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A droga da arma e o veneno do desarmamento

A droga da arma e o veneno do desarmamento

‘Estranhos tempos os nossos’ ou ‘que mundo maravilhoso esse’. Eric Hobsbawm e Louis Armstrong no mesmo planeta e num mesmo artigo. De quando em quando a nossa sociedade se vê ardorosamente empenhada em discutir e regulamentar importantíssimas futilidades. Questões simplórias mas erigidas à condição de essencial pelo passionalismo nelas injetado. Vitais questões mas abordadas com a superficialidade mesma com que se discute se é moral e lícito o envolvimento de Lurdinha com o Glauco. De paradoxo em paradoxo vamos construindo nossa sociedade-Matrix, costurando com virtualidade a realidade e o imaginário, além do ilusório. Como diria o filósofo grego oriundo do Rio de Janeiro, Lulu Santos, ‘assim caminha a humanidade, a passos de formiga e sem vontade’.
Afinal, a que ou a quem serve o referendo a respeito do desarmamento? Estamos sendo bombardeados pela mídia, com dados estatísticos distorcidos, depoimentos comoventes, contundentes e oportunistas, linhas de raciocínio que não se sustentam, tudo em nome de consulta a uma população que sequer se deu ao trabalho, ou teve acesso, ao texto da lei e suas implicações jurídicas e sociológicas, para além de espirituais.
Não me parece importante abordar, polemizando, o assunto. Nossa mente, dual por excelência, tende a partidarizar, o sim contra o não, e, assim, tendemos a conduzir o assunto com quem discute futebol, a raposa contra o galo. A mim me parece que nenhum dos dois posicionamentos irá equacionar o problema da violência, se tratado de forma isolada. A violência no país, hoje, tal como a corrupção, é estrutural e como tal, só será banida ou ao menos atenuada, se a sociedade se dispuser a uma correção generalizada, que deve ter início no íntimo de cada um, no âmago de cada instituição, na anulação do mau-olhado que temos para com o mundo e as pessoas todas. Por isso que é preciso não censurar a ninguém, pois aí é uma das formas pelas quais se inocula o germe da violência e da intolerância para com o outro e que, ao encontrar terreno fértil nas respostas reativas que, via de regra, damos ao mundo, eclode. E explode. E faz sangrar.
O que nos acontece hoje, conforme compreendo, é um processo de adequação, de ajustamento, que nos fará, como conseqüência, uma sociedade um pouco melhor a cada dia, dentro de tempo.
Houve uma válida iniciativa de alguns estudantes de direito da USP e daí a consulta à irmandade de todos os cantos do Brasil, erigindo então, o instrumento constitucional do referendo à verdadeira arma que nos cabe a todos utilizar. Este me parece o ponto alto de todo o processo. A consolidação da democracia, embora as distorções, embora o desvirtuamento, embora ainda os interesses escusos que existem por trás da consulta. Afinal, a motivação é una, todos querem segurança e felicidade.
Renomados e altamente capacitados sob o ponto de vista do conhecimento pura e restritamente técnico, alguns juristas fazem uma leitura conservadora – à la Bandeira, ou nem tanto – dá-lhe Dallari, do que pode e do que não pode segundo a sua  interpretação da Constituição.
Crer que a segurança de uma família está assegurado pelo fato de se ter em mãos um mortífero pedaço de ferro, infantiliza. Que dignidade há em se ter no coldre, no recesso do lar, um revólver pronto para matar se preciso for. Que humanidade pode haver em se poder instaurar ‘guerras civis particulares’, verdadeiros tribunais, não só de exceção, constitucionalmente vetado, mas também, e pior, de execução sumária e liminar.
Tudo isso sem se considerar o caráter holográfico que já se atribui ao Universo, ou as recentes revelações da física quântica, que informa o poder de  frases e imagens sobre a estrutura molecular da água, principal constituinte do corpo humano. Ou seja, e a grosso modo, o simples fato de se ter em casa uma arma pronta e a disposição de atirar, já altera o metabolismo pessoal e familiar.
A turma do Sim tem seus argumentos e os devemos respeitar. De igual forma cabe a nós a consideração pelas idéias da equipe do Não. Mas o meu ideário é um pouco diferente. Resolvi respeitar alguns princípios que entendo importantes e facilitadores para a minha vida. De pontos de vista que se contrariam, surge o paradoxo e do paradoxo um novo paradigma é possível, se fizermos subir o nosso grau de compreensão, deixando de lado um velho mau-olhado e olhando de frente para a vida com a fraternura e o respeito que lhe são devidos. Considerando sagrada a Terra, esse nosso lar, esse nosso templo, podemos vivenciar as palavras de um sábio seringueiro e erradicar as armas de qualquer espécie, cuidando para que um novo encanto se instale e que possamos todos fazer valer o Preâmbulo da Magna Carta, assegurando a segurança ao lado do bem-estar como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista, fundada na harmonia social e comprometida com a solução pacífica das controvérsias, e encarnar a Paz que, para além de objetivo, princípio e fundamento constitucionalmente previsto da República, é símbolo de união, sinal de irmandade entre os povos e o que há de mais alto.



pedro antônio
Enviado por pedro antônio em 23/02/2006
Código do texto: T115335
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Sobre o autor
pedro antônio
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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