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A Importância da Preservação da Biodiversidade para o Planeta

A Importância da Preservação da Biodiversidade para o Planeta

Luiz Eduardo Corrêa Lima*
I - Introdução
A diversidade de organismos vivos sobre a superfície do planeta sempre foi um fator de estudos e de muita preocupação por parte dos cientistas em todo mundo, entretanto essa preocupação sempre esteve restrita em níveis que atentavam apenas e tão somente com o estabelecimento quantitativo das espécies vivas. De fato, não havia grande preocupação em entender o porquê, nem o como as espécies se distribuíam pela Terra e que significado isso poderia ter na manutenção da vida no planeta como um todo. Mais recentemente, a atenção com a questão ambiental em escala planetária fez com que a preocupação em relação a Biodiversidade passasse a ser também qualitativa, a fim de poder representar a efetiva importância das espécies na composição total do planeta.
Esse ensaio visa, exatamente, trazer algumas informações não só quantitativas, como também qualitativas sobre a perda gradativa da Diversidade Biológica da Terra e sobre que aspectos permitem essa perda. Para tanto, procurou-se fazer uma abordagem explicativa do problema, discutindo-o nos seus aspectos mais importantes e mais significativos.
II - O que é Biodiversidade ?
A palavra Biodiversidade pode ser entendida, de uma maneira simples, como sendo a Diversidade de organismos vivos existentes na Biosfera. Wilson (1997) definiu Biodiversidade da seguinte maneira: “a totalidade da variação hereditária em formas de vida, em todos os níveis de organização biológica, desde os genes e cromossomos dentro de cada espécie isolada até o próprio espectro de espécies e afinal, no mais alto nível, as comunidades que vivem em ecossistemas como florestas e lagos”.
Se partirmos dessa definição de Wilson, vamos concluir que a Biodiversidade é algo muito mais profundo e abrangente do que a simples diferença morfológica e até funcional entre as formas vivas do planeta. A Biodiversidade é a diferença de conformações genéticas que permitiu as formas vivas existentes. A questão transpassa a forma e a função dos organismos e atinge os diferentes códigos genéticos existentes e também aqueles, que ainda podem vir a existir e que certamente virão, por conseqüências evolutivas. Quer dizer, a Biodiversidade, representa toda a gama de genes existentes e aqueles que estão por existir no planeta.
Sendo assim, quando se fala em Preservação da Biodiversidade está se falando, em última análise, da preservação de todo o patrimônio genético vivo do planeta. Então a perda de Biodiversidade é a perda de genes e a perda de genes implica na impossibilidade da formação e da organização das características condicionadas por esses genes. Em outras palavras, certas características genéticas são totalmente perdidas quando alguma espécie viva é extinta e, lamentavelmente, o nosso conhecimento ainda não consegue prever todas as conseqüências possíveis, mas certamente estas serão na sua maioria mais danosas do que benéficas.
Hoje são cientificamente conhecidas cerca de 1.500.000 de espécies no planeta. Considerando as estimativas mais coerentes, o número total de espécies vivas deve girar em torno de 30 milhões de espécies. A perda anual, até aqui, atinge 17.500 espécies (Wilson,1988). Partindo dessa premissa, é possível considerar que pouco mais de 1.000.000 de espécies (aproximadamente 3,5%) estarão totalmente extintas até o ano 2000. Há estimativas mais pessimistas que admitem que já perdemos cerca de 10% de todas as espécies vivas do planeta e que poderemos perder mais 25% nas duas primeiras décadas do século XXI. É claro, que deve ser considerado que muitas das espécies se extinguem por processos estritamente naturais, entretanto esse número é insignificante perto do total.
A destruição dos habitats naturais pelo homem é, sem dúvida, o maior fator de perda da Biodiversidade. Talvez tenha sido por isso, para a preservação dos chamados Bancos Genéticos, que os países do mundo resolveram fazer, na Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, no Rio de Janeiro, em 1992 (ECO/92), uma “Convenção sobre a Biodiversidade”.
Essa convenção estabelece, dentre outras coisas, que: “os estados devem estabelecer um sistema de áreas protegidas ou áreas que requerem a adoção de medidas especiais para conservar a diversidade biológica”; “os estados devem controlar ou erradicar espécies estrangeiras (exóticas) que ameacem sistemas ecológicos, habitats ou espécies”; “os estados devem adotar medidas para recuperar e reabilitar espécies ameaçadas e para reintroduzi-las em seus habitats naturais”, “os estados devem cooperar no sentido de que leis nacionais e internacionais sobre patentes e outros direitos de propriedade intelectual não contrariem os objetivos da Convenção”; “os estados devem regular o desenvolvimento, o uso e a liberação de organismos geneticamente modificados (produtos de Biotecnologia) capazes de exercer efeitos adversos”.
Pelo exposto é possível afirmar que a Biodiversidade é o mais importante aspecto para a vida sobre o planeta Terra, por isso mesmo é fundamental a sua preservação para a preservação da vida como um todo. Nós humanos somos os organismos mais dependentes da Biodiversidade do planeta, pois utilizamos plantas e animais como alimentos, como fonte de medicamentos, como matérias primas para as mais diversas atividades.
Dessa maneira, somos os únicos que podemos destruir todos os habitats naturais e por conseqüência toda a Biodiversidade. Por outro lado também somos os únicos que podemos trabalhar no sentido de manter o equilíbrio da vida e a Biodiversidade da Terra. Só depende de nós, humanos, a manutenção da Biodiversidade do planeta e paralelamente a manutenção e continuidade de nossa existência.

III - Principais Causas da Perda da Biodiversidade
Considerando a necessidade e a importância da Biodiversidade, deve-se questionar que fatores produzem a sua diminuição progressiva, para tentar minimizar ou eliminar esse efeito maléfico à vida do planeta e do homem.
O primeiro e mais significativo desses fatores, como já foi dito, é a destruição dos ambientes naturais pela espécie humana. Mas há de se perguntar: por que nós destruímos os ambientes naturais? Essa é uma pergunta que permite várias respostas, pois vários são os mecanismos que levam à destruição dos diversos ecossistemas pelo homem. Em outro artigo, Lima (1995), tracei alguns comentários sobre a incoerência do comportamento humano em relação ao planeta e às coisas da natureza.
Inicialmente pode ser citado o Crescimento Populacional Explosivo da População Humana, que dobrou nos últimos 50 anos e que a continuar šssim estará dobrando outra vez, nos próximos 40 anos. Desse crescimento decorre uma série de outros problemas, os quais, em última análise, vão implementar a extinção de espécies e conseqüentemente diminuição da Biodiversidade.
O crescimento populacional aumenta a demanda de todas as coisas que o homem precisa, as quais são recursos obtidos principalmente de organismos vivos. O uso progressivo desses recursos leva ao seu desaparecimento e, em contrapartida, a pobreza e a miséria também aumentam. Os mecanismos de recuperação, de reflorestamento e os métodos sustentáveis de agricultura são falhos e a demanda sempre é maior que a produção. Com isso, há necessidade, cada vez maior, de degradar novas áreas para obter carvão, para fazer novos cultivos agrícolas. A degradação dessas áreas certamente produz diminuição da Biodiversidade, pois causa e extinção de várias espécies, muitas das quais totalmente desconhecidas da ciência.
Nas regiões tropicais, aquelas que abrigam a maior parte de toda a Biodiversidade do planeta, pois cerca de 2/3 (dois terços) das espécies vivas ocupam as regiões tropicais, a situação é ainda pior. É nessas regiões que também se encontram as populações humanas maiores em quantidade de indivíduos e mais pobres em recursos e que se utilizam mais diretamente da Biodiversidade, pois possuem pouco conhecimento científico e não têm condições tecnológicas para diminuir o dano que causam. Estima-se que até aqui já se destruiu 40% de todas as florestas tropicais do globo e quase 50% de todas as áreas pantanosas. Imaginem quantas espécies foram perdidas só nesses dois exemplos?
Outro aspecto de grande significância para perda da Biodiversidade é a Introdução de Espécies Exóticas que competem, principalmente por alimento e por abrigo, com as espécies nativas. Em geral, as espécies exóticas ganham a competição, porque são mais profícuas reprodutivamente e têm suas populações livres de predadores naturais no ambiente em que são introduzidas. Ao longo do tempo, acaba havendo uma modificação acentuada na comunidade que compõe o ecossistema em questão. Os nichos anteriormente ocupados pelas espécies nativas passam a ser ocupados pelas espécies exóticas que passam a interferir em todo o ecossistema, enquanto as espécies nativas extinguem-se progressivamente.
A exploração e o uso excessivo, muitas vezes para fins escusos ou duvidosos, de organismos vivos pelo homem também tem sido um fator que produz grande declínio nas populações naturais. Só para dar um exemplo brasileiro que demonstra como a questão é muito antiga, vale lembrar que na época do Império milhares de exemplares do Mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia) eram dados como brindes aos membros das cortes européias e a outros privilegiados que visitavam o Brasil. O resultado disso foi a extinção quase total dessa espécie que era extremamente comum na Mata Atlântica do Noroeste do Rio de Janeiro naquela época.

IV - Por que devemos manter a Biodiversidade?
Primeiramente deve ser lembrado que os Recursos Básicos e Fundamentais que a espécie humana tanto precisa dependem diretamente da Biodiversidade.
Senão vejamos: como respirar sem oxigênio? Pois é, oxigênio que tanto dependemos foi criado e é mantido na atmosfera por conta da Fotossíntese que é realizada por vegetais, particularmente pelas algas fitoplanctônicas microscópicas, que muitas pessoas acreditam que não servem para nada. Como seria a polinização das plantas que nos servem de alimentos se não fossem os insetos, os pássaros e os morcegos? Como seria o solo se não fossem os microorganismos que decompõem a matéria orgânica e enriquecem o solo com nutrientes?
Se não bastassem os exemplos acima, existem também as situações específicas em que a Biodiversidade é fator fundamental. O Manual Global de Ecologia relaciona 5 áreas principais de importância da Biodiversidade: A Agricultura, a Medicina, a Indústria, a Psicologia e na Filosofia. Talvez, por isso, o século XXI, que está logo aí na frente, já está sendo chamado de “Era da Biologia”. Mas, é preciso conhecer bem a Biodiversidade do planeta para poder trabalhá-la a contento.
Na Agricultura, apenas 20 espécies diferentes de plantas são responsáveis diretas por 80% de toda alimentação dos humanos no planeta. Um maior conhecimento da Biodiversidade poderá permitir um aumento significativo no número de espécies utilizadas pelo homem na alimentação, pois certamente devem existir outras plantas comestíveis que poderão ser produzidas em larga escala.
Na Medicina, 43% das drogas utilizadas nos Estados Unidos são derivadas de espécies selvagens, isto é, espécies não cultivadas. Se destruirmos a Biodiversidade poderemos estar deixando de encontrar e produzir várias outras drogas, as quais podem representar a cura de muitos males que até  agora não têm como ser sanados.
Na Indústria, muitas matérias primas derivam de plantas e animais selvagens. O conhecimento maior da Biodiversidade do planeta poderá levar a utilização mais racional desses produtos, além de permitir o descobrimento de outros até aqui desconhecidos e inexplorados. Parece incrível para muitos, mas a expansão industrial também depende de um conhecimento maior da Biodiversidade.
Não bastasse os exemplos acima, a Biodiversidade influi inclusive na Psicologia, no comportamento e na individualidade da pessoa humana. Há alguns indivíduos que são totalmente dependentes da natureza e dos demais organismos vivos. Essa necessidade pode estar presente, desde a simples vontade de observar até o prazer em fotografar e colecionar organismos vivos ou estruturas derivadas dos mesmos.
Por fim há também questões Filosóficas, Religiosas e Morais na destruição de ambientes naturais, na matança e na destruição, necessária ou não, de organismos vivos e, principalmente, na extinção de espécies animais. É preciso que se questione, inclusive, certos “esportes” que se utilizam de organismos vivos como se fossem peças de brinquedo totalmente insensíveis.

V - Preservação e Conservação das Espécies
Para se diminuir ou evitar a perda da Biodiversidade há necessidade de preservar umas e de conservar outras espécies. Para tanto é preciso que sejam desenvolvidos mecanismos de proteção às espécies de valor conhecido e aquelas em risco de extinção. Esses mecanismos vão desde o armazenamento de sementes ou de embriões, passando pela manutenção de indivíduos em zoológicos, terrários, aquários e viveiros de mudas, e indo até a criação de áreas protegidas e de preservação permanentes, que conservam não apenas as espécies, mas também e principalmente os ecossistemas em que estão inseridas.
O mecanismo de criação de áreas protegidas e de Reservas Biológicas parece ser a melhor forma de preservar os ecossistemas da degradação e as espécies da extinção. Sendo assim, vamos comentar um pouco sobre esse mecanismos.
Até 1950, existiam cerca de 600 áreas protegidas em todo o mundo. Esse número cresceu muito ultimamente e hoje existem pelo menos 3500 áreas, cobrindo cerca de 425 milhões de hectares. Apesar do crescimento, esse número ainda é muito pequeno perto daquilo que realmente se precisa e ainda é muito pouco representativo nas regiões de maior Biodiversidade (florestas tropicais, recifes de corais, ilhas oceânicas). O estabelecimento de parques e reservas livres da interferência humana, visando à regeneração gradativa de florestas, a recomposição da vegetação em áreas desmatadas e a recuperação de áreas degradadas são mecanismos ulteriores que podem auxiliar na manutenção da Biodiversidade.
Em algumas situações, certamente, as populações humanas das áreas a serem protegidas poderão ser fontes fundamentais para a orientação no entendimento da Biodiversidade local e por conseqüência do tratamento a ser efetuado na sua preservação ou nas técnicas de conservação e nas pesquisas científicas a serem desenvolvidas. O estudo efetivo das áreas preservadas tem que partir de uma base de entendimento daqueles que ali vivem há muito tempo, pois essas populações sabem como utilizar e ao mesmo tempo manter as condições ambientais do ecossistema.

VI - Referências Bibliográficas
BERNARDES, A. T.; MACHADO, A. B. M. & RYLANDS, A. B., 1990. Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção, Fundação Biodiversitas, Belo Horizonte, 62p.
CORSON, W. H., 1993. Manual Global de Ecologia : o que você pode fazer a respeito da crise do meio ambiente, Editora Augustus, São Paulo, 413 p. (Capítulo 6 : Diversidade Biológica).
DIAS, G. F.,  1992. Educação Ambiental : Princípios e Práticas, Editora Gaia, São Paulo, 399 p. (Parte 5 : Sugestões Adicionais de Atividades em Educação Ambiental).
LIMA, L. E. C., 1995. A Transitoriedade do Homem, Ângulo, Lorena, (61): 3 - 5.
MATHEWS, N. & ROBERTSON, J., 1994. Das Baratas às Rosas: Biodiversidade a ser Preservada in Notas sobre Educação Ambiental, Governo do Estado de São Paulo, Secretaria do Meio Ambiente : 13 - 16.
NAÇÕES UNIDAS, 1992. Convenção sobre a Diversidade Biológica, Resumo da Agenda 21, Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento.
SARIEGO, J. C., 1994.  Educação Ambiental : As Ameaças ao Planeta Azul, Editora Scipione, São Paulo, 208 p. (Conclusão e Mapa das Áreas Protegidas no Brasil).
SENNA, P. S., 1998. Biodiversidade: da Troca Simbólica à Inovação Conceitual. Trabalho apresentado no 9º Encontro de Biólogos do C.R.B.-1 (SP, MT, MS), Campo Grande, 5 a 9 de abril de 1998.
TOLBA, M. K., 1992. Exame à Terra : O Meio Ambiente Mundial (1972 - 1992). E agora, para onde?, PNUMA - Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Nairobi, 27 p.
WILSON, E. O., 1988. Biodiversity, National Academic Press, Washington, 521 p.
WILSON, E. O., 1997. Naturalista, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 368 p.

*Luiz Eduardo Corrêa Lima (52)
Artigo publicado originalmente  na Revista Ângulo, Lorena, Número 80 : 23 – 27, 1999.
Prof Luiz Eduardo
Enviado por Prof Luiz Eduardo em 15/10/2008
Reeditado em 21/04/2010
Código do texto: T1230435
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Sobre o autor
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