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"LAVOU TÁ NOVO"

[Ou "Lavou tá limpo"]

Nunca sabemos de onde surgem expressões que se tornam bordões de uso largamente difundidos. Penso que alguém as disse um dia, quem ouviu gostou, repetiu, pessoas pouco afeitas ao questionamento e mais inclinadas ao espirituoso vão repetindo, repetindo, até que as expressões, órfãs de pai e mãe, acabam virando máximas que, supostamente, carregam uma verdade.

Deve ter sido esse o caminho das expressões "Lavou tá limpo" ou "Lavou tá novo", como de tantas outras insistentemente empregadas.

Esta expressão, que todo mundo já pronunciou alguma vez, encerra uma gama de significados que vão da simples brincadeira até o cinismo mais revoltante. E é sobre alguns desses significados que eu quero convidar o leitor a pensar.

Os homens a usam para justificar suas incursões sexuais menos sérias e que a própria expressão transforma em levianas e depõem pelo uso que se faz da mulher. É como se um encontro sexual fosse tão desimportante que um simples banho o pudesse apagar de vez.

As mulheres a usam, embora bem menos, também justificando, muitas vezes, as aventuras amorosas e inconseqüentes de seus companheiros e, talvez, disfarçando a mágoa que isso lhes causa.

Nos dois casos, isso me parece tão leviano que exige uma reflexão. Sabemos que o ato sexual, desde o desejo até sua realização, está muito mais na cabeça que no genital. E, na nossa mente, que banho o pode lavar e/ou limpar?

Outro triste significado está na idéia que sutilmente esconde: a de que o sexo é sujo. O simples conceito de lavar sugere a sujeira. E essa sugestão vai entrando em nossas cabeças e acaba, muitas vezes, em convicção. Embora não verdadeira.

Mas, o significado mais infeliz está na negação do homem (e aqui falo do macho) como ser humano completo, que sente, sofre, ama, vibra, enfim, que tem todas as reações características a qualquer ser humano. E o sentimento é a mais abrangente neste caso. Por isso chamo a expressão de cínica.

Homens e mulheres têm suas diferenças em termos de reações, de manifestação de sentimentos. Mas ambos são capazes de sentir e sentem. E o "lavou novo", aplicado ao homem, parece negar nele a capacidade de sentir, de amar, de guardar lembranças agradáveis e indeléveis. O que não é verdade e ninguém contestaria isso.

Com o movimento feminista, as mulheres foram se defendendo das expressões machistas que as atingiam. Com isso, foram derrubando tabus e ocupando aos poucos seu verdadeiro lugar na sociedade e no conceito que delas se faz.

Os homens, justamente por seu milenar machismo, nem sempre fizeram o mesmo. Não pararam para refletir mais demoradamente em questões que os atingem em cheio. Ao contrário, endossam e continuam repetindo exatamente o que lhes fere a dignidade. E ainda falam rindo, como seres superiores que muitas vezes se julgam.

Não, não estou aqui condenando os homens, estou sim tentando defendê-los de sua própria inconsciência. Inconsciência, aliás, que não é privilégio deles, mas de todos nós. Não fomos educados para a reflexão, para o senso crítico. Como papagaios, saímos repetindo o que ouvimos, desde que nos agrade, sem procurar o âmago de seu significado e sem questionar sua validade. Aconteceu com a famigerada Lei de Gerson, que se instituiu e levou muito tempo para que déssemos acordo do quanto era prejudicial a nós mesmos como coletividade. E se repete com muitas expressões, inclusive com essa que levanto aqui para que pensemos um pouco e a rejeitemos com determinação.

Meu único objetivo com este e outros temas que tenho levantado: que se pense num sexo digno, bonito, amante e realizador. Que não possa ser lavado cinicamente porque não o queremos apagar. E com muito mais prazer que a simples resposta de nossos corpos. Prazer que não é de um momento limitado, mas que fica registrado em nossa memória para ser deliciosamente relembrado quando nos aprouver.
Sal
Enviado por Sal em 04/04/2006
Código do texto: T133419
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Sobre a autora
Sal
Marília - São Paulo - Brasil, 78 anos
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