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ENFIM O RESGATE DOS FUZIS!

No dia 03 de março um grupo de bandidos encapuzados invadiu um quartel militar no Rio e subtraiu 10 fuzis e uma pistola. Um mês antes do roubo, o general Domingos de Campos Curado já tinha feito uma advertência em relação ao fortalecimento do crime organizado no Rio e a necessidade de adoção de medidas efetivas - "e até mesmo um permanente estado de prontidão" - para garantir a segurança das instalações militares e evitar o roubo de armas e munições. E tudo indica que não foi ouvido e acatado como todas as vozes sensatas deste país!
O episódio que se arrastou por cerca de duas semanas foi envolvido por balas perdidas - sendo que uma atingiu fatalmente uma criança -; suspeitas da participação de um militar no furto das armas e uma série de outros eventos tumultuados e desagradáveis.

Agora tentemos fazer uma análise do fato.
Por que motivo bandidos do “nipe” desses que dominam os morros do Rio, que possuem armamento de ponta e enorme facilidade em renovarem seu arsenal, iriam correr tanto “risco” por causa de 10 fuzis velhos, superados, obsoletos, desses que são usados pelo precário exército brasileiro?
Não teria esse roubo - que conforme noticiário foi realizado com extrema facilidade - um recado mais profundo, de cunho político ou mesmo terrorista do tipo: “Vejam o quanto vocês são vulneráveis e despreparados!”, ou “ Sintam como somos fortes e estamos dominando tudo”, numa mostra ousada e destemida de intimidação?

Durante décadas o morro vive sob o domínio de bandidos e traficantes que possuem total controle sobre a vida das pessoas que lá residem e sobre os pobres dependentes que lá vão beijar suas mãos em troca das substâncias que as levam à decrepitude moral e material.
Quantas não foram ao longo do tempo as balas perdidas, os seqüestros, os roubos, os terrorismos, os assassinatos, os abusos de toda ordem, isto sem falar no cerceamento do livre-arbítrio dos moradores que hoje, quando não arregimentados ao tráfico, são regidos a toques de comandos e sinais, obrigados a cumprir um código de obrigações e deveres, sem nenhuma garantia de cidadania, tolhidos no direito de ir e vir como querem, sem opções de escolha, desprotegidos do Estado?

O que mais intriga neste momento, contudo, foi a reação do exército diante do ocorrido, não medindo esforços para o resgate de tão “nobre arsenal”.
De repente todos os obstáculos desapareceram, toda a burocracia foi posta a margem, todas as desculpas de não ser de suas atribuições ou de não poderem interferir no trabalho das polícias expiraram... Simplesmente, reuniram as tropas e foram ao ”justificado” combate! Agora por uma questão de honra, carregando na bandeira o lema: “Temos que recuperar as armas a qualquer custo”.

Agora vejam bem, queridos leitores: Desviar crianças do caminho digno; assassinar cidadãos de bem; arregimentar famílias para serem olheiros e participantes forçados do crime; estabelecer normas e procedimentos próprios à margem das leis e da própria Constituição; obrigar o fechamento de escolas, hospitais e estabelecimentos comerciais; intimidar a vizinhança, tirar a paz e a segurança da população, significa que está tudo bem, dentro da normalidade, ou seja, não havia motivos suficientes para intervenções...
Mas, quando invadiram seus aposentos e surrupiaram algumas de suas nobres "relíquias" (que deveriam estar num museu), aí foi demais! Desta vez passaram dos limites! (pensaram eles)... E deu no que deu, o que todos temos acompanhado.
Agora, felizmente, nos chegam as aliviadoras notícias que as armas foram "recuperadas" e o exército, de cabeça erguida e cheio de orgulho, depois de cumprida a missão do difícil resgate, vai desocupando os morros, feliz e triunfante por ter recuperado seus “objetos de inestimável valor”. E tudo volta ao que estamos nos acostumando por ser a "normalidade", pela qual ainda devemos dar graças a Deus!

Diante do episódio, com certeza a primeira atitude dos chefes do morro vai ser a de reunir seus prepostos e fazer o seguinte discurso:
- “ Camaradas: vamos continuar o tráfico, os assassinatos, os seqüestros de empresários, o roubo de cargas, a arregimentação e formação de crianças para continuidade dos nossos empreendimentos; a formular normas e condutas para a comunidade, submetendo-a cada vez mais aos nossos propósitos; a investir no marketing da dependência química da população; a aterrorizar moradores nos túneis, praias e avenidas, e continuar a galopante conquista do nosso poderio... Apenas uma atitude tomamos com veemência a partir de hoje. Há uma mudança em nossos estatutos. Onde se lia "tudo é permitido roubar", fica acrescentado: "Com exceção de qualquer tralha pertencente ao exército, marinha ou aeronáutica"...
E se alguém tiver algum objeto que pertença a essas instituições, por mais antigo e obsoleto que seja, pelo Amor de Deus, devolvam rapidamente!
Tião Luz
Enviado por Tião Luz em 15/03/2006
Reeditado em 12/11/2012
Código do texto: T123515
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Tião Luz
Poços de Caldas - Minas Gerais - Brasil
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Tião Luz