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O bom ladrão (Lourenço de Oliveira)

                 Lourenço de Oliveira

         Liminar, hábeas corpus, julgamento, prisão...
          para quem é possível – uma coisa ou outra?
                Para o bom ou para o mau ladrão?

Muita coisa que se explica, nem sempre se justifica. Se olharmos para o horizonte do mar, veremos até onde a vista alcança o que julgamos ver. Detalhes só com uma luneta. E eles nos trarão, certamente, outra realidade para o que pensávamos ver.
Uma moça de dezoito anos ficou presa quatro meses por ter roubado um potinho de margarina. O que ela ganhou ou aprendeu com isso? E o que a sociedade ganha com o estágio que ela fez entre profissionais do crime? Não a conhecemos e não sabemos, portanto, da sua personalidade. A Justiça sendo cega considera o ato e ele é condenável. Partindo então desse pressuposto, e havendo a denúncia formalizada, ela teria que pagar pelo seu crime. Parece, inclusive, ter havido um agravante. O comerciante diz ter sido ameaçado de retaliação no ato do flagrante. São questões a serem consideradas. É certo que há culpado nessa história – ou pelo menos responsável. E santo, há? Para avaliar isso teríamos, indiscutivelmente, que fazer papel de advogado do diabo.
Quando o comerciante flagrou a moça levando o seu rico dinheirinho, que coisas lhe passaram pela cabeça? Imaginemos.
- “Essa sem-vergonha de uma figa em vez de trabalhar, vem e leva o que é meu, conseguido com tanto trabalho e suor...” Seria esse o pensamento dele naquele momento? Feliz dele que tem um trabalho para suar; será que ela teve a mesmo sorte e a desprezou ou poderia estar ocorrendo exatamente o contrário?
- “Por que essa desgraçada não me pediu, em vez de roubar?” Teria sido esse o pensamento? E se ela tivesse pedido, ele teria dado? E quais seriam os motivos dela? Ela diz que era para alimentar a filha e que não pensou direito nas conseqüências. Claro que agora sua realidade é outra e ela está mais do que nunca marcada pela sociedade. Resta saber o que aprendeu nesse tempo todo que teve para pensar e repensar no ato e na vida. Resultado de algo censurável que afetará sua vida para sempre.
- “Não acredito, aquela moça está me roubando! Por que alguém tão jovem se sujaria por algo não supérfluo e nem tão valioso? Preciso tomar uma atitude...” Seguindo essa linha de raciocínio sua atitude provavelmente seria outra. Principalmente se a abordagem não fosse truculenta (não que ela tenha sido, porque não sabemos).
Que há um culpado é certo. Mas haveria santo? É papel de advogado do diabo que inevitavelmente teremos que fazer para tentar desvendar o mistério que encobre uma questão aparentemente simples, mas que sabemos não ser tanto assim.

Ninguém gosta de ser roubado. O pensamento imediato é de fazer o infrator pagar pela atitude, principalmente se seguido de ameaça. Mas, convenhamos, uma fera acuada ataca. Quem é pego no flagra está acuado. Cabe ao outro, então, manter a cabeça fria para um julgamento justo. Julgar com a emoção distorcerá com certeza sua capacidade de discernimento.
Vale a pena levar em frente? É uma pergunta que deveria ser feita. Outra seria: o que me acontecerá, ou ao outro, se eu fizer isso? Essas coisas devem ser sempre pesadas, pois, a responsabilidade, queiramos ou não, é sempre de todos.
Dependendo do fator psicológico envolvido na questão podemos ser todos culpados. Ou todos inocentes. Depende apenas da cultura na qual estamos inseridos e do grau de compreensão dela.
Quatro juízes negaram o hábeas corpus à delituosa. Explica-se essa decisão no pressuposto de que ela, com sua atitude supostamente agressiva, representaria perigo à sociedade. O quinto juiz deferiu o pedido. Quem está com a razão, se a lei é uma só? Bom-senso existe ou não? Ou é ele que ofusca a visão da Justiça?
O Brasil assiste, impotente, às cenas constantes das liminares para que os ladrões do colarinho branco não respondam por seus atos. Vemos, então, que há bons e maus ladrões. Estes são punidos, sem compaixão; aqueles não. Afinal, são bons ladrões!
Atire a primeira pedra quem nunca cometeu um pecado... Estamos, todos, levando uma banana!!! Com direito a dança da pizza e tudo o mais... O resto, é pura especulação!
A Estância de Sallis
Enviado por A Estância de Sallis em 29/03/2006
Código do texto: T130742
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Sobre o autor
A Estância de Sallis
Salesópolis - São Paulo - Brasil
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A Estância de Sallis