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Libertemos nossa Águia

Leonardo Boff tem um livro com êsse título( ou parecido, confesso que não me lembro bem). É inspirado numa lenda africana da época colonialista. Conta a lenda que um naturalista , em seu trabalho de campo, deparou-se com o inusitado: uma enorme águia, dentro de um galinheiro, em convivência harmomiosa e comportando-se como as demais galinhas. Curioso e intrigado, pediu ao dono da propriedade que lhe explicasse a estranha circunstância.
O africano, não entendendo o porquê do espanto, contou-lhe que, tempos atrás, como era de rotina, acordou, fez sua refeição e foi alimentar as galinhas no galinheiro. No trajeto de sua casa ao galinheiro, deparou-se com uma ave recém nascida , sem penas, mal ficava de pé. Não soube identificar-lhe a espécie e, para que fosse cuidada, colocou-a no galinheiro. Lá teria a ração, a água e a companhia de outras aves. E, passando o tempo, notou que a ave se desenvolvia rápido, ganhando penas e porte. E pode identificar-lhe a espécie. Era uma águia. Mas, o convívio com as galinhas, havia lhe ensinado o comportamento delas. Ciscava, dormia nos poleiros, já esperava a água e a ração nas horas determinadas. Mesmo sendo águia, transformara-se em galinha. Simples. Tratava-a como uma galinha grande, sem nenhum cuidado especial.

O naturalista, cientista que era, falou ao homem que o comportamento da águia era de adaptação, não de conformidade. O clamor da espécie logo iria falar mais alto e a águia seguiria o rumo de todas as águias. E o africano retrucou, dizendo que não acreditava, que ali, a águia tinha sua ração, não precisava dos voos longos para encontrar água, que a convivência com as galinhas, desde filhote, a haviam transformado em galinha mesmo.
Pediu, então, o naturalista que lhe desse a oportunidade que ele a tornaria águia de verdade. O africano não se opôs e, com desdém,ofereceu-lhe três oportunidades ao invés de uma só, tal a confiança de que a águia se tornara uma galinha mesmo.

E, assim, o naturalista colocou a ave nos ombros, cochichou-lhe aos ouvidos... - Você é uma águia e o clamor da espécie a vai impulsionar a grandes e majestosos vôos, vá e siga sua essência- A águia olhou para o céu, insegura , temerosa, olhou em volta até localizar o galinheiro. Imediatamente ao ver as galinhas, um vôo rasante e... novamente estava no meio delas a ciscar e comer a ração.
O africano , tendo validado sua convicção - Não lhe falei? Ela agora é galinha. Voltou para a companhia das demais- E o naturalista insistiu. Dessa vez, levou a ave para uma pequena elevação. Novamente repetiu as palavras. E a aguia olhou o céu, buscou em volta, trêmula, vacilante , até novamente divisar o galinheiro para onde voou de volta.
- Não lhe falei? disse o homem. Ela agora é, realmente uma galinha. Aprendeu com as outras. E o cientista, ainda convicto , se dispôs à última tentativa. Caso não conseguisse, além de concordar com o africano, jogaria fora todos os livros que leu e buscaria outra ocupação. E, assim, pegou a águia, colocou-a dentro do jeep e buscou a montanha mais alta que existisse na região. Ao final de horas de viagem, chegou ao cume de uma grande montanha. O céu parecia mais perto naquela altitude. As nuvens, mais baixas. E, repetiu o que antes fizera. Colocou a águia nos ombros, falou-lhe aos ouvidos, baixinho : Tu és águia. Nasceste para voar além das nuvens e esconder-se no infinito. Tuas asas te levarão ao alimento e à água. És livre como o vento. E o vento te impulsionará nos seus grandes vôos. Vá e siga teu destino.- A águia, trêmula, olhando para todos os lados buscava o galinheiro. E via apenas um grande vale , coberto de vegetação e um imenso céu muito azul... Até que uma repentina rajada de vento a fez flutuar por instantes... vacilante, abriu suas asas, um vôo raso, até que, sùbitamente, começou a mover suas asas e, impulsionada pelo vento, tomou os ares, rompeu as nuvens e sumiu no horizonte. Tinha atendido ao chamado da espécie....

Bem, a lenda é mais ou menos assim. Não sou um bom contador de histórias. Mas, o que podemos entender dela é que o clamor da espécie fala mais alto. Por mais segurança que nos dê um teto que nos abrigue da chuva e do frio, a ração e a água garantidas, somos , em essência , águias. Nos comportamos, na maior parte da vida como galinhas, o social , o moral, os costumes nos limitam a águia. Mas, o clamor da essência nos faz águias e temos nossos momentos de águias. Saber desses momentos e vivê-los com intensidade fazem a diferença. A diferença de ser ou estar no mundo. Que sejamos águias muitas vezes!!!!

Mauricio Araguaia
Enviado por Mauricio Araguaia em 02/03/2006
Código do texto: T117594
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Sobre o autor
Mauricio Araguaia
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
9 textos (517 leituras)
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