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COMEMORAÇÃO NUM MOTEL

Umas três vezes por semana chegam telefonemas em minha casa, com vozes femininas, querendo falar com “o dono da casa” ou então com “o senhor José Martins”. Não sabem nem meu nome todo e se orientam pelo catálogo telefônico. Tais ligações sempre chegam quando a gente está tomando banho, lendo uma revista ou jornal com denúncias de corrupção, almoçando ou dando uma cochilada na rede, depois do almoço. Quando eu atendo, ouço uma voz com sotaque carioca ou paulista, dizendo se chamar Sheila, Karina ou Kátia, nomes pequenos, bonitos e muito usados por travestis.
- Sêo José, aqui quem fala é Sheila ! O nosso banco quer saber se o senhor está
precisando de algum empréstimo ou algum cartão de crédito.
- Não, senhorita, não preciso e o pouco que o estado me paga, dá pra fazer algumas
feiras e pagar as tarifas imorais que o governo permite que nos cobrem, num verdadeiro assalto.
- Sêo José, o senhor foi escolhido dentre milhares de maceioenses para receber esta
nossa oferta.
- Não preciso, tá ?   Muito obrigado !
Nojeta mentirosa ! As vezes querendo ser educado não bato o telefone, mas, fico irri-
tado com tantas ofertas insistentes. Não é raro elas dizerem que o Banco Tal, colocou à minha disposição um crédito de R$ 1.000,00. Algumas vezes, antes de bater o telefone, digo que “transfira meu crédito para seu pai ou para o sacana do seu gerente ”. É que esse negócio de oferecer cartão de crédito ou crédito de certa quantia, está sendo uma praga. Invadem nossa privacidade, exatamente, nas horas que a gente está em casa, descansando ou almoçando.
Nesta semana que se passou, uma moça com voz de “bicha” me telefonou para dizer que seu Banco, por sinal muito conhecido, estava renovando o cadastro dos seus clientes e queria algumas “informações complementares”.  Eu disse que não daria informações por telefone e se o banco quisesse, poderia mandar até minha casa um funcionário com identificação e carta de apresentação. Ela insistiu, mas, dei o papo por encerrado e desliguei o telefone. Ora, numa época na qual estão clonando cartões de crédito e celulares, vem uma mocinha com voz  de travesti, encher meu saco, querendo meus dados por telefone.
A culpa é do governo que deixa os bancos fazerem o que bem entendem. Cobram taxas exorbitantes para no fim do ano divulgarem lucros de 70 bilhões de reais. Ora, lucro é o que sobra depois do banco pagar a todos seus servidores e efetuar todas as suas despesas. Um banco que tem lucro anual de 70 bilhões de reais, lucra por mês a quantia de, um pouco mais do que 5 bilhões e oitocentos milhões de reais ou, ainda, 194 milhões por dia que equivale a mais 8 milhões de reais, por hora, sem falar nos sábados, domingos e feriados que não trabalha e ganha. Estas fabulosas quantias, servem para financiamento de campanhas eleitorais ou para mesadas e propinas a políticos desonestos. O governo nunca se preocupou em limitar os ganhos dos bancos, pra não perder a mamata.
De agora em diante, quando uma mocinha de banco me telefonar para oferecer crédito, empréstimo, cartão ou dizer que eu fui escolhido, eu vou dizer a ela que guarde o dinheiro para nossa comemoração num dos melhores motéis de Maceió ! É quando vou poder “renovar meu cadastro”  e fazer “alguns depósitos”.

Obs: Este artigo foi publicado no Jornal EXTRA, em 2005.
José Arnaldo Lisboa Martins
Enviado por José Arnaldo Lisboa Martins em 27/04/2006
Código do texto: T146487
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Sobre o autor
José Arnaldo Lisboa Martins
Maceió - Alagoas - Brasil
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José Arnaldo Lisboa Martins