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COCÔ NO TAMANCO
J. B. Xavier


Você já pisou num cocô calçando tamanco? Tente! Vai ser difícil se livrar dele! Não do tamanco, mas do cocô! Só há uma coisa mais difícil de desgrudar: O político do poder!

A pior coisa que um brasileiro pode possuir é memória boa. Confesso que uma amnésiazinha às vezes ia bem. Não é o meu caso. Possuo uma memória de elefante, pobre de mim! Gente como eu, parece estar sempre entrando na mesma sala de cinema para ver sempre o mesmo filme! É chato isso! Quer ver por que? Como diria o Goulart de Andrade: “Vem comigo!”

Por um brevíssimo instante, o destino presente e futuro do Brasil, que todos julgavam glorioso, parecia estar assegurado. Collor estava na frente nas pesquisas eleitorais. Era sangue novo na política. Nada mais de ACMs de Sarneys, de Tancredos, de Ulysses, e de todo esse pessoal da Velha Guarda. O novo chegara, e chegara arrasando!

Esses dois destinos cruzaram-se por um breve instante no debate televisivo onde Collor e Lula se enfrentaram. Assisti a esse debate. Collor arrasou Lula. Há época descobriu-se uma filha bastarda que Lula tinha num cantão desses aí do Brasil e a figura de homem probo do ex-sindicalista foi por água abaixo. Lembro-me que no mesmo debate Collor perguntou a Lula. “O senhor sabe qual a diferença que existe entre uma Fatura e uma Duplicata?” Lula vacilou na resposta e naquele momento suas limitações ficaram claras. Sua candidatura afundara com o seu vacilo.

Ninguém tem bola de cristal, mas se estivéssemos atentos o suficiente, veríamos que naquele debate estavam as duas faces da mesma moeda: Ambos futuros presidentes deslumbrados pelo poder. Ambos completamente imaturos para a missão à qual se lançaram: governar o país mais extenso da América do Sul, o terceiro das Américas e o quinto do mundo, que era, há época, a 8ª economia mundial.

Um, cuja experiência administrativa mais marcante tinha sido governar o Estado de Alagoas. O outro, achava-se preparado por ter presidido uma Central Sindical. Um, metido a poliglota, o outro, sentindo urticária cada vez que ouvia a palavra “livro”.

Você lembra? Não importava a opção do voto. Sempre se estaria votando num dos dois extremos.

Deu no que sempre dá os extremos: Bancarrota.

Collor, o Indiana Jones brasileiro, bateu de frente com os donos do poder. Em sua sandice, acabou por modernizar um pouco o velho e enferrujado Brasil. Por exemplo, ele desregulamentou vários setores da economia, como a distribuição de gás, de combustível etc. que tinham preços tabelados; acabou com a Embrafilme – uma estatal que devia produzir filmes, mas produzia apenas corrupção, Instaurou a “Lei Zico” que trouxe grande aporte financeiro ao esporte, acabou com a “reserva de mercado de informática” que proibia o Brasil de importar esses equipamentos, para que os produtores nacionais como Itautec, Bradesco e alguns outros pudessem faturar sozinhos; abriu o mercado brasileiro às importações, acabando com boa parte de burocracia existente, e obrigando as montadoras nacionais a finalmente modernizarem seus produtos, ao chamar de “carroças” os carros brasileiros durante uma visita a uma montadora alemã. E outras coisitas mais, como lacrar o buraco que servia para os testes nucleares brasileiros.

Isso tudo – diga-se a verdade - mudou e modernizou o Brasil. Mas foi feito sem um planejamento de longo prazo. E, num prenúncio do futuro, Collor cercou-se de bandidos e a maionese desandou. Aliás, a maionese sempre desanda quando o cozinheiro acredita que está no comando absoluto da situação e crê-se inatingível. Era o caso de Indiana Collor-Jones.

Pssiu! Não ria. O assunto é sério!

Continuando...O Presidente Collor, que fazia seu Cooper com camisetas mostrando frases de efeito, morava na Casa da Dinda, onde mandou erguer um jardim babilônico, com cascatas artificiais, piscinas, oásis com palmeiras e tudo o que tinha direito um marajá – figura da casta indiana, cujos representantes no Brasil, ele prometeu perseguir até os quintos dos infernos. Aliás, foi a promessa da caça aos “marajás” brasileiros que o elegeu.

Collor apareceu em capas de revistas praticando karatê, andou no submarino da Marinha Brasileira, pilotou caças da FAB, e acabou por assumir de vez o Indiana Jones brasileiro. Da capa da revista ainda me lembro. Dizia a chamada: “Agora é na porrada!”

Tão a sério ele incorporou o personagem de Spielberg, que um dia ele declarou: “Só tenho uma bala na agulha. Não posso errar.”

Escorado na teoria de alguns dos melhores economistas da época, ele disparou essa bala, e através de sua Ministra da Fazenda, que – sei lá como o destino permite essas coincidências – era também “Cardoso” e “Mello”. Zélia Cardoso de Mello, que já trabalhara com Dílson Funaro – lembra dele? - decretou então o seqüestro do dinheiro dos correntistas, e, numa bela manhã, todos acordamos “duros” com – em dinheiro de hoje - não mais que uns 100 reais em nossas contas correntes.

A idéia – infantil – era a de que sem dinheiro, a população não teria como gastar, e sem demanda, haveria excesso de oferta, logo, a inflação cairia.

O que caiu foi o mundo em nossas cabeças. Mas, como somos cabeças duras, agüentamos bem o golpe. Pode rir, agora, se quiser. Nós merecemos.

Ah, sim! Vale lembrar que a ministra Zélia Cardoso de Mello, era a mesma que mantinha um “affair” com um de seus colegas ministros, com idade para ser seu pai. Ambos se encontravam fora do país. Certa vez flagraram os dois trocando bilhetes de amor por baixo da mesa durante uma reunião ministerial.

Conclusão: O tesão do poder enfeitiça!!!

Não deve ser coincidência que uma piada assim fosse terminar no mesmo gênero. Zèlia Cardoso de Mello viria a se tornar esposa de Chico Anísio, há época, o maior humorista do Brasil. Agora, sim, ria à vontade.

Voltando a falar sério:
Depois de tanto modernizar o Brasil – na porrada! – depois de tantas mudanças e de chutar o pau da barraca com um pé e o balde com o outro, Collor-Jones atravessou a linha vermelha e “dançou” devido a uma tal Operação Uruguai. Lembra? Era uma operação financeira fraudulenta que envolvia a “enorme” quantia de oito milhões de dólares.

Não custa lembrar que dez milhões de dólares foram gastos somente para fazer o primeiro astronauta brasileiro - uma missão tão útil quanto um cinzeiro numa motocicleta.

Não ria. É verdade! Se você têm mais que trinta anos, é “ligado” em seu país e não sofre de amnésia, deve lembrar disso, com certeza.

E, para azar de quem tem memória boa, como eu, ficaram gravadas as cenas da votação do “impeachment” de Collor, quando cada voto era precedido de dez minutos de verborragia demagogo-patriótica, tipo: Por não concordar com a corrupção, por não isso e não aquilo, por querer o melhor para o pais, por querer isso e aquilo, etc. etc. etc. meu voto é SIM!

Mas, se você acha que acabou, force um pouco a memória. Sim, porque, atropelado pela História, por ter aceitado o cargo de Vice-Presidente da República, assumiu o trono do Planalto, outra figurinha carimbada: Itamar Augusto Cautiero Franco, ou Itamar Franco, O Topete, como ficou conhecido.

Lembram de seu topete? Lembrava o Johnny Bravo. Aliás, ele se sentia o próprio, pois com todo o peso da idade ainda era metido a conquistador.

Infeliz de mim que não consigo esquecer.

Com Itamar foi a vez dos Anões do Orçamento. Lembra deles? A Branca de Neve Itamar e os cinco anões do Orçamento. Se você não lembra, eu lhe refresco a memória: Tratava-se de meia dúzia de deputados safados, capitaneados por Dunga, digo, João Alves, que fraudavam o Orçamento da União, apossando-se das verbas alocadas nas emendas orçamentárias, que eles mesmos promoviam.

O tal João Alves, foi flagrado usando as loterias da Caixa Econômica Federal para lavar o dinheiro sujo. Isso mesmo! A mesma CEF que quebrou o sigilo do Caseiro do ministro Pallocci. Não ria! Pois esse “anão” disse na TV – e eu assisti – que o fato de ele ter ganhado cinqüenta vezes na loteria era apenas “sorte que Deus lhe deu.”

Por favor. Se você continuar rindo eu paro de relembrar essas coisas. Fique sério, pô!

Depois veio o episódio da Marquês de Sapucaí. Quem não lembra? O Itamar Franco-Bravo foi flagrado por fotógrafos em um desfile de escola de samba no Carnaval carioca ao lado da modelo Lilian Ramos. Detalhe: Itamar estava abraçado à modelo, que estava sem calcinha.

Ah, ah! ah! Ops! Desculpe. Agora fui eu que não consegui ficar sério.

Huum, humm... Vamos em frente:
O segundo episódio, ocorrido durante a campanha para a sucessão de Itamar, foi a gravação dos bastidores de uma entrevista do então ministro da Fazenda, Rubens Ricupero, que não tinha conhecimento de que as imagens estavam sendo captadas via satélite. Ricupero foi flagrado dizendo ao jornalista: "O que é bom, a gente fatura. O que é ruim, esconde".

Simples, não? Tão simples que todos os governos sempre fizeram isso, mas de Ricupero para cá, passaram a fazê-lo às claras, na maior cara-de-pau.

Itamar - um misto de Johnny Bravo e Indiana Jones - botou os tanques do exército no pátio dos Três Poderes para amedrontar uma suposta “insurreição” - os militares adoraram – e disse tanta baboseira que, essas sim, meu cérebro recusou-se a gravar, certamente já por falta de espaço para tanta bobagem. Era um bobo-alegre sem saber ao certo como é que tinha ido parar nos livros de História.

Não ria, Tem mais!
Teve o ACM, que futucou no painel eletrônico, lembra? Teve o Sarney, que acabou Senador pelo estado do Amapá, embora – para rimar – nunca tenha residido lá, e embora a lei exija que o candidato more há pelo menos dez anos no estado da candidatura. Tudo bem. Ele conseguiu provar que tinha uma residência em Macapá e que passava mais tempo lá do que em São Luiz do Maranhão. E quem fez isso foi um ex-Presidente da República! Está bem. Pode rir.

Depois veio Fernando Henrique, e o Plano Real. Sobre isso minha boa memória me lembra de que vi um “outdoor” do PT que no dia seguinte ao anúncio do Plano Real, nas principais esquinas de São Paulo, que dizia: “Parece Real, mas é um pesadelo”.

Enfim, a economia se estabilizou, Garotinho passou a governar o Rio de Janeiro através da esposa, e a toda bem intencionada Benedita, dançou!

Há época, minha bola de cristal já dizia que o crime carioca iria continuar aumentando e ministrando toques de recolher.

Previ também que o número de “descamisados” (você lembra dessa?) iria continuar aumentando e lotando as igrejas que prometem os benefícios do céu aqui e agora!

Eu disse num artigo, que Garotinho deveria aumentar sua base eclesiástico-eleitoral (leia-se curral) e deveria tentar a presidência do país novamente no próximo pleito. Claro, isto se o PT não fizer o que fez PMDB de Sarney, que gostou tanto do poder, que, como um Marimbondo de Fogo, ampliou o próprio mandato em dois anos. No fim saiu pela porta dos fundos do Palácio da Alvorada, após ter transformado os policiais federais em “cow-boys” caçando vacas nas fazendas. Você se lembra?

Então veio o “Agora é Lula”!

Serra partiu para o ataque definitivo a Lula, esquecendo-se de que criticar os outros nunca acrescentou ao crítico um único grama de simpatia. Ao contrário, ao atacar o adversário, Serra mostrou uma total ignorância dos processos sociais complexos que alimentam a maciça vantagem que Lula levava sobre ele.

O povo está se vingando das elites, porque apareceu alguém em quem votar que – supõe-se – também é do povo. Poderia ser um poste, no lugar de lula. Eleger-se-ia igualmente. Ele foi um fenômeno de massa, que Serra, como economista, deveria conhecer, ou pelo menos dele ser informado pelo especialista em sociologia da casa – o próprio Presidente há época, FHC.

Nem o marketeiro de plantão de Serra soube lhe dizer que ele deveria ter concordado para comandar. Como diz a máxima do marketing: “Não há estratégia de marketing capaz de vender um produto que não pára de pé!”

Lula, que não esperava ir para o segundo turno, logo após a eleição saiu dizendo que quer os votos até mesmo de quem não deseja mudanças! Algo assim como “Eu preciso sentar nesta desgraçada cadeira presidencial a qualquer custo! Alguém faça alguma coisa!”.

Fazer alguma coisa, ou “negociar”, como os políticos costumam dizer, significa sair em busca do apoio dos antigos adversários de pleito. Trocando em miúdos, significa prometer presenteá-los com alguns ministérios, presidências de estatais, embaixadas etc.

Quem diria! Lula negociando para ganhar no segundo turno! Minha bola de cristal me dizia que ele ganharia, porque finalmente aprendera a ler (literalmente) a cartilha do “é dando que se recebe”.

Assim, o PT ficou a um passo de dominar o eixo financeiro e produtivo do país, elegendo o Presidente da República e o Governador de São Paulo, que se juntariam à Prefeita de São Paulo, no mais fragoroso trio “eclétrico” do qual já se teve notícia.

Mas, já disse o poeta, "havia uma pedra no caminho", de nome Geraldo Alkmin, que se elegeu governador de São Paulo. E o trio virou "duo".

Não matou a cobra no ninho, agora vai ter que encará-la de frente.

Já Suplicy deu azar: Desceu antes da última parada. Em compensação, há um certo argentino dando risada. Rei morto, rei posto!

Então quem elegeu Lula foram na verdade, os governos que o venceram em pleitos anteriores. E, se Lula perder a próxima eleição, terá sido ele próprio o principal cabo eleitoral de seu adversário.

E agora está para começar tudo de novo!

“Ora” – diria o Capitão Kirk – isso é apenas “uma dobra no tempo”. O filme é o mesmo!

Pois é, amigos. Memória boa no Brasil dá nisso: Essa sensação de já ter visto esse filme em algum lugar. Pelo menos os atores, o enredo e o cenário são os mesmos! Até o astro internacional convidado é o mesmo: Luiz Inácio Lula Não Sei Nadinha da silva.

Mesmo o resultado final parece ser o mesmo. Quer dizer, quase os mesmos. Mudaram apenas os valores.

Perto do que roubou o PT, o Collor pode ser considerado ladrão de galinhas e Maluf já pode ser julgado pelo Tribunal de Pequenas Causas.

Uma das coisas que me intriga em minha memória, e que pode significar senilidade, é que não me lembro de nenhum desses gatunos ter sido detido ao menos por algumas horas!

Também não me lembro de que alguma parte do dinheiro roubado durante todo esse tempo, por ínfima que seja, tenha sido devolvida aos cofres públicos, de onde foram surripiados. Não é possível que nenhum deles tenha sido preso!

Vai ver, minha memória não é assim tão boa quanto pensei que fosse!

Bom, também, para que vou me preocupar com o dinheiro roubado, se estamos aí, eu e você, trabalhando feito loucos para repô-lo, e ser novamente roubado pelas gerações futuras de políticos?

Mas, pensando bem, não terá sido no Final da década de 80 que o PMDB elegeu os governadores de praticamente todos os Estados do país?

Após quase 30 anos de luta renhida contra as direitas militares, com um imenso poder nas mãos, era de se esperar que redimissem a nação. Que esperança! O partido enfiou os pés pelas mãos e deu no que deu.

E agora, através do democrático voto obrigatório, nos enfiaram no Cinema Brasil para ver esse filme de novo! Pelo menos desta vez estão prometendo efeitos especiais espetaculares!

Então, amigos, na próxima eleição, não use tamancos, mas se usá-los for inevitável, pelo menos veja lá onde pisa, digo, veja lá como vota!

* * *
 
JB Xavier
Enviado por JB Xavier em 16/04/2006
Reeditado em 06/04/2014
Código do texto: T139996
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