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Caça e pesca entre os índios Karajá do Norte

1. INTRODUÇÃO

No Brasil são escassas as pesquisas sobre o conhecimento e utilização que grupos indígenas e comunidades tradicionais (ribeirinhos, pescadores artesanais, extrativistas, quilombolas etc.) fazem da biodiversidade local.

No Estado do Tocantins existem várias comunidades indígenas, mas apesar disso são incipientes as pesquisas sobre o conhecimento e utilização que tais grupos fazem da biodiversidade local, assim como também, há uma carência de informações sobre as mudanças na organização social e nas formas tradicionais de subsistência desses grupos.

Os índios Karajá habitam tradicionalmente a bacia do rio Araguaia, falam língua homônima pertencente ao tronco lingüístico Macro-Jê, apresentam população de aproximadamente 3850 pessoas e se dividem atualmente em três subgrupos: os Javaé, os Karajá do Norte e os Karajá propriamente ditos (TORAL 1992; RODRIGUES, 1993). O subgrupo Karajá é o maior com população aproximada de 2500 pessoas e pode ser encontrado nos Estados de Goiás, Mato Grosso, Tocantins e Pará. Os Javaé são cerca de 1100 pessoas habitando o Estado do Tocantins, que juntamente com os Karajá nesse Estado ocupam aldeias localizadas na Ilha do Bananal. Os Karajá do Norte,  também conhecidos como Xambioá, possuem população aproximada de 250 pessoas e habitam a região do Bico-do-pagagaio, norte do Tocantins (TORAL, 2004; FRANKLIM, 2004; SALERA JÚNIOR, 2005).

Este breve trabalho busca avaliar a atividade de caça entre os índios do subgrupo Karajá do Norte, que habitam o município de Santa Fé do Araguaia, Estado do Tocantins.


2. MATERIAL E MÉTODOS

A coleta de dados dessa pesquisa ocorreu em seis visitas (totalizando 81 dias de convivência) às aldeias Kuherê e Xambioá, Terra Indígena Xambioá, município de Santa Fé do Araguaia, região do Bico-do-papagaio (Estado do Tocantins), no período de fevereiro/2002 a novembro/2003.

Nessas visitas foram realizadas 20 (vinte) entrevistas individuais com caçadores e pescadores, e também foram acompanhadas as atividades de caça e pesca para registro das diversas técnicas e métodos seguindo procedimentos adotados por FRANKLIM (2004).

Nas entrevistas foram coletadas informações sobre as principais espécies caçadas e pescadas, número de pessoas envolvidas, métodos e estratégias utilizadas, período e locais explorados. Tais informações foram confirmadas no acompanhamento dos índios em 10 (dez) caçadas e em 15 (quinze) pescarias.


3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

As caçadas são exercidas exclusivamente por homens, sem fins comerciais, com o emprego de armas de fogo, geralmente, com a participação de cães domesticados. De acordo com OLIVEIRA et al. (1990), a caça é juntamente com a pesca a principal forma de obtenção de alimento de origem animal para os ameríndios.

Os Karajá do Norte praticam duas estratégias de caça: (1) caça oportunista (ocorre simultaneamente às atividades agrícolas e de coleta de frutos, sem planejamento prévio e com um número reduzido de pessoas, de uma a três pessoas) e (2) caça voluntária (caracteriza-se por um planejamento antecedente com definição de itinerário, data e horário e pode contar com a participação de até dez pessoas). A caça voluntária pode ser dividida em dois grupos: caça de espera e caça de busca. A caça de espera se dá com a permanência do caçador em uma localidade, onde se tenha detectado anteriormente a presença de animais, como por exemplo, através da observação de rastros, pegadas e fezes, isso se dá usualmente nas proximidades de árvores em frutificação ou em localidades próximas aos cursos d'água. A caça de busca consiste na realização de transectos ao encontro de animais, que pode se dar por caminhadas ao longo de trilhas ou pela navegação de trechos do rio Araguaia em busca de animais que estejam às suas margens.

Segundo MELATTI (1970), os índios Krahô (Estado do Tocantins) modificaram suas práticas de caça, com a crescente utilização de armas de fogo empregadas para matar os animais. Para MELATTI (1972), essa mudança foi verificada em vários outros grupos indígenas, que alteraram suas técnicas de caça com a introdução não só das armas de fogo, mas também pelo uso constante do cão. Sendo que esses dois novos elementos tornaram-nos mais eficientes na perseguição, captura e abate de animais silvestres.

A caça dos índios Achuar (Equador) é caracteristicamente uma jornada solitária, com a exceção dos caçadores que freqüentemente são acompanhados por suas esposas (ROSS, 1978). Entre os índios Makuna (Estado do Amazonas), a caça é executada, geralmente, por um grupo de homens. Mas, em situações especiais, como no caso de uma travessia de porcos-do-mato (Tayassu ssp.) por um rio, várias mulheres em canoas, acompanhadas de homens ou não, podem matar esses animais, batendo-lhes na cabeça com porretes (ARHEM, 1996).

As atividades de caça dos índios Karajá do Norte são realizadas, preferencialmente, nos meses da estação seca (maio a novembro). Há uma redução do número de caçadas durante a estação chuvosa (dezembro a abril) e em noites de lua cheia, por consideram tais períodos menos favoráveis para a captura de animais. Os principais animais caçados são: queixada (Tayassu pecari), caititu (Tayassu tajacu), capivara (Hydrochaerys hydrochaerys), paca (Agouti paca), cutias (Dasyprocta spp.), tatus (Dasypus spp., Euphractus sexcintus), veados (Mazana spp., Ozotoceros bezoarticus), jabutis (Geochelone spp.) e algumas aves, dentre as quais, arara (Ara ararauna), jaós (Crypturellus spp.), mutum (Crax fasciolata), perdiz (Rhynchotus rufecens), galinha d'água (Gallinula chloropus) e marrecas (Dendrocygna spp.). Os animais são abatidos exclusivamente para o consumo local. Não se verifica a caça para comercialização ou escambo.

Na Terra Indígena Xambioá, os cães participam da maioria das caçadas, em número que variam de um a cinco indivíduos. No local onde foram abatidos, os animais que se destinam ao consumo são abertos ao meio e têm suas vísceras e cabeça retiradas, para facilitar o transporte e reduzir o risco de putrefação acelerada. Pequenos pedaços de órgãos e carne são então distribuídos aos cães, conforme também observado entre caçadores não-indígenas na região do Pantanal, Estado do Mato Grosso do Sul (LOURIVAL & FONSECA, 1997).

Entre os Karajá do Norte, os cães utilizados nas caçadas estão entre os animais domesticados mais valorizados, devido a sua contribuição na obtenção de alimento para subsistência familiar e comunitária.

Considerando os Achuar e a relação que estabelecem com o cão doméstico que é utilizado para a caça há uma peculiaridade única entre os ameríndios. Esses animais são personalizados, recebendo das mulheres da aldeia nomes e tratados como filhos adotivos. As mulheres cuidam de educá-los, preparando esses animais para os homens que os utilizam nas atividades de caça. Em diversos grupos indígenas pode-se observar algo muitas vezes semelhante, mas não tão peculiar, quando se considera a prática que os Achuar possuem de ministrar alucinógenos aos cães para que esses adquiram melhores aptidões para a arte da caça (DESCOLA, 1986).

Diferentemente do que se observa para a caça, a atividade de pesca entre os índios Karajá do Norte é praticada por integrantes de ambos os sexos, adultos e crianças. Nessa atividade empregam o uso de espinhel (anzóis presos por uma linha fina em uma mais grossa), boínha (anzol preso a uma linha curta com uma bóia), linha e anzol, caniço, redes e tarrafas de diferentes tamanhos e malhas. SALERA JÚNIOR (2005), em estudo na bacia do rio Araguaia, registrou que tais métodos são amplamente empregados por pescadores profissionais da colônia de pesca do município de Xambioá (Estado do Tocantins) e por ribeirinhos do povoado Santa Cruz, município de São Geraldo do Araguaia (Estado do Pará), localizados a jusante da Terra Indígena Xambioá, e também pelos índios do subgrupo Javaé do Parque Indígena do Araguaia (Ilha do Bananal, Estado do Tocantins).

Existem poucos registros de grupos indígenas que tradicionalmente usavam redes antes do contato interétnico. O uso de redes malhadeiras e tarrafas foi introduzido entre diversos grupos indígenas no período colonial (SMITH, 1979). Segundo MACHADO (1947) e SCHULTZ (1953), os índios Karajá usavam redes feitas de cipós e também de fibras de Cecropia sp., que são resistentes o bastante para garantir que peixes grandes, como os pirarucus (Arapaima gigas), não escapassem. Elas tinham cerca de 6 m de comprimento por 1 m de altura, com uma abertura de malha de 20 a 30 cm. Essas redes eram utilizadas em reentrâncias do rio Araguaia ou em pequenos lagos marginais de pequena profundidade, principalmente na estação seca. Elas não eram simplesmente deixadas na água para que os peixes fossem apanhados ao acaso. Os índios batiam na água para afugentar os peixes, eles se dirigiam para dentro da rede e eram capturados manualmente, não ficando emaranhados como nas redes malhadeiras. Atualmente, os índios Karajá do Norte confeccionam redes e tarrafas utilizando linhas sintéticas de nylon. O método mais utilizado para obtenção de pescado é a linha e anzol.

Os peixes mais apreciados e comercializados são: pirosca ou pirarucu (Arapaima gigas), filhote (Brachyplatystoma filamentosum), pirarara (Phractocephalus hemioliopterus), surubim (Pseudoplatystoma fasciatum), jau (Paulicea luetkeni), dourado (Brachiplatistoma flavicans), jaraqui (Semaprochilodus brama), tucunaré (Cichla spp.), fidalgo (Ageneiosus brevifilis), pacu (Myleus spp.), piau (Leporinus affinis) e aruanã (Osteoglossum bicirrhosum). Eles pescam também duas espécies de quelônios, tartaruga-da-amazônia (Podocnemis expansa) e tracajá (Podocnemis unifilis).

O comércio do pescado e dos quelônios é realizado em pequena escala nas proximidades das aldeias. Tanto a caça quanto a pesca são mais freqüentemente realizadas na estação seca (maio a novembro). Há uma redução do número de caçadas durante a estação chuvosa (dezembro a abril) e em noites de lua cheia, por consideram tais períodos menos favoráveis para a captura de animais.

Os métodos tradicionais de caça e pesca (uso de arco e flecha, lança, arpão e emprego de armadilhas) deram espaço, quase que totalmente, a utilização de métodos não-tradicionais. Na caça são empregadas armas de fogo e cães domesticados para esse fim e nas atividades de pesca têm-se a utilização de instrumentos e petrechos industrializados em substituição àqueles manufaturados com recursos naturais. Aspecto que mostra a influencia da comunidade envolvente na desagregação de seus hábitos e práticas cotidianas tradicionais.


4. BIBLIOGRAFIA

ARHEM, K. 1996. The cosmic food web: Human-nature relatedness in the Northwest Amazon. In:

DESCOLA, P. 1986. La Selva Culta. Simbolismo y Praxis en la Ecologia de los Achuar. Lima/Quito: IFEZ (Instituto Francês de Estúdios Andinos)/ Ed. Abya Yala.

DIEGUES, A.C. (Org.). 1999. Biodiversidade e as comunidades tradicionais no Brasil: os saberes tradicionais e a biodiversidade no Brasil. NUPAUB-USP/ PROBIO - MMA/ CNPq. São Paulo. 211p.

FRANKLIM, W.G. 2004. Irahu Mahadu: Aspectos Socioeconômicos da etnia Karajá-Xambioá do norte do estado do Tocantins. Porto Nacional (TO), Fundação Universidade Federal do Tocantins. (Monografia - Graduação em Geografia, Fundação Universidade Federal do Tocantins). 62p.

LOURIVAL, R.F.F. & FONSECA, G.A.B.F. 1997. Análise de sustentabilidade do modelo de caça tradicional, no Pantanal da Nhecolândia, Corumbá, (MS). In: Valladares-Pádua, C.; Bodmer, R.E. & Cullen Jr., L. Manejo e Conservação de vida silvestre no Brasil.

MACHADO, O.X. 1947. Os Carajás. Imprensa Nacional. Rio de Janeiro. 128p.

MELATTI, J.C. 1970. O sistema social Krahô.  (Tese de Doutorado em Antropologia). Universidade de São Paulo, São Paulo (SP). 530pp.

MELATTI, J.C. 1972. Índios do Brasil. 2 ed. rev. Brasília (DF): Coordenada. 236p.

OLIVEIRA, A.P.; BANDEIRA, L.T.C. & SOUSA, M.C.J.M. 1990. Conhecendo o índio. Ed. UCG, Goiânia (GO). 112p.

RODRIGUES, P.M. 1993. O povo do Meio: tempo, cosmo e gênero entre os Javaé da Ilha do Bananal. Brasília (DF), Universidade de Brasília. (Dissertação de Mestrado em Antropologia, Universidade de Brasília).

RODRIGUES, P.M. 2004. Notas sobre os Karajá e Javaé. In: Fany Ricardo (org.).Terras indígenas & unidades de conservação da natureza: o desafio das sobreposições. Instituto Socioambiental, São Paulo (SP). 480-481p.

RODRIGUES, Patrícia de Mendonça. 2008. A caminhada de Tanyxiwè: Uma teoria Javaé da História. Chicago, Illinois (EUA), Universidade de Chicago. (Doutorado em Antropologia). 953p.

ROSS, E.B. 1978. Food taboos, diet, and hunting strategy: The adaptation to animals in Amazon cultural ecology. Current Antropology, 19 (1): 1-36.

SALERA JÚNIOR, G. 2005. Avaliação da biologia reprodutiva, predação natural e importância social em quelônios com ocorrência na bacia do Araguaia. Palmas (TO), Universidade Federal do Tocantins. (Dissertação de Mestrado em Ciências do Ambiente, Universidade Federal do Tocantins). 191p.

SALERA JUNIOR, G. Quando a índia moça vira mulher. Jornal Chico, edição n. 18, p. 05, de 16/07/2006. Gurupi, Estado do Tocantins. Disponível em: http://www.recantodasletras.com.br/ensaios/279966

SALERA JÚNIOR, G. MALVASIO, A. & GIRALDIN, O. 2006. Relações cordiais. Ciência Hoje, 39 (226): 61-63. Disponível em: http://www.recantodasletras.com.br/artigos/275873

SCHULTZ, H. 1953. A pesca tradicional do pirarucu entre os índios Karajá. Revista do Museu Paulista. São Paulo. 7: 249-255.

SMITH, N.J.H. 1979. A pesca no rio Amazonas. Manaus (AM), Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia - INPA. 154p.

TORAL, A.A. 1992. Cosmologia e sociedade Karajá. (Dissertação de Mestrado em Antropologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro). Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro (RJ). 287p.

TORAL, A.A. 2002. Diagnóstico socioambiental - Avaliação para implantação de ações de apoio junto às comunidades Javaé e Karajá da Ilha do Bananal (TO). Palmas (TO): Instituto Ecológica.

TORAL, A.A. 2004. Terras indígenas e o Parque Nacional do Araguaia. In: Fany Ricardo (org.). Terras indígenas & unidades de conservação da natureza: O desafio das sobreposições.  Instituto Socioambiental, São Paulo (SP). 482-485p.


5. AGRADECIMENTOS

O apoio às etapas de campo foi dado pela FUNAI e UFT. Agradecemos a Euclides Dias e Maria Djane da FUNAI, e a Odair Giraldin da UFT. Somos gratos aos caciques Terambi Javaé, Juraci Javaé, Carlos Alberto Karajá e Wanderley Karajá. Agradecemos também ao apoio recebido pelo CIMI-TO, através dos missionários Domingos Rodrigues Maciel e Clarice Duarte da Silva.


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Gurupi - TO, Março de 2009.

Giovanni Salera Júnior é Mestre em Ciências do Ambiente e Especialista em Direito Ambiental.
E-mail: salerajunior@yahoo.com.br  

William Giovani Franklim é Geógrafo e indigenista.
E-mail: indiovani@yahoo.com.br

Adriana Malvasio é Doutora em Zoologia.
E-mail: malvasio@uft.edu.br

Odair Giraldin é Doutor em Antropologia.
E-mail: giraldin@uft.edu.br
Giovanni Salera Júnior, William Giovani Franklim, Adriana Malvasio e Odair Giraldin
Enviado por Giovanni Salera Júnior em 03/03/2009
Reeditado em 27/11/2011
Código do texto: T1467317
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