n.1. pp.93-109, abril 1983.

2. Consultar nota no.1. In LAUTRÉAMONT/ Isidore Ducasse. “Les Chants de Maldoror: poésies, lettres”. Paris: Imprimerie Nationale Éditions, 1990, p.412. Jean C.Chenu (1808-1897), ortinólogo e naturalista francês, é autor de uma enciclopédia natural.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARTHES, Roland. “Novos Ensaios Críticos/ o grau zero da escritura”. Tradução Heloysa L. Dantas, Anne Arnichand, Álvaro Lorencini. São Paulo: Cultrix, 1974.

BENJAMIN, Walter. “Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo”. Tradução José C. Barbosa, Hemerson A.Baptista. In ‘Obras Escolhidas’, v.3, São Paulo: Brasiliense, 1989.

____. “Sobre a arte, técnica, linguagem e política”. Tradução Maria L.Moita, Maria A. Cruz, Manuel Alberto. Lisboa: Relógio D’Água, 1992.

LAUTRÉAMONT. “Cantos de Maldoror: seguidos de poesia”. Tradução Pedro Tamen. Lisboa: Fenda Edições,1988.

____. “Les Chants de Maldoror: poèsies * lettres”. Textes présentés par Louis Forestier. Paris: Imprimerie Nationale Éditions, 1990.


Revistas

. Revista USP: “Dossiê Walter Benjamin”. n.15. São Paulo, 1992.



               PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
                     verão de 2006

























































































SÍLVIO MEDEIROS
Enviado por SÍLVIO MEDEIROS em 25/01/2006
Reeditado em 25/01/2006
Código do texto: T103485

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Sobre o autor
SÍLVIO MEDEIROS
Campinas - São Paulo - Brasil, 61 anos
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SÍLVIO MEDEIROS