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AMISH - JEITO SIMPLES DE VIVER

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Em pleno século 21, comunidade amish abre mão do conforto da modernidade para manter intactas sua fé e suas tradições

Eles são mais conhecidos pelas imagens do cinema do que na vida real. Afinal, são extremamente reservados e evitam contatos mais próximos com a sociedade que os cerca. As roupas, conservadoras, são uma de suas marcas – sempre metidos em escuros ternos pretos, com o chapéu obrigatório para os homens e os vestidos compridos e recatados das mulheres. Mesmo com todo o avanço tecnológico e as facilidades do mundo moderno, os amish ainda hoje se abstêm de tudo o que julgam supérfluo para sua sobrevivência. Diversas de suas comunidades no interior dos Estados Unidos ou do Canadá vivem do mesmo jeito que seus antepassados de dois, três séculos atrás. Extremamente religiosos, seu cotidiano divide-se entre o trabalho, quase sempre no campo, os cuidados com a família e as rígidas regras de um cristianismo bem radical nos costumes. Contudo, manter-se fiéis às raízes não quer dizer que eles vivam totalmente estagnados no tempo e que não gozem de muita fartura. Geralmente donos das terras onde vivem e da qual tiram o sustento, os amish têm uma profunda relação com Deus e fazem o possível para seguir à risca sua Palavra.
 
A formação da comunidade amish deve-se à dissidência de um grupo de menonitas que, por volta de 1690, liderados por Jacob Ammann, formou uma nova classe – os anabatistas ou rebatizados. A razão da cizânia foram divergências de cunho litúrgico, como por exemplo o rito da comunhão. Enquanto uma parte defendia a celebração do sacramento uma vez por ano e sem qualquer restrição à presença de gente de fora do grupo, os seguidores de Ammann preferiam comungar pelo menos duas vezes ao ano e defendiam a separação total dos não-adeptos às suas crenças. Assim, formou-se o grupo cristão protestante, e o rebanho de Ammann, cujo princípio fundamental consiste na simplicidade como parâmetro de uniformidade entre os membros, ganhou a América por volta de 1720. Àquela altura, iniciou-se a imigração dos descendentes suíços para o Novo Mundo, especialmente para os estados americanos da Pensilvânia e Ohio, levando na bagagem a herança de uma doutrina reformista e no pensamento os ideais de humildade e desprendimento do mundo material. Tudo o que remetia à idéia de orgulho e vaidade pessoal – hochmut, em alemão –, não fazia parte do cotidiano dos amish mais conservadores.

Até hoje, os chamados da “velha ordem” vivem de maneira extremamente ascética. Automóveis, energia elétrica, televisão, telefone, computador e até mesmo objetos de decoração devem ser evitados. O zelo chega ao ponto de se substituir os botões de casacos por colchetes, para assim se evitar a “vaidade”. Além da Bíblia Sagrada, interpretada de maneira fundamentalista, os amish se regem pela Ordnung, conjunto de tradições que, embora não escritas, define como deve ser a vida, com atenções voltadas exclusivamente para a fé, a família e a comunidade. Contudo, a ordem não se restringe apenas a questões de cunho religioso, mas a tudo que tange ao convívio social do grupo, como por exemplo a aquisição de um novo equipamento agrícola. Mesmo assim, cada novo aparato que chega não pode causar grande impacto e só será aceito pela ordem após uma rigorosa análise e a comprovação definitiva de que não se trata simplesmente de um objeto de desejo de alguém.


Fiéis às tradições – “Ainda existem colônias menonitas que vivem, hoje, preservando as tradições antigas, sem se envolver com a modernidade”, afirma o pastor Gerson Santana de Oliveira, 40 anos, ligado à Aliança Evangélica Menonita (AEM), denominação com presença mais destacada no sul do Brasil. “A exemplo do Ordnung dos amish, os menonitas têm a declaração de fé, que traz as crenças de uma doutrina cristocêntrica e que também serve de programa de ação obediente”, compara. Como os amish não têm templos para as orações, os cultos são realizados nas próprias casas – e, para garantir que nenhuma fique de fora, é realizado uma espécie de rodízio organizado pelos próprios membros da comunidade. Um número excessivo de carroças estacionadas numa manhã qualquer de domingo em frente a uma determinada residência é evidência de cerimônia religiosa. “Eles não vêem necessidade de uma construção específica para os ritos cristãos, uma vez que possuem casas e celeiros espaçosos onde podem abrigar os cultos”, continua o pastor menonita.

A educação também merece especial atenção. Nas escolas, em apenas oito anos de currículo as crianças amish aprendem apenas o que a comunidade julga essencial para enfrentar a vida adulta, como o básico de inglês e alemão, religião e noções de matemática. Ensino superior nem pensar; para que os jovens fossem liberados dos estudos antes de completar a maioridade, os amish se viram forçados a travar uma árdua batalha com os órgãos oficiais dos Estados Unidos até que, em 1972, a Suprema Corte facultou-lhes esse direito. “Para eles, é a Igreja que determina as qualificações, em vez do Estado. Eles simplesmente crêem que uma educação limitada é suficiente para as suas necessidades básicas”, destaca Gerson. “Os amish têm muito a ensinar à sociedade atual, como o uso racional da energia, a ajuda mútua, a simplicidade e o cultivo da terra e seus cuidados”, explica.

A vida sentimental dos amish é um capítulo à parte. Geralmente, os futuros casais se conhecem ainda na infância, mesmo que façam parte de distritos diferentes. Os encontros românticos acontecem aos olhos de todos, nos cultos religiosos ou então em eventos de natureza recreativa. Hoje, até se permite aos namorados um mínimo de privacidade, desde que não transgridam regras rígidas de recato e moralidade. O outono, depois das colheitas, é a época preferida para os casamentos. Porém, antes da consumação da união, há uma série de formalidades. O noivo é obrigado a notificar tudo à família da futura mulher e a comunidade precisa ser informada do compromisso. Depois de casados, os homens deixam crescer a barba, mas sem bigodes, já que o adereço é associado às Forças Armadas. Por serem pacifistas, os amish se recusam a prestar o serviço militar.

No filme A Testemunha (Paramount, 1985, direção de Peter Weir), o astro Harrison Ford encarna um policial que se integra a uma comunidade amish para investigar um crime. Rodado numa pequena cidade norte-americana, o filme mostra o choque cultural entre o personagem, habituado à rotina violenta da cidade grande, e o estilo pacato do grupo de homens de preto e mulheres de véu, para quem a justiça só pode ser praticada por Deus. Apesar de elogiado pela crítica na época e de ter conquistado o prêmio de melhor roteiro original em Hollywood, o longa não fez sucesso entre aqueles que deveriam se sentir retratados na telona. Os amish da cidadezinha de Intercourse, na Pensilvânia, que se “atreveram” a assistir ao filme, consideraram-no extremamente liberal e não condizente com seus hábitos e suas crenças. Um das cenas mais criticadas é quando Ford leva uma moça amish pela qual se apaixonara para dançar dentro de um celeiro, ao som de Wonderful World, de Sam Cooke – um evidente absurdo, já que, para qualquer amish cioso de sua fé, músicas mundanas seriam uma evidente afronta ao nome do Senhor.

Fonte: Revista Eclésia - Edição 126
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JDM
José Donizetti Morbidelli
Enviado por José Donizetti Morbidelli em 05/09/2008
Reeditado em 17/04/2013
Código do texto: T1163176
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
José Donizetti Morbidelli
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