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POLÍTICA E MORALIDADE

A política brasileira está descambando ladeira abaixo para o nível mais reles imaginável. Tão reles que não me lembra se vi ou assisti no correr dos meus sessenta e cinco anos de vida citadina (até os dezenove era um simples adolescente de vida rural – aos vinte me iniciei no serviço militar e a partir daí vivi a cidade grande).
A corrupção e a imoralidade são inerentes à pessoa humana. É assim desde Adão, quando Caim, por cobiça e inveja, por egoísmo ou maldade sacrificou o irmão. A corrupção política vem dos tempos em que o homem se congregou em sociedade e instituiu um regime de governo. Governo política, governo gerência do bem comum – governo poder. Está escrito em todas as línguas de todos os tempos que o poder corrompe. E, ao lado de corromper, incita à vaidade, ao gosto de mandar, de se imiscuir na vida da comunidade – para melhor dizer, na vida alheia e ditar costumes, impor ordem. Para chegar ao poder, para ser afortunado, para mandar, parece que o homem esquece a si mesmo, ao próprio respeito?
O Brasil capenga desde o início da colonização portuguesa. À distancia, a coroa imaginou e criou um sistema de capitanias hereditárias (hereditária para estar de acordo com a cultura de então – o governo era hereditário). A partir daí, dividiu a imensidão territorial muitas vezes maior que a extensão territorial da Coroa – e nem bem sabida, mal suposta - por apaniguados. Digo-o para lembrar que a regra é esta ainda hoje. Errada. Quando as capitanias falharam porque muitos dos beneficiados nem vieram cá, mas pretenderam governa-las por via de prepostos, a Coroa mudou a regra. Governou ela mesma, nomeando um gerente para a nova terra – um Governador Geral. Ainda que melhorasse o sistema, o erro do favorecimento ao protegido permaneceu. E vieram as sesmarias no lugar das capitanias. Mudou-se o rei provisoriamente para o Brasil, retornou, proclamou-se a independência com o mesmo sistema hereditário, veio a república. E agora, com a república e a instituição da eleição para mando periódico por via de um executivo e um legislativo, o mal cresceu. E deu em evoluir de eleição para eleição, de governo para governo.
A troca de favores e a compra de votos por via do favorecimento lícito ou ilícito, por dinheiro mesmo, em espécie, que se iniciou com o nascimento da República, cresce a cada dia. Cresce e apodrece a Nação. Com Fernando Color, deu-se a renúncia para evitar o impedimento. Nem tanto porque fosse pessoalmente um corrupto, mas porque não soubesse ou não pudesse impedir a fraude, não conseguisse pôr freio à ganância dos apaniguados. Crê-se, hoje, que o presidente não sabia de metade do que se passava ao seu redor. No governo seguinte falou-se sem se saber se era ou não, sem detonar-se a espoleta que expusesse a verdade ou a mentira, falou-se e somente falou-se, na compra de votos no Congresso Nacional para a aprovação de uma lei de reelegibilidade do chefe do executivo nas três áreas de governo. E falou-se a seguir, no correr da campanha eleitoral, na compra de votos por meio de altos favores e benefícios. Agora estoura a notícia de compra, não de votos apenas, mas de nomes mesmo, de nomes e de homens, para mudança de partido e, com essa mudança, somarem-se os votos necessários ao apoio ao governo.
Isso de propina e furto por parte de funcionários públicos, é coisa de pequena importância, para inquérito administrativo e inquérito policial, providência de ministério público, que só poderia chegar ao âmbito legislativo no caso de envolvimento de legisladores, como ocorre – é a cristalina verdade - a partir da confessada agressão à moral pública, com o deputado Roberto Geférson.
Desgraça é, primeiro, o sistema que enseja a eleição de um mandatário sem maioria que lhe dê apoio no legislativo. Desgraça é, depois, a balbúrdia de partidos neste país. “Nem tantos nem tão poucos”. Não poderia ser um apenas, nem só dois, devem ser mais, precisa que sejam mais. Três, quatro, cinco? Falta que se estabeleça uma regra, um limite. O voto do eleitor é para o deputado, que pode mudar à sua vontade de partido para partido, ou o voto é vinculado ao partido e, neste caso, o eleito, ao afastar-se da legenda perde o mandato? Um cobro é necessário que se ponha nisso, inclusive no número mínimo de representantes, para que o partido possa permanecer como tal.
Não vamos incriminar os homens por boatos ou pelo erro dos que eventualmente estejam próximos e nem sempre podem ser vigiados satisfatoriamente na sua malandragem. A malandragem tem artes e subterfúgios que muitas vezes só por um cochilo aparecem. Nem vamos nos enredar na mentira e na falsidade política em regra viciada pela sede de vencer, derrubando o adversário por cima de pau e pedra, para tomar o seu lugar sem pesar a moralidade na luta. Não é porque guerra é guerra, que o homem digno vai lançar-se sobre o inimigo com a quebra da moralidade e do respeito ao semelhante, da ética política e moral, da dignidade. Há muito homem de bem na política, que no calor da luta, no fogo do brio, na precipitação do entusiasmo esquece os princípios mais comezinhos de respeito à honra e o direito do competidor. O que é hoje comigo, contigo poderá ser amanhã, eu diria aos que esquecem as razões alheias.

joaojustiniano@terra.com.br
www.joaoustiniano.com.br
João Justiniano
Enviado por João Justiniano em 18/04/2006
Reeditado em 18/04/2006
Código do texto: T141205

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Sobre o autor
João Justiniano
Salvador - Bahia - Brasil, 96 anos
619 textos (19608 leituras)
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João Justiniano