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10 Mandamentos para escrever uma Comédia Romântica

1. Não tente ser original. Só existe uma comédia romântica: a mesma de sempre. Os personagens variam, as locações, os temas e subtemas, mas a história é sempre a mesma: mulher/homem, nem-tão-jovem/balzaquiana(o)/coroa, com problemas em relacionamentos passados, mas ainda ingênua(o) a ponto de acreditar em contos-de-fada do tipo par-perfeito/príncipe encantado encontra mulher/homem, nem-tão-jovem/balzaquiana(o)/coroa, com problemas em relacionamentos passados, porém pragmática(o) ou sacana o suficiente para desistir-de-tudo-isso-e-curtir-a-vida-com homens/mulheres errados; ou vice-versa (depende de quem é o protagonista). Allternativa: um encontro entre dois tipos iguais, extraídos dos exemplos acima. Não ouse mudar isto, ou não será exatamente uma comédia-romântica.

2. Coloque o casal-em-potencial numa das seguintes situações sexuais:
- um "no osso" e outro na esbórnia;
- ambos "no osso".
OBS: ambos na esbórnia não é comédia-romântica, é comédia PICANTE.

3. Coloque-os bem próximos, mas torne-os cegos às virtudes do outro. Como contraponto, cerque-os de outros seres humanos sensuais, bonitões e de mau-caráter, vestidos em pele-de-cordeiro. Faça os protagonistas irem para cama com eles - pelo menos um dos protagonistas. Antigamente este papel cabia ao homem; hoje em dia é mais "muderno" fazer a protagonista feminina ir para cama com outro, afinal, os homens é que não sabem mais nada de sexo e romance. Como, afinal, estes são filmes feitos para mulheres...

4. Invente uma série de situações embaraçosas que acabem por atrair o casal. Depois invente outra série de situações embaraçosas que acabe por distanciá-los novamente. Quando a coisa começar a encher o saco, bote um pouco de ciúmes na jogada. É o momento em que um deles já descobriu que ama o outro. Só que o outro não sabe. Ou não quer. Estamos chegando ao anticlímax "tenso" que precede o final feliz.

5. Não capriche muito nos personagens secundários: eles estão ali só para encher linguiça. Sua única função é ser platéia para o momento mágico em que desvendarão a "verdade" para o protagonista. Um amigo ou amiga gay bem resolvido(a) está na moda.

6. Capriche nas locações, nas panorâmicas, nos jantares luxuosos. Uma cidade "fotogênica" (NY e Paris são "all time favorites) vale o ingresso.

7. Capriche também nas piadinhas cretinas sobre pretendentes gordos, carecas, magros ou nerds demais. Assim você deixa claro a gordos, carecas, magros ou nerds demais que eles /elas não têm chance alguma. Isso os fará chorara tanto com o "final redentor, humano e otimista" do filme, que nem se lembrarão de terem sido gozados. (Recente comédia romântica brasileira mexeu com... pretendentes anões! É, os roteiristas em busca da fama não perdoam ninguém...)

8. Invente um nome bem bobo como título para a película. Quanto mais doce melhor, tipo "Amor em Irajá" (lugares famosos são certeiros) ou "Outono de Paixões" (estações do ano também). Se você for um roteirista/diretor ousado, pegue um detalhe absolutamente insignificante do enredo que possa chamar a atenção (exemplo perfeito: o recente "Must Have Dogs", com John Cusack e Diane Lane - os cachorros são absolutamente dispensáveis).

9. Deixe a "descoberta" de que tudo foi um engano, de que "o amor é lindo e vencerá" para o final. SEMPRE. Ninguém quer saber o que acontece DEPOIS que os pombinhos se casam. É assim desde a época da "Cinderela". E se não for, a cena principal de qualquer comédia-romântica não acontecerá: A CORRIDINHA DO AMOR! Pode ser de carro, a pé, de charrete em Londres, de barco em Paris - até uma NADADINHA DO AMOR(!) aconteceu outro dia num filminho desses - de qualquer jeito. MAS TEM QUE TER. Com o mocinho ou a mocinha gritando desesperadamente o nome do outro numa situação limite - tipo entrando num barco, ou num avião, ou indo embora da cidade... Se os pombinhos ficam juntos é só por causa de uma fraçao de milésimo de segundo. Um tisco a mais e babau!

10. Termine o filme com um beijo em close, dado no meio da rua, do trânsito, em praça pública ou num lobby de hotel: o importante é a câmera se afastando devagar, descrevendo circunvoluções em slow motion, afastando gradativamente do casal até o fade out final (para quem não sabe, é quando a tela vai escurecendo gradativamente para dar lugar aos créditos.


OBSERVAÇÃO IMPORTANTÍSSIMA: mostre copiões prévios do filme, com edição tosca, a donas-de-casa, domésticas, velhinhas, crianças e outros grupos "de opinião". Só sossegue quando TODOS gostarem!!! Aí, é sucesso na certa - bem, pelo menos sua namorada ou mulher vai pegar aquele filme na preteleira da locadora e falar: "Queria ver este filme, dizem que é tããão bonito (suspiro!)..." Como não é você que vai decidir...
Renato van Wilpe Bach
Enviado por Renato van Wilpe Bach em 22/04/2006
Reeditado em 02/09/2014
Código do texto: T143085
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Renato van Wilpe Bach
Ponta Grossa - Paraná - Brasil
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Renato van Wilpe Bach