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Repercebendo

A Percepção :

"Um enorme pássaro prateado transportou-me para uma terra muito distante. Ao desembarcar, senti um calor muito forte. Apesar do céu claro, nuvens negras espalhavam-se à altura do chão. Os nativos eram tantos que mal dava para identificar um dos outros. Parecia, até, que todos tinham a mesma fisionomia. No seu movimentar, mais pareciam formigas apressadas em armazenar alimentos.

Realmente, era um lugar muito estranho, bizarro. As pessoas habitavam pequenas gaiolas que se amontoavam uma sobre as outras. Alguma força desconhecida parecia equilibrá-las, tal a altura que alcançavam. Por todos os lados via-se enormes e horríveis animais que rugiam alto.Seus olhos ficavam a altura das patas e eram bastante rápidos. Tinham cores diferentes, mas diferiam pouco no formato. Apesar da aparência assustadora, os nativos não demonstravam qualquer temor a eles. Muitos até se acomodavam em seu dorso. O barulho era ensurdecedor.
Já escurecia quando fui levado a assistir um ritual que se repetia a cada semana. E, assim, cheguei ao TEMPLO.

O templo tinha a forma arredondada. De fora, parecia-se com um anel todo raiado. Tinha aproximadamente trinta metros de altura. O acesso ao seu interior era feito através de duas rampas muito largas que pareciam soltas no ar. No seu interior, a multidão lotava os cinquenta degraus em curva. Acredito que toda a população estava no Templo.
Muitas inscrições em formas, cores e tamanhos diferentes, cada uma trazia o nome de um deus. O altar ficava abaixo dos degraus. Era coberto de vegetação muito verde e rasteira. O local das oferendas era demarcado por um curioso emaranhado de linhas geométricas. Deveria ter uns duzentos metros de comprimento por outros cem de largura.

Apesar de não haver nenhum sinal de chuva, milhares de raios e trovões cobriam o céu. Dezenas de luas impediam a chegada da noite O Templo era mais claro do que a luz de dois sóis juntos.

Tres sacerdotes paramentados de negro adentraram ao altar. Um deles, que parecia ser o sacerdaote-mor, trazia consigo um tótem. Os dois outros acenavam panos coloridos para a multidão. A seguir entraram, em fila, as vítimas do sacrifício. Eram homens ainda jovens, aparentemente sadios. Não demonstravam qualquer temor. Deveriam ser em número de trinta, aproximadamente.
O sacerdote-mor postou-se ao centro do altar e deu início ao ritual, levantando o tótem à altura da sua cabeça. A multidão, que até então se mantivera em silêncio, manifestava-se com gritos incompreensíveis e com uma dança ritual.
Por mais que me esforçasse, não conseguia entender o sentido do ritual. O tótem, que antes parecia objeto de veneração, era arremessado pelos jovens para todos os lados. A cada movimento a multidão mais se empolgava, parcia estar em êxtase.Pediam sangue, mas não havia sangue no altar. Todos corriam pelo altar, em todas as direções. Ao que parece, queriam e disputavam o tótem, que, estranhamente, não ficava com nenhum deles. Alguns se feriam no afã de tocar o tótem. Quando isso ocorria, o ferido era levado para um estreito tunel localizado em um dos cantos do altar que, acredito, ser o local da imolação.

O ritual durou cerca de duas horas. Ao final, o sacerdote-mor novamente segurou o tótem à altura da cabeça, mostrou-o à multidão que, numa reverência final, saudou-o com diversos cânticos.
A multidão ràpidamente esvaziou o templo. Só então, compreendi o significado do ritual. Tão logo encerrado o sacrifício, as luas desapareceram do Templo. Os deuses tinham atendido ao sacrifício e a noite, finalmente, pode chegar.

Novamente aquela ave enorme trouxe-me de volta à minha terra. Aqui temos o dia e a noite também. Os deuses são bons para o nosso povo. Não precisamos de sacrifícios para obtê-los. O povo daquela terra estranha deve desagradar muito aos deuses. Nunca mais quero estar lá."***

A Repercepção:

Um homem primitivo é retirado de sua aldeia, colocado num avião e desembarca no Rio de Janeiro. Baseado na sua experiência de vida, nos seus costumes e valores , quando retorna, faz uma narrativa do que viu. Levado do aeroporto ao Maracanã, assistiu um jogo de futebol. No trajeto, fez uma narrativa do que via. Um mundo estranho, caótico, assustador.

Mas, então, você , leitor, poderá estar se perguntando: que tipo de exercício é esse? Qual a lógica, o objetivo. Na realidade, não há nenhuma lógica, nem objetivo, nem tampouco mede coisa alguma. Apenas um exercício de percepção.Quantas vezes queremos falar das nossas construções e o outro as entende como gaiolas, Templos? O inverso também é verdadeiro.
Nossa comunicação e a forma de olharmos o outro, ou a nós mesmos. Quanto nossos valores , costumes, experiência de vida, interferem na nossa percepção?

Nossa tendência ao etnocentrismo, ao egoísmo, geralmente, nos colocam lentes grossas ou finas demais nos olhos. E distorcem nossa visão. Precisamos , e isso sim, é exercício de vida, estar atualizando nossa percepção. Repensar nossos conceitos e pré concepções. Contar e ouvir histórias, na certeza de que alguns as entenderão da forma que as queremos entendida; outros tantos terão versão distinta, a maioria nem as lerão. Mas, nem porisso deixaremos de continuar contando nossas histórias. E ouvir histórias. A maior perfeição que existe é, justamente poder ser imperfeito. Fazer parte da natureza. Ouvir uma música e colocar-lhe letra. Não importa que a original. Mas a que nos faça sentido e nos dê prazer. As crianças conseguem.

Uma boa semana, com muitas músicas a colocar letras...
Mauricio Araguaia
Enviado por Mauricio Araguaia em 04/03/2006
Reeditado em 04/03/2006
Código do texto: T118840
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Sobre o autor
Mauricio Araguaia
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
9 textos (517 leituras)
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