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Viva a Travessia

Algo que me perseguia, já há mais de uma década, foi o quê me inspirou a escrever este texto. Depois de todo este tempo, foi necessário que eu abrisse uma revista, ao acaso, num dia de total descontração, e desse de cara com um artigo (1) – muito bem escrito, por sinal -, cujo teor ficaria martelando em meu subconsciente por vários dias, até que eu criasse coragem para escrever a respeito.

O artigo tratava da superação de momentos difíceis, geralmente causados por grandes e inesperadas mudanças. Alguns psicólogos (citados no artigo original) sustentam que nós, seres humanos, estamos programados para lidar com transições, por causa da evolução. Sim, mas somente com aquelas ditas esperadas, e consideradas normais, a saber: da infância para a adolescência, da vida adulta para a terceira idade, mudanças comuns de emprego, endereço...

Também com aquelas que encerram em sí uma não-realização – algo que esperávamos que acontecesse, mas que, por alguma razão, não acontece! - a saber: o tempo passa e não casamos, não temos filhos, não nos formamos, não concluímos um doutorado, não construímos uma carreira, uma casa, não temos netos, não ficamos ricos e assim por diante.

Porém, atônitos mesmo, sem-chão, sentimo-nos quando sofremos mudanças inesperadas, como a morte de uma pessoa muito querida, o fim de um relacionamento, de uma carreira, a perda daquele empregão, a casa que a enchente levou, o apartamento que, fruto das economias de toda uma vida, num prédio chique – porém construído com areia da praia! -  que desabou enterrando sonhos, bens materiais e membros da família. E por aí vai...

Lidar com mudanças inesperadas é sobre o quê gostaria de compartilhar um pouco aqui. Para tais situações, assim como para a educação de filhos, parece mesmo não haver receitas, nem fórmulas. Cada um tem que encontrar seu próprio caminho. Desanimador? Nem tanto, desde que possamos nos apoiar na experiência alheia. Assim como a História, problemas seguem padrões, que se repetem - e com muita freqüência, aliás! - A vida me ensinou que, diferente do que pensamos, quando no olho-do-furacão, não somos os primeiros - nem seremos os últimos! - a passar por uma situação quase enlouquecedora.

Quando uma mudança inesperada acontece em nossas vidas, encontramo-nos bem no meio de duas estações bem distintas: o ANTES e o DEPOIS do ocorrido. Ursula Nuber, autora do artigo que me levou à presente reflexão, aponta que a forma mais saudável de se passar do ANTES, para o DEPOIS, parece ser, justamente, vivenciar a travessia, por mais turbulenta que ela seja! Aqueles que sucumbem à tentação de desviar o caos, as dores, e o desconforto causados por perdas, fracassos e frustrações, correm o risco de ficar presos num ciclo, jamais alcançando, com segurança, a outra margem, aquilo que com certeza virá depois do DEPOIS.

Instintivamente, o que se tende a fazer é engolir o choro, e tentar passar o mais rápido possível de uma estação à outra, voltando o quanto antes à realidade. Contudo, tentar ignorar a agonia da travessia seria um erro gravíssimo. William Bridges (2), citado por Nuber, denomina esta fase caótica de ZONA NEUTRA, um ponto entre o 'nunca mais' e o 'ainda não'.

Nesses momentos, o que devemos fazer é dar tempo a nós mesmos, tempo ao tempo, mesmo que o pensamento do dia seja: "Não importa em quantos pedaços teu coração foi partido, o mundo não pára para que o consertes." (3) - "Bobagem! Toma o tempo que necessitares. É para teu próprio bem. Quando deixares de existir, o mundo continuará seu curso normal, sem tí. Por que então não dar-te o direito de recolher-te, tomando o tempo de que necessitares? Toma tempo para despedir-te do mundo que conhecias até então e preparar-te para o NOVO 'Porque o novo sempre vem!' (4)".

E eu reformularia "A vida continua; olha pra frente!" para: "A vida continua; toma tempo para respirar e então volta a olhar pra frente!" e "Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima!" (5) para: "Levanta, sacode a poeira, toma tempo para respirar e então darás a volta por cima!". "Se tempo é uma questão de prioridades, prioriza então o tempo que necessitas para poderes juntar os caquinhos."

Claro que estar na tal zona neutra é extremamente ruim. É um momento em que nos encontramos vulneráveis, nus, fracos, duvidamos de nós mesmos e de nossa capacidade de superação, temos medo de tudo, até do próprio medo (6). E quem gostaria de estar numa situação dessas, sujeito a perdas de identidade, direção, fugas da realidade? Certamente, ninguém... Porém, somente quem encarar o processo, como um todo, poderá se beneficiar, no final, da metamorfose. É a velha história do casulo e da borboleta.

Como já disse, não há fórmulas nem receitas, cada um faz seu próprio caminho. Porém, padrões de comportamento têm sido identificados. Aqui, uma exposição em fases, mistura de informações do artigo com minhas próprias conclusões e experiência:

CHOQUE
 
Ocorre de forma abrupta, radical - "Meu mundo caiu!" (7) – e segue uma rápida, superficial constatação da realidade: "O mundo que eu conhecia, não existe mais... A casa ruiu, as coisas mudaram...", "Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia..."(8) - e às vezes é até melhor que não sejam mais mesmo...

DESLIGAMENTO

- Período de luto, retiro, silêncio quase que absoluto, confusão, revolta: "A dor é minha, a dor" (9), "Foda-se o mundo!", "Odeio tudo e todos!";

- Perda de identidade e direção, questionamento de papéis: "Não sou mais mãe, esposa, gerente de marketing, advogada bem sucedida...", "Quem sou eu afinal e o que eu quero da vida daqui pra frente?";

- Alucinações, perda do sentido da realidade: "Minha filha vai voltar para casa a qualquer momento e quando ela voltar seu quarto vai estar lá, do jeitinho que ela deixou!".

Os psicólogos (citados no artigo) destacam, nesta fase, a importância de se acreditar que tal sofrimento tem uma razão, um sentido no final, e que isso, um dia, vai passar. Essa crença, independente de religião, seria algo fundamental para o surgimento de uma nova identidade, para a consolidação de papéis e conscientização da nova realidade. Povos primitivos, como certos grupos indígenas norte-americanos, simbolizavam esta fase, em seus rituais, com a idéia de uma serpente mudando a pele. É exatamente o que acontece, pois é quando estamos nus, vulneráveis, trocando a pele antiga por uma outra, totalmente nova.

CONSCIENTIZAÇÃO

Confrontação e aceitação da nova realidade. Nessa fase, já se consegue encarar a verdade e raciocinar com clareza. Se essa fase não acontecer, há o risco da pessoa ficar presa no ciclo, indefinidamente, sem conseguir jamais dar a volta por cima.

Há ainda casos em que mudanças inesperadas ocorrem em cascata, ou seja, nem bem temos tempo para aceitar uma tragédia, uma perda, e lá acontece outra, e mais outra, e mais outra... Na confusão da vida moderna, e até mesmo como mecanismo de defesa, creio, corremos o risco de não querermos nunca parar para acertar o passo, até que um dia nosso corpo tome tal decisão por nós. Aí vamos parar numa UTI da vida, e se de lá conseguimos sair, e ainda assim continuamos fugindo das confrontações, e o ciclo de renovação, este jamais se completa.

Houve momentos em que pensei estar à beira da loucura e, por instinto de sobrevivência, talvez, não fugi às confrontações. Penso que ainda tenha que inventar palavras para expressar o imenso alívio, ao sentir que havia, finalmente, saldado as zonas neutras ignoradas ao longo de mais de 30 anos de vida. "Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe..." (10) e com uma vontade enorme de compartilhar essa paz. Mais de 10 anos... esse foi o tempo que o Tempo achou que eu precisava para me curar. Outras zonas neutras virão – certamente! -, mas espero que não me peguem mais tão desprevenida, com as calças na mão, como da primeira vez, há mais de 10 anos...

Para saber mais:

(1) Ursula Nuber, Übergänge: Wenn die Zeit stillsthet. Revista Psychologie Heute. Ano 35, Nr. 12, Dezembro de 2008. www.psychologie-heute.de
(2) William Bridges: Transitions. Making sense of life’s changes. Da Capo Press, Cambrigde 2004.
(3) Citação atribuída a William Shaekespeare. Não posso garantir!
(4) Trecho da canção Como nossos pais, autoria de Belchior (www.mpbnet.com.br)
(5) Trecho da canção Volta por cima, autoria de Paulo Vanzolini (www.mpbnet.com.br)
(6) Dê uma olhada na letra na canção Miedo, de Pedro Guerra, Lenine e Robney Assis – "O medo é uma força que não me deixa andar"
(7) Trecho da canção Meu mundo caiu, de Maysa (www.mpbnet.com.br)
(8) Trecho da canção Como uma onda, autoria de Lulu Santos (www.mpbnet.com.br).
(9) Trecho da canção De mais ninguém, autoria de Marisa Monte e Arnaldo Antunes.
(10) Trecho da canção Tocando em Frente, Almir Sater e Renato Teixeira.

Nota da autora:

Escrevi este texto, sobretudo, com a finalidade de compartilhar uma experiência pessoal. Jamais pretendi que fosse uma análise ou ensaio em Psicologia, até mesmo porque não sou psicóloga. Penso que a maioria das pessoas não gosta de falar sobre problemas e que, de uma certa forma, somos incentivados a guardar tudo para nós mesmos, mascarando a dor e levando o show adiante, como se tudo estivesse bem. E é por isso que adoecemos! É exatamente desse padrão que quero fugir. Se as informações neste texto puderem levar a alguém que sofre um pouco de paz, luz e clareza, meu objetivo terá sido alcançado. Um abraço fraterno. :-)



Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 28/02/2009
Reeditado em 10/03/2010
Código do texto: T1461591
Classificação de conteúdo: seguro

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