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O Renascimento e Reforma Religiosa

Contextualização

Durante o período medieval a Igreja exercia um forte controle sobre a sociedade. Podemos dizer que essa poderosa instituição religiosa era quem controlava a arte, os livros e a ciência, e nada disso poderia fugir aos ensinamentos católicos. Dizia-se que a Terra era o centro do Universo e que a estava parada, que todos os homens e mulheres do mundo eram descendentes de Adão e Eva etc. O Renascimento surge no final do período medieval, período de quase 1000 anos de puro obscurantismo e ignorância religiosa que levava as pessoas a serem punidas se duvidassem das verdades místicas da Igreja. O Renascimento foi um movimento revolucionário para a sua época, pode ser definido como um movimento intelectual, artístico, literário, filosófico e científico, que marcou a transição da cultura medieval para a cultura moderna, rompendo, com o monopólio eclesiástico.
O movimento renascentista expressava a primeira manifestação de uma cultura laica, racional e científica. Esse movimento estendeu-se do final do século XV ao final do século XVI, difundindo-se a partir da Itália para outros países da Europa. A Itália foi o berço do Renascimento, e esse movimento foi mais que artístico, intelectual, literário e filosófico, foi a busca de novas respostas e uma nova compreensão do homem e do Universo. Ademar Marques (2000) fala da importância do Renascimento:

“A transição do feudalismo para o capitalismo não deve ser analisada sob a perspectiva das transformações econômicas e políticas. É importante considerar que a crise do século XIV manifestou-se também nos planos intelectuais e culturais. Assim, os movimentos renascentistas e reformistas representam importantes respostas a uma tentativa de compreender o homem e, em última instância, o próprio universo à época da crise do feudalismo europeu.
O Renascimento traduzia as novas concepções que tinham como referência, essencialmente, o humanismo, enquanto base intelectual que procurava definir e afirmar o novo papel do homem no universo”.
(MARQUES, Adhemar ET ali. “História Moderna Através de Textos”. SP: Contexto, 2000. p.92)

O Renascimento refletiu uma nova visão de mundo, relacionado ao crescimento do comércio e da burguesia e, ao fortalecimento do sentimento nacional. Representou uma mudança de enfoque na forma do homem ver a si mesmo e ao mundo. Significou a retomada das ideias clássicas greco-romanas que sofreram uma re-elaboração.
Os renascentistas entraram em choque com as ideias medievais, deixando evidente de que não foi um fenômeno isolado, mas partiu de um conjunto de transformações ocorridas numa fase de transição da Idade Média para a Idade Moderna. Com o Renascimento, o pensamento medieval, dominado pela religião cede lugar a uma cultura voltada para os valores do indivíduo. Os artistas, inspirando-se no legado clássico grego, buscavam as dimensões ideais da figura humana e a representação fiel da realidade.

“A Idade Média, que tinha durado mil anos, da queda do Império Romano até o século 15, estava ficando de lado, porque novas forças políticas, idéias filosóficas e pesquisas científicas surgiam...” (Bernardo Kestring)

O movimento renascentista significou a retomada dos valores individuais que eram muito presentes na cultura grega e na cultura romana. Esses valores foram desprezados pela religião católica durante toda a Idade Média. Houve uma retomada dos valores artísticos, como a pintura, a escultura, a arquitetura, a literatura, o teatro e a música.

“Os renascentistas mais radicais acreditavam que o progresso cultural no período medieval foi IMPEDIDO pelo DOMÍNIO da Igreja Católica sobre a produção LITERÁRIA e CIENTÍFICA. Costumavam inclusive chamar a Idade Média de idade das trevas. Portanto, era preciso lutar pelo renascer do desenvolvimento cultural.” (PEREIRA e MORAES- História: Frase Didática. V. Único. Ensino Médio, 2001)

A arte renascentista valorizou o homem e o colocou como a medida de todas as coisas. Os elementos artísticos da Antiguidade clássica voltaram a servir de referência cultural e artística. O humanismo colocou o homem como o centro do universo e no lugar do TEOCENTRISMO surgiu o ANTROPOCENTRISMO, no lugar do GEOCENTRISMO surge o HLIOCENTRISMO, no grego geo = terra e hélios = Sol.

As características do movimento renascentista foram:
• CLASSICISMO: voltou-se para a Antiguidade Clássica, mas, não para tentar revive-la, não é uma simples “volta” ao passado; na realidade é muito mais que uma reinterpretação dos valores grego-latinos.
• INDIVIDUALISMO: contrapondo-se a humilhação cristã e ao anonimato, valores tipicamente  medievais, os renascentistas, ao afirmarem a grandeza do homem e de suas infinitas possibilidades, destacaram a capacidade individual de criação do ser humano.
• HEDONISMO: propunha a busca incessante pelo sublime e pela beleza existentes na natureza e no próprio homem. Os prazeres sensoriais deveriam, nessa concepção, produzir uma plena realização espiritual e a auto-satisfação. A busca do prazer passou a ser constante, o que tornou-se uma oposição ao ascetismo medieval.
• NATURALISMO: buscava a integração do homem à natureza e a redescoberta da sua íntima ligação com o Universo; procurou-se superar o fantástico, o místico e o sobrenatural, uma tendência que também se contrapunha às concepções medievais.
• ANTROPOCENTRISMO: o homem é o centro do Universo, concebendo-o como a medida de todas as coisas, como aquele que independente da vontade Deus, faz a sua própria história. Essa forma de pensar foi uma maneira de opor-se ao TEOCENTRISMO MEDIEVAL, segundo o qual o ser humano e suas ações nada mais eram que uma extensão da vontade do Criador. De acordo com esse simbolismo medieval, a vida do homem nada mais era do que uma caminhada em direção a Deus, cabendo à Igreja o papel de guia. A visão ANTROPOCÊNTRICA não concebia o homem assim, mas como alguém capaz de se guiar e guiar o seu próprio destino.
• ESPÍRITO CRÍTICO: marcados profundamente pelo pensamento leigo  e secular, cientistas e humanistas não aceitaram as explicações místicas e alicerçadas na autoridade dos textos sagrados que predominavam na Idade Média. Valorizavam-se, sobretudo,a experimentação como meio para se atingir o conhecimento científico da realidade. Isso abriu espaço para um grande desenvolvimento da Matemática, da Arquitetura, da Astronomia, da Física e da Medicina.
• RACIONALIMO: o crescimento científico dessa época foi marcado pelo MÉODO EXPERIMENTAL, e isso levou à rejeição das INTERPRETAÇÕES DOGMÁTICAS e a VALORIZAÇÃO DA RAZÃO. Só se podia aceitar como verdade em ciência aquilo que o homem compreendia por meio de seu intelecto. Abandonaram-se, pois, as superstições e lendas típicas do período medieval.

O racionalismo trouxe a subordinação do mundo real às leis físicas, o que contribuiu de maneira decisiva para o avanço da ciência moderna e para a superação do simbolismo medieval.
Também contribuiu para o rompimento do monopólio que os letrados , sobretudo eclesiásticos, mantinham sobre a cultura escrita – a invenção da imprensa em meados do século XV por Gutemberg (1394-1468). A partir de então, verificou-se, progressivamente, uma maior divulgação do saber nos vários campos do conhecimento.
 
Os Períodos do Renascimento

O Renascimento Cultural se divide em três períodos:
• Trecento que vai de 1300 a 1399;
• Quatrocento que vai de 1400 a 1499;
• Cinquecento, 1500 a 1550.

TRECENTO, 1300-1399

Literatura

Os principais destaques da literatura desse período foram:
• Dante Alighieri - antes do século XIII, em sua obra “A Divina Comédia”, esse autor já citava vários pensadores da Antiguidade como Platão e Aristóteles, por exemplo. Por isso Dante Alighieri é considerado o precursor do Renascimento.

• Giovanni Boccaccio - autor da obra Decameron (1348-1358). Nessa obra, constituída por uma coleção de contos, supostamente relatados por um grupo de dez jovens fugitivos da peste Boccaccio faz referência a praga que se espalhou pela Europa causando sofrimento, dor e angústia naquela época.

“Afirmo, portanto, que tínhamos atingido já o ano bem farto da Encarnação do Filho de Deus de 1348, quando, na mui excelsa cidade de Florença, cuja beleza supera a de qualquer outra da Itália, sobreveio a mortífera pestilência. Por iniciativa dos corpos superiores ou em razão de nossas iniqüidades, a peste atirada sobre os homens por justa cólera divina e para nossa exemplificação, tivera início nas regiões orientais, há alguns anos. Tal praga ceifeira, naquelas plagas, uma enorme quantidade de pessoas vivas. Incansável, fora de um lugar para outro; e estendera-se, de forma miserável, para o Ocidente.

Os homens se evitavam [...], parentes se distanciavam, irmão era esquecido por irmão, muitas vezes o marido pela mulher; ah, e o que é pior e difícil de acreditar, pais e mães houve que abandonaram os filhos à sua sorte, sem cuidar deles e visitá-los, como se fossem estranhos”. (BOCCACCIO, Giovani – Decameron. São Paulo: Circulo do Livro, 1991, p. 9-10)

Na obra Decameron , Boccaccio critica os valores medievais e a Igreja. Ao fazer suas críticas, Boccaccio utiliza o erotismo em sua obra, uma coleção de cem histórias, em que ele percorre toda a gama de sentimentos humanos, desde a mais irrisória bufonaria até a mais profunda emoção. Boccaccio foi o maior responsável, pela definitiva fixação enobrecimento e enriquecimento da língua italiana.
O tom cômico, que na obra assume um caráter crítico se enquadra numa tradição mental típica da narrativa medieval e continuará até Rabelais – tão bem estudado por Bakhtin, com a sua teoria da “carnavalização”. A linguagem simples e natural ainda não virá carregada da retórica típica da Contra-Reforma e o grande tema da obra é a celebração da liberdade, do poeta e do pintor, de dizer e representar o que realmente desejam.
A Igreja, que tinha tido uma forte influência na sociedade medieval, após a praga começou a ver seu papel modificado. A ideia do poder infinito de Deus e de sua capacidade de operar milagres começa a enfraquecer. Na medida em que as preces e pedidos não eram atendidos e muitos piedosos eram atingidos, começou um questionamento sobre esses valores, o que passou a ser considerado, uma contradição na crença religiosa, dando início a um período futuro de tumultos políticos e de questionamentos filosóficos. Os efeitos da praga ainda influenciam a sociedade nos dias de hoje.
Desde que a Medicina, na época, não conseguiu dar conta de controlar a peste bubônica, homens da ciência medievais começaram a desenvolver novas idéias sobre a medicina. Iniciaram-se as pesquisas de caráter científico, por conta da completa falência das velhas práticas e da crença e fé em Deus para curas. A limpeza começou a fazer parte do cotidiano de todas as classes de pessoas e não apenas da nobreza.

Pintura

O principal destaque foi:
• Gioto. Ele tratava de temas religiosos em suas pinturas, e ao mesmo tempo, procurava fazer com que os santos parecessem pessoas comuns.

QUATROCENTO, 1400-1499

Literatura
O principal destaque na literatura desse período foi:
• Lourenço de Médici –, foi um mecenas, ou seja, grande financiador de obras; era banqueiro e político.

Pintura
Podemos citar aqui dois grandes destaques da pintura:
• Boticelli e Leonardo da Vinci – esses artistas tentavam combinar valores cristãos com valores antigos.

Leonardo da Vinci não foi apenas pintor, foi também cientista, inventor, escultor, matemático e músico. Sua obra mais famosa foi “Mona Lisa”.

CINQUECENTO, 1500-550

Literatura
• Maquiavel: o escritor mais conhecido desse período foi Nicolau Maquiavel, que escreveu o livro “O Príncipe”. Nessa obra o autor escreve sobre a teoria política do Estado.

O Príncipe é um tratado político, em 25 capítulos, com uma conclusão que propõe a libertação da Itália das intervenções dos franceses e de espanhóis, considerados “bárbaros”. De toda sua obra, a questão mais polêmica, sem dúvida, é quando Maquiavel define os MEIOS para a OBTENÇÃO do PODER, que rompem com os tratados políticos tradicionais.

“Assegurar-se contra os inimigos, ganhar amigos, vencer por força ou por fraude, fazer-se amar e a temer pelo povo, ser seguido e respeitado pelos soldados, destruir os que podem ou devem causar dano, inovar com propostas novas as instituições antigas, ser severo e agradável, magnânimo e liberal, destruir a milícia infiel e criar uma nova, manter as amizades de reis e príncipes, de modo que lhe devam beneficiar com cortesia ou combater com respeito, não encontrará exemplos mais atuais do que as ações do duque”.

Sem preconceitos, por considerar que os governantes têm responsabilidade sobre os que governa, ele propõe, dentro de um princípio de realidade, o que são – e não o que deveriam ser. Que meios são esses, que Maquiavel acredita ser os ideais para que uma pessoa possa obter o poder?

1. A Força: é o primeiro dos meios para a aquisição e conquista do poder. A força é simbolizada pela imagem do LEÃO, indispensável tanto para o estabelecimento de um novo poder, quanto para a DEFESA DO estado já existente. No entanto, a FORÇA deve sempre ser empregada em conjunto com...

2. A astúcia: é simbolizada pela RAPOSA, e inclui a mentira, a simulação, a dissimulação, a lisonja, a demagogia e outros.

“Tendo o príncipe necessidade de saber usar bem a natureza do animal, deve escolher a raposa e o leão, pois o leão não sabe se defender das armadilhas e a raposa não sabe se defender da força bruta dos lobos. Portanto, é preciso ser raposa, para conhecer as armadilhas e leão, para aterrorizar os lobos”.

É preciso compreender que a preocupação de Maquiavel não está voltada para a HUMANIDADE, mas para o Estado-nação. Quanto aos submissos, aos súditos, a ideia de Maquiavel é que, a sua participação seja feita de devotamento, obediência, fé nacional, ardor no combate e sacrifício, enfim, para esse pensador renascentista italiano existem trés maneiras para um indivíduo se realizar: é através do serviço político, social ou militar. Num dos trechos da obra Maquiavel diz:

“Todos sabem quão louvável é um príncipe ser fiel à sua palavra e proceder com integridade e não com astúcia; contudo, a experiência mostra que só nos nossos tempos fizeram grandes coisas aqueles príncipes que tiveram em pouca conta as promessas feitas e que, com astúcia, souberam transformar as cabeças dos homens; e por fim superaram os que se fundaram na sua lealdade.
Deve saber-se que há dois modos de vencer, um com as LEISA, outro com a FORÇA: o primeiro é próprio dos homens, o segundo dos animais; mas porque muitas vezes o primeiro não basta, convém recorrer ao segundo. Portanto, é necessário a um príncipe que seja ao mesmo tempo homem e animal. (...) Achando-se, portanto, um príncipe na necessidade de saber proceder como animal, deve escolher a raposa e o leão, porque, o leão não sabe se defender dos laços, nem a raposa dos lobos; É preciso, portanto, ser raposa para conhecer os laços e leão para espantar os lobos. (...) Mas é necessário saber bem colorir esta natureza e ser grande simulador e dissimulador: os homens são tão simples e obedecem tanto às necessidades presentes que quem engana achará quem se deixe enganar”. (Capítulo VIII – De que modo os príncipes devem cumprir sua palavra)

Pintura
Os principais pintores desse período foram:
• Rafael e Michelângelo.  Michelângelo também era escultor, e realizou dezenas de obras, muitas, eram encomendadas pela Igreja como decoração como a que se encontra na Capela Sistina em Roma.

O Renascimento em outros países europeus

O Renascimento também atingiu outros países e outros artistas também se destacaram nesse período. Vejam os destaques:

• Erasmo de Rotterdan (1467-1536), Holanda. Desidério Erasmo de Roterdan foi um pregador do evangelismo filosófico. Nasceu na cidade de Rotterdam, na Holanda. Em 1488 ingressou na ordem dos agostinianos e virou padre, depois aceitou o cargo de secretário do bispo de Combai, na França. Em Paris estuda teologia. Escreve Colóquios e Antibárbaros, que é considerada uma obra escolástica, crítica da exaltação dos valores da Antiguidade clássica. Viaja pela primeira vez para a Inglaterra em 1499, onde toma contato com o movimento humanista e conhece aquele que seria seu grande amigo, Thomas More. Traduz o Novo Testamento. Mantém vasta correspondência. Denuncia a vida na igreja como distante da fé. Fala que os cristãos devem seguir os ensinamentos simples de Cristo, sendo que a estrutura da igreja e da vida monástica haviam se tornado distantes do amor de Deus, de Sua benevolência e da prática evangélica que Erasmo defende na Filosofia Christi.

A crítica maior de Erasmo é para a Igreja. Ele era cristão, mas foi contra a hierarquia dessa instituição (Igreja), que declara guerras, faz cerimônias e rituais em demasia, e discutem eternamente o mistério divino, sendo que o mandamento de Cristo é apenas a prática da caridade. Defende um retorno à simplicidade do início da Igreja. Lutero estava juntando adeptos em suas pregações e convidou Erasmo, mas este permaneceu na Igreja católica, apontando defeitos. Mais tarde polemizou contra Lutero a favor do livre-arbítrio, que o protestante não acreditava. Erasmo é considerado o principal pensador do humanismo. Critica os teólogos, pois esses condenam, por poucos motivos, muitas pessoas como hereges. Os bispos vivem alegremente, entregam-se à diversão material e esquecem que o seu nome significa zelo e solicitude pela redenção da alma, mas não esquecem as honrarias e o dinheiro. Os monges, para Erasmo, não fazem nada, mas não dispensam o vinho e a mulheres. O papa não tem a salvação que Cristo fala, pois se tivessem abria mão de seu patrimônio e dos impostos. Erasmo critica o imposto que a igreja cobra para não condenar as almas após a morte. E os papas aprovam a guerra, que é cruel e desumana. Ele acreditava na bondade do homem. Era um liberal e contrário a violência.
Para Erasmo, milagres e superstições como o inferno, duendes e fantasmas são coisas de ignorantes. Ele tem opiniões também sobre política. No livro A instituição do Príncipe cristão fala da teoria da soberania, o poder do princípe é legitimado pela dedicação ao bem comum e pela aceitação dos cidadãos. É a favor da eleição do chefe, contrário ao monarquismo hereditário.

O Elogio da Loucura

O ensaio é repleto de alusões clássicas, escritas no estilo típico dos humanistas do Renascimento. Nenhum membro da hierarquia da Igreja escapa ao tratamento satírico da pena de Erasmo, embora seu alvo especial fossem os monges. Veja:

"Os monges consideram não saber ler um sinal de santidade. Zurram os salmos nas igrejas como asnos. Não entendem uma só palavra do que dizem, mas imaginam ser o som agradável aos ouvidos do santos. Os frades mendicantes fingem assemelhar-se aos Apóstolos, mas não passam de vagabundos imundos, ignorantes e ousados."

Erasmo satiriza o esplendor e o mundanismo dos papas, cardeais e bispos, contratando-os com a simplicidade do Pescador da Galiléia. Considera ridículas e absurdas as loucuras das superstições e da adoração dos santos. "Mas, que direi", pergunta Erasmo, "das pessoas que, com tanta felicidade, se enganam com os perdões forjados de seus pecados? Esses tolos se convencem de que podem comprar todas as bênçãos e prazeres desta vida, com também o céu, depois da morte, e, por puro amor ao lucro imundo, os padres encorajam-nos em seus erros". Ele criticava as escolas de seu tempo, em geral administradas por clérigos que baseavam sua pedagogia em manuais imutáveis, repetições de conceitos e princípios de disciplina com traços de sadismo. O filósofo via nos livros um imenso tesouro cultural, que deveria constituir a base do ensino. "Para Erasmo, a linguagem era o começo de toda boa educação, já que é sinal da razão humana", afirma Cézar de Toledo. Não se trata apenas de alfabetização e leitura, mas de interpretar os textos criticamente, prática que os humanistas e reformadores religiosos introduziram na história da pedagogia. Erasmo acreditava que um bom aprendizado das artes liberais até os 18 anos prepararia o jovem para entender qualquer coisa com facilidade. Como todo humanista, o pensador holandês defendia a possibilidade de chegar à perfeição por via do conhecimento. "Erasmo prenuncia novos rumos para a pedagogia ao deter um olhar mais acurado na infância", diz Toledo. Para o filósofo, ao ensinar era necessário levar em conta a pouca idade da criança – e por isso cercá-la de cuidados específicos – e também a índole de cada uma. O programa pedagógico do pensador era generoso, mas de modo algum democrático. Segundo ele, apenas a instrução religiosa deveria ser para todos, enquanto os estudos das artes liberais estariam restritos aos filhos da elite, que futuramente teriam cargos decisórios.

• William Shakespeare, Inglaterra - Autor de peças de teatro como Hamlet, Macbet e Romeu e Julieta. Suas obras retratam as virtudes e as deformações do humanismo renascentista. Personifica o intenso amor pelas coisas humanas e terrenas. Uma de suas frases célebres “Ser ou não ser, eis a questão” (To be or not to be, that's the question) foi extraída da peça “Hamlet”, e durante a dramatização, o Príncipe Hamlet olha uma caveira e diz: “ser ou não ser, eis a questão”, indagando a si próprio quanto à condição que deveria seguir, a escolha a tomar. Filosoficamente isso nos ensina alguma coisa. Se uma pessoa se encontra numa situação, mas está insatisfeito com ela, ou pode assumir a postura mental de dizer “eu sou assim mesmo” e continuar a “ser” aquilo ou pode assumir outra postura de dizer “eu estou assim”, por se tratar de uma condição que pode ser mudada. A condição de “ser” seria o que você não pode mudar aquilo que é, e fim de papo.

A frase “Ser ou não ser” nos remete a uma reflexão. Quando se diz “ser ou não ser”, isso implica em ter quer tomar uma posição, mudar de postura ou permanecer imóvel frente às barreiras que se tem pela frente, porém, para alcançar determinado objetivo é preciso decidir pela mudança. Uma pessoa pode decidir continuar gorda, e mesmo sabendo disso assumir a postura de ser magra, ingerindo os alimentos na medida certa, fazer exercícios e em alguns casos, procurar um especialista em nutrição auxiliar na forma correta da alimentação. Veja que entre o “SER” e o “NÃO-SER” existem condições que devemos impor à nós mesmos, exige auto crítica e auto reflexão, e se decidirmos pelo “não-ser”, isso exigirá mudança nos nossos hábitos, e essa mudança começa com uma nova atitude mental. Mudar os hábitos não é fácil, mas é uma mudança pra melhorar, porém, será necessário que se faça também algumas mudanças internas e profundas. Buscar um equilíbrio mental e psicológico da alma, arrancar de nós as frustrações, as ansiedades e as coisas negativa, principalmente a frase derrotista de que não há o que fazer, sou assim mesmo. Não! Você não é e nem nunca foi assim, você é melhor, pode ser e fazer melhor que isso que você representa ser e faz.

“Os covardes morrem muitas vezes antes de sua verdadeira morte, os valentes provam a morte só uma vez”.
"Não existe nada bom nem mau; é o pensamento humano o que o faz aparecer assim." (Shakespeare)

• Miguel de Cervantes, Espanha - autor do romance Dom Quixote. Cervantes conta as aventuras de um cavaleiro espanhol que ficou desequilibrado por causa da leitura constante de romances de cavalaria. Dom Quixote representa uma crítica ao mundo medieval e a impossibilidade de se resolverem problemas de um mundo moderno a partir de concepções medievais.

• Luís Vaz de Camões, Portugal - autor de poesias famosas, como Os Lusíadas. “Os Lusíadas” é o tema de um poema ÉPICO no qual Camões retrata e enaltece os feitos dos navegantes.

• Rabelais, França - suas principais obras: Gargantua e Pantagruel - Satirizou as práticas da Igreja; ridicularizou a filosofia cristã escolástica e zombou das superstições.

• Montaigne, França – escreveu “Ensaios”. Os homens devem ser encorajados a desprezar a morte e a viver nobre e humanamente esta vida. Parecia-lhe que a religião e a moral eram produtos dos costumes e não revelações divinas.

O RENASCIMENTO CIENTIFICO

Principais representantes:

• Nicolau Copérnico, (1473 – 1543) viveu na Polônia. Foi matemático, físico, médico e principalmente astrônomo e formado em direito canônico. Politicamente era moderado, porém a igreja foi impiedosa em suas perseguições aos que desenvolveram a sua teoria como Giordanio Bruno e Galileu Galilei. A teoria heliocêntrica de Copérnico era de tal forma revolucionária que ele escreveu na sua obra De revolutionibus orbium coelestium (do latim: "Das revoluções das esferas celestes"), publicada em 1543, ano de sua morte:

"quando dediquei algum tempo à idéia, o meu receio de ser desprezado pela sua novidade e o aparente contra-senso quase me fez largar a obra feita".

Até Nicolau Copérnico surgir com sua nova teoria, o que estava em evidência era a teoria GEOCÊNTRICA, de Pitolomeu, astrônomo século II antes de Cristo. Essa teoria, graças ao apoio da Igreja Católica, prevaleceu por séculos 14 séculos como verdadeira e absoluta até ser desmentida por Copérnico e Galileu Galilei. Depois de longos estudos baseados em calículos matemáticos, chegou-se a conclusão de que os PLANETAS giram em torno do Sol. Heliocentrismo é o nome dessa nova teoria.
O professor Bernardo Kestring, de Filosofia, explica que na época do Renascimento, a afirmativa de Copérnico, de que o Sol, e não a Terra, é o centro do universo, mudou a forma de encarar o mundo. Veja o que diz Kleper:

“A Igreja sustentava que a Terra era o centro do universo e os homens seriam pessoas que a governariam segundo desígnios divinos. Com o sistema heliocêntrico, vem junto uma nova interpretação do homem. Se Deus não determina, se nós não somos o centro, então nós temos um papel que vai além da obediência cega, sem questionamentos, aos dogmas da Igreja”.

• Galileu Galilei (1564 - 1642), Itália, Astrônomo, físico, e matemático. Fundou a ciência experimental na Itália. Partidário do heliocentrismo. Fez diversas descobertas no campo da astronomia, tais como: os satélites de Júpiter, o anel de Saturno, graças à construção de uma luneta astronômica. Ficou famoso pela lei da queda dos corpos. Percebeu que a força que mantém a lua nas vizinhanças da terra faz com que os satélites de Júpiter girem ao redor deste planeta é na essência, a mesma força que faz com que a terra atraia os corpos. Foi julgado pelo Tribunal do Santo Ofício em 1611 e forçado pela inquisição a dizer que a Terra não se move no espaço, ao contrário, é imóvel e o tem o Sol girando em seu redor. Só escapou da fogueira porque se retratou diante do tribunal. Galileu morreu em 1642, cego e abandonado. Só foi “absolvido” em 1999, após 337 anos de sua morte. O papa João Paulo II ordenou o reexame do caso Galileu e, em nome da Igreja Católica pediu perdão em público, admitindo que o físico italiano sofrera em mãos das instituições eclesiásticas e acrescentando que a pesquisa científica jamais pode contrariar a fé, pois ambas as realidades, cientifica e religiosa originam-se do mesmo Deus.

• Kleper, Alemanha, corrigiu e aperfeiçoou o sistema de Copérnico, provando que os planetas que os planetas se movem numa órbita elíptica, e não em torno do Sol.

• Vésale, Países Baixos, é considerado o pai da Anatomia. São célebres seus estudos sobre o corpo humano.

• Servet, Espanha – Em Medicina lhe é atribuída à descoberta da circulação sanguínea intrapulmonar.

O HUMANISMO E O ANTROPOCENTRISMO
“O homem é a medida de todas as coisas” (Protágoras)

“O humanista é o intelectual da Renascença, racionalista, antropocêntrico, opondo-se ao divino e extraterreno, valorizando o humano, natural e material.”
A fonte original de todo humanismo foi a literatura clássica. A época era de redescoberta e reinterpretação da produção cultural da antigüidade greco-romana. O interesse por esse período da história foi acompanhado por uma série de mudanças profundas na vida européia: a revitalização das cidades, a formação de redes de comércio entre centros distantes, a consolidação de uma classe mercantil muito abastada, a criação de bancos e a centralização do poder político em torno de cidades ou de reinos. Tudo isso ocasionou a abertura de brechas na autoridade da Igreja, antes onipresente. Por razões evidentes, esse período histórico de grandes transições ficou conhecido como Renascimento, dando origem a uma produção cultural das mais ricas e fecundas de todos os tempos.
O antropocentrismo – o predomínio do humano sobre o transcendente – era o eixo dessa nova filosofia, que seria posteriormente conhecida sob o nome de humanismo. A palavra deriva da expressão latina studia humanitatis, que se referia ao aprendizado, nas universidades, de poética, retórica, história, ética e filosofia, entre outras disciplinas. Elas eram conhecidas como artes liberais, porque se acreditava que dariam ao ser humano instrumentos para exercer sua liberdade pessoal.
Na visão medieval o homem ocupava hierarquicamente uma posição insignificante e inalterável, imerso em um mundo repleto de tentações e pecado. O Renascimento mudará esta visão, com a exaltação da dignidade do homem, a proclamação de que sua liberdade pode e deve ser exercida, tanto em relação á natureza quanto á sociedade. Esta liberdade, no sentido do homem ser capaz de criar o seu próprio projeto de vida é tema central do humanismo, expresso na Oração Sobre a dignidade do Homem de Picco della Mirandola (1463-1494):

“Eu não lhe dei , Adão, nem um lugar predeterminado, nem um aspecto particular, nem quaisquer prerrogativas, a fim de que você possa tomá-los e possuí-los através de sua própria decisão e de sua própria escolha”.

A REFORMA PROTESTANTE

Martinho Lutero (Alemanha) – considerado precursor da Reforma Protestante Lutero, monge católico revoltou-se contra a venda de indulgências e tornou-se público seus pensamentos ao publicar, em 1517, as 95 teses, uma relação de duras críticas à Igreja Católica, dando início à chamada Reforma Protestante. Em 15 de julho de 1520, a Igreja Romana expediu a bula de excomunhão Exsurge Domine, se Lutero não se retratasse, seria considerado um herege e expulso da igreja.
O imperador Carlos V do Santo Império Romano mandou queimar livros de Lutero, também em praça pública. Entre 17 e 19 de abril de 1521, Lutero compareceu diante da Dieta de Worms. Não se retratou deixando claro a sua consciência e modo de pensar relacionado à Bíblia. Aos 25 de maio de 1521, a Dieta formalizou a excomunhão. No mesmo ano Lutero queimou a bula de excomunhão em praça pública. O Papa Leão X excomungou Lutero que passou a ser protegido pelos príncipes do norte da Alemanha.
A Reforma esconde interesses políticos: os príncipes se interessavam por Lutero, pois se levassem à frente a criação de uma nova religião, estariam LIVRES do poder do Papa. E foi isso que aconteceu. Lutero organizou a nova religião, chamada de PROTESTANTISMO, e a nobreza alemã tomou conta das TERRAS da Igreja Católica.

Características da nova religião fundada por Lutero:
- Padres substituídos por pastores, e estes poderiam casar-se.
- O culto não seria mais em latim, mas na língua de cada país.
- A Igreja não salva. “O justo será salvo pela fé” e pela leitura da Bíblia, afirmava Lutero. Por isso traduziu as Escrituras Sagradas para o alemão.
- Dos sete sacramentos católicos, apenas os sacramentos do batismo e da eucaristia seriam mantidos.

Houve inquisição protestante? Não da mesma maneira que a católica, mas houve sim, da maneira e à moda protestante. Veja, Lutero foi protegido pelos nobres, porém não apoiou as revoltas camponesas que se diziam protestantes, e defendeu os príncipes quando eles massacraram os rebeldes.

A crueldade foi especialmente severa na Alemanha protestante. As posições de Lutero contra os anabatistas causaram a morte de 30.000 camponeses.

João Calvino (Francês) – o calvinismo ganhou força na Suiça, para onde teria ido João Calvino. Mas antes de Calvino chegar à Suíça, outros líderes como Zwinglio, tentaram realizar uma reforma religiosa, mas fracassaram. Zwinglio levantou a primeira bandeira da Reforma quando declarou que os dízimos pagos pelos fiéis não eram exigência divina, mas uma decisão voluntária. Esse fato abalou as bases financeiras do sistema romano. Calvino teve sucesso porque recebeu apoio dos burgueses da região.
O que Calvino defendia em suas teses? Veja:
• Quanto a aquisição de riqueza: a nova religião de João Calvino diferia do Catolicismo quanto a ideia de riqueza. Enquanto a Igreja Católica condenava o enriquecimento, João Calvino dizia que o acúmulo de dinheiro gerado pelo trabalho era um sinal de salvação.
• Quanto a ideia de salvação: João Calvino acreditava na PREDESTINAÇÃO: nosso destino estaria ESTABELECIDO antes do nosso nascimento, inclusive quanto à salvação ou condenação eternas.
• Calvino defendia que os ricos são salvos e os pobres, condenados.

Essa religião era muito interessante para os burgueses, pois eles poderiam continuar enriquecendo sem achar que estavam pecando com isso aumentavam sua exploração sem nenhum peso de consciência. Calvino chegou a se tornar governador de Genebra e fez a sua própria inquisição, punindo com a morte aqueles que não concordavam com ele.
Calvino, pai dos presbiterianos mandou queimar o médico descobridor da circulação sanguínea, julgado e condenado a fogueira em Genebra, por decisão de um tribunal eclesiástico sob direção do próprio Calvino. A sentença foi cumprida por Champel, em 27 de outubro de 1553. Puseram-lhe na cabeça uma coroa de juncos impregnada de enxofre e foi queimado vivo em fogo lento com requintes de sadismo e crueldade.

Textos de 1900 trazem relatos a respeito de Calvino.  Veja o que declarou um historiador inglês:

“Ainda hoje na cidade de Noyon (...), os arquivos e monumentos de fatos históricos aqui passados; ainda hoje naqueles arquivos se lê que João Calvino, sendo convencido dos crimes de sodomia, graças à indulgência do Bispo e do magistrado foi somente marcado nas costas com ferro quente, e retirou-se depois da cidade; pessoas muito honradas da família do mesmo, que vivem ainda, não puderam até o presente obter que a memória daquele fato, tão infame a toda a família, fosse tirada do arquivo da cidade. (Stapleton, Prompttuarium catholicum pars, 32, p. 133. Citado por Roberta, Host de l’Englise; t.23, p.430)

Protestantes alemães também deixaram esse relato:

“Por causa de vários crimes e vários atos de sodomia, nas costas de João Calvino foi impresso um sinal com ferro quente pelo magistrado que vivia naquele tempo. (Schussemberg, Host. de I’Englise, t. 23, p. 430; Bergier, Dietion de Theologie).

Além de matar vários protestantes que professavam a mesma fé, Calvino também prendeu em sua própria casa Miguel Servet. Diz-se que do fundo do cárcere ouvia-se a declaração de Servet:

“Aqui estou, há meses, sem meias, sem camisa, sem roupa para mudar, devorado por insetos asquerosos desde os pés até a cabeça. Peço me concedam um pouco de conforto... peço me mandem um advogado”.  Calvino mandou lançar Servet em uma fogueira, onde foi queimado lentamente. Observando a cena, ao entardecer, Calvino dizia: “olha como ele grita à moda dos espanhóis”.

Henrique VIII (Inglaterra) – fundador da Igreja Anglicana, Henrique VIII foi no reformador que iniciou o movimento da Reforma Protestante na Inglaterra. A Igreja Católica já vinha perdendo o seu poder entre os ingleses por conta dos problemas políticos gerados na sucessão do trono inglês. Veja:

• Henrique VIII era casado com Catarina de Aragão. Essa mulher pertencia a uma das famílias mais poderosas da Europa, os Albsburgos.
• O parentesco de Catarina preocupava Henrique VIII, pois caso ele não tivesse um filho homem, os Albsburgos poderiam tomar o poder e tomar conta da Inglaterra. Nessa época só os homens poderiam herdar o torno.
• Por causa de alguns problemas de saúde Catarina não podia mais se engravidar. Se quisesse um filho homem, o rei teria que casar-se de novo.
• A Igreja Católica proibia um 2º casamento. Henrique VIII tentou um acordo com o Papa Clemente VII, mas foi recusado, o Papa também era amigo da família Albsburgo.
• Henrique VIII tinha uma amante chamada Maria Bolena, depois substituída pela irmã Ana Bolena no triângulo amoroso do rei Henrique VIII. A pretensão de Henrique VIII era de casar-se com Ana Bolena, por isso rompeu-se com a Igreja Católica separando-se de Catarina da Aragão trocada pela amante do rei. A Igreja tentou punir Henrique VIII e excomungou-o, mas o rei inglês foi mais longe. Em 1534, através do “Ato de Supremacia”, as propriedades da Igreja foram passadas para a nobreza e o rei se tornou o novo chefe da Igreja na Inglaterra.

A nova Igreja, chamada de anglicana, não era muito diferente do catolicismo. As únicas diferenças eram:
• A Igreja anglicana não seguia a autoridade do Papa.
• Reconhecia os processos de separação e divórcio, permitindo um novo casamento.

A Contrarreforma

A Igreja Católica começou a se preocupar com as novas religiões que estavam surgindo na Europa, pois estava perdendo fiéis e propriedades. A Contrarreforma foi a reação da Igreja Católica contra o crescimento e a expansão do protestantismo que se espalhava pela Europa e poderia atingir outros países fora desse continente. Quais foram às ações tomadas pela Igreja nessa reação? Entre 1545 e 1553 foi realizado o Concílio de Trento, reunião que contou com a participação dos mais importantes líderes do catolicismo. As decisões tomadas foram:
• Criação dos seminários para a formação de padres.
• Criou-se o índex – lista de livros proibidos aos católicos.
• Decidiu que o papa era infalível (não erra).
• Reativou os Tribunais de Inquisição: quem discordasse das ideias da Igreja poderia ser punido com a morte.
• Criou-se a Companhia de Jesus: espaço religioso que permitia aos jesuítas atuarem na catequese.

Como muitos católicos estavam mudando de religião na Europa, os JESUITAS estavam mudando para a América, onde havia milhares de índios que a Igreja esperava transformar em cristãos.

A INQUISIÇÃO: uma máquina de matar pessoas.

Inquisição é o ato de inquirir, indagar, investigar, interrogar judicialmente uma pessoa suspeita ou que esteja sendo acusada de alguma prática ilícita. No contexto daquilo que estamos estudando, inquirir significa questionar judicialmente aqueles que, de uma forma ou de outra, se opõem aos preceitos da Igreja Católica. Pode ser empregado o mesmo sentido para as religiões protestantes, porque o termo heresia também se aplica a qualquer que fugir a uma “verdade” religiosa, logo, poder condenado por heresia tanto um membro católico como um membro protestante, desde que discorde de alguma coisa, de alguma meta ou visão proposta por determinada religião ou líder religioso. A inquisição é um Tribunal Eclesiástico, também conhecido como “”Tribunal do Santo Ofício” criado com o objetivo de combater as heresias cometidas pelos cristãos confessos, muçulmanos e outros povos que adotassem outras maneiras de pensar e cultuar diferente do padrão estabelecido pela Bíblia e pela Igreja Católica.

“Não permitirás que viva uma feiticeira”.
(Êx. 22:18)

Mesmo antes de ser oficializada por um papa, a inquisição já se fazia presente desde o início da Idade Média. A implantação oficial desse mecanismo de punição e de tortura foi ganhando força dentro da Igreja. Observando como a inquisição foi se fortalecendo até tornar-se mecanismo de punição oficial ao longo do período medieval iremos perceber como tudo começou.
A inquisição teve seu início em Verona, com o Papa Lúcio III, ano de 1184. Inspirada nos escritos de Santo Agostinho, essa prática fortaleceu-se ainda mais com a administração do Papa Inocêncio III, entre 1198 a 1216 e a partir do Concilio de Latrão ocorrido em 1215.  Mas foi o Papa Gregório IX que oficializou e multiplicou pela Europa os Tribunais de Inquisição. Quando uma pessoa era acusada de ter cometido algum tipo de heresia, o Papa nomeava um INQUISITOR doutor em Teologia, Direito Canónico e Civil para investigar e proceder ao julgamento e à condenação. O inquisidor deveria que ter no mínimo 40 anos. O suspeito de heresia deveria retratar-se diante do Tribunal do “Santo Ofício”, negar as ideias consideradas heréticas, ou seja, “qualquer linha de pensamento que fosse diferente do da Igreja”, e reafirmar a crença nos preceitos católicos.
Se a pessoa continuasse firme em suas ideias contrárias a Igreja, sem se retratar, estaria sujeita a santas punições: multas, prisão, “confisco de bens” pelas autoridades eclesiásticas, torturas e finalmente a condenação à morte na “fogueira santa” que era acesa em um lugar público. A pessoa era presa entre correntes e grilhões pés e mãos e colocara em um poste de madeira sobre um estrado também de madeira envolto com gravetos, palha seca. Era uma grande fogueira com uma multidão gritando: “Queime a bruxa”..., “queime o herege”. Nessa época, até o riso era proibido e colocado como expressão do mau. Por isso é comum nos contos e histórias infantis medievais as bruxas aparecerem sempre às gargalhadas. Pode-se notar essa articulação entre bem e seriedade ao observamos nessas histórias os modos como as “bruxas” e as “feiticeiras” são representadas e o modo também como as mocinhas são apresentadas nessas historinhas. A mocinha que é boa sofre sempre e é tristonha, a bruxa ou feiticeira é má e sorridente. Esse era o raciocínio medieval, no final da história o SOFRIMENTO é compensado e o riso castigado. As histórias assustadoras de pessoas torturadas na roda, condenadas à morte como bruxas e que tinham seus membros esmagados com uma barra de ferro abençoada pelo Papa eram aterrorizantes, principalmente para as crianças que tinham que conviver e crescer vendo e ouvindo essas histórias. Isso nos leva a concluir que era muito difícil sobreviver com ideias diferentes daquilo que era proposto pelo padrão religioso da pépoca.
 
O historiador Enry Thomas em suas afirmações diz chegou a conclusão de que seria possível escrever um livro somente sobre as torturas empregadas pela inquisição, de tão vasto que é esse assunto. Veja um dos fragmentos dos seus textos:

“O prisioneiro, com as mãos amarradas para trás, era levantado por uma corda que passava por uma roldana, e guiando até o alto do patíbulo ou do teto da câmara de tortura, em seguida, deixava-se cair o indivíduo e travava-se o aparelho ao chegar o seu corpo a poucas polegadas do solo. Repetia-se isso várias vezes. Os cruéis carrascos, as vezes amarravam pesos nos pés das vítimas, a fim de aumentar o choque da queda.”

No mesmo relato o historiador continua dizendo: “Depois havia a tortura pelo fogo. Colocavam-se os pés da vítima sobre o carvão em brasa e espalhava-se por cima uma camada de graxa, a fim de que este combustível estalasse ao contacto com o fogo”.

Veja esse fragmento de texto:

“A Inquisição Católica promoveu o extermínio de aproximadamente 20 milhões de pessoas ao longo de quase 1000 anos. Embora a inquisição tenha alcançado seu apogeu no século XIII, suas origens remontam o século IV. A Inquisição teve princípio na França, no século XIII, mas não pode manter-se nesse país.
Na Itália e, principalmente, na Espanha, onde tomou o nome de Santo Ofício, criou fortes raízes e tornou-se instituição poderosíssima. Não avia parte nenhuma no mundo onde os protestantes ou hereges estivessem livres para o exercício de sua fé. Partindo da Europa, muitos procuraram refúgio nas Américas do Sul e Central, o “Novo Mundo”. Mas para cá também vieram os inquisidores. A inquisição em Cuba iniciou-se em 1516 sob o comando de dom Juan de Quevedo, bispo de Cuba. E nem o Brasil escapou. A Inquisição Católica se instalou no Brasil em três ocasiões: A partir de 1551, na Bahia e em Pernambuco.
Não há dúvidas que esse processo foi decisivo na atual distribuição de cristãos não católicos retardando sua conseqüente multiplicação. E se um protestante não quisesse se converter ao catolicismo, era sumariamente eliminado”. (BITHENCURT – Histórias das Inquisições. Editora Companhia das Letras)

Livros proibidos: o Index

Na época da Inquisição havia o Index Librorum Prohibitorum era uma lista de livros proibidos cuja circulação era controlada pela Inquisição. Os livros autorizados eram impressos com um “imprimatur” (que seja publicado) oficial. Imprimatur era uma declaração oficial da Igreja Católica que diz que um trabalho literário ou similar não vai contra as ideias da Igreja. Em latim “imprimatur” significa “deixem-no ser impresso”. O que acontecia se as pessoas tentassem aproximar-se dos livros proibidos? O filme “O nome da rosa” ilustra bem e responde essa pergunta.

No filme vemos o monge franciscano Willim de Baskerville (ator Sean Connery) e seu ajudante Adso (ator Chiristian Slater), representando o intelectual renascentista, que com uma postura humanista e racional – ferramentas da heresia, segundo a Igreja –, consegue desvendar a verdade por trás dos crimes cometidos no mosteiro.
William e Adso chegam a um mosteiro beneditino, estranhas mortes vinham acontecendo dentro do mosteiro localizado na Italia durante a Baixa Idade Média. As vítimas aparecem sempre com a pota dos dedos e a língua roxos. O mosteiro guarda uma imensa biblioteca, onde poucos monges têm acesso às publicações sacras e profanas.
A chegada do monge franciscano Willian (Sean Conney), incumbido de investigar os casos, irá mostrar o verdadeiro motivo dos crimes, resultando na instalação do tribunal da santa inquisição. O frade franciscano irmão William de Baskerville além de detetive, é também o filósofo que investiga, examina, interroga, duvida, questiona e, por fim, com seu método empírico e analítico, desvenda o mistério das mortes, ainda que para isso tenha pagado um alto preço. Santo Agostinho estabeleceu que os cristãos podiam tomar da filosofia grega pagã tudo aquilo que fosse importante e útil para o desenvolvimento da fé cristã, desde que seja compatível com a fé (teologia e doutrina cristã) e a filosofia e a ciência dos antigos. (Tratado de Doutrina Cristã, livro II, B. Cap. 41) Por conta disso é que a biblioteca tem que ser secreta, porque nela inclui obras que não estão devidamente interpretadas no contexto do cristianismo medieval. O acesso à biblioteca é restrito, porque ali havia um SABER que é ainda estritamente “pagão” (especialmente os textos de Aristóteles), e que pode ameaçar a doutrina cristã. Como diz o velho bibliotecário Jorge de Burgos ao final, acerca do texto de Aristóteles – a comédia pode fazer com que as pessoas percam o temor de Deus e, portanto, faz desmoronar todo esse mundo.

As obras proibidas continham muito do pensamento aristotélico, trazido pelos árabes (muçulmanos), que traduziram muitas de suas obras para o latim. Essas obras continham saberes filosóficos e científicos da Antiguidade que despertariam imediatamente interesses pelas inovações científicas decorrentes. O pensamento agora será marcado pelo empirismo e materialismo contrariando assim a ideia do espiritual e das explicações pela fé e com base no sobrenatural. A reação da Igreja foi fortemente ameaçadora, tudo por que...

Conhecimento é poder

A reação da Igreja foi fortemente ameaçadora. Experimentar, testar, analisar, observar e comparar fazendo uso dos cinco sentidos para se chegar a uma conclusão é uma das coisas capaz de fazer despertar no indivíduo, uma nova consciência. É por isso que o arrogante inquisidor Bernardo Gui encarnado por F. Murray Abraham, cuja fama já era conhecida por ter presidido diversos julgamentos e condenações a mando da Igreja, fora enviado pelo Papa para intimidar e atrapalhar as investigações de William, que estava a procura da verdade, principalmente sobre as mortes misteriosas que ocorriam dentro de um mosteiro, assim, Wilian, adentrou à biblioteca proibida e persistiu na sua busca, mesmo sabendo que o inquisidor Bernardo Gui estava prestes a ascender a fogueira da inquisição para exterminá-lo.

Ao sair da biblioteca, William e Adso descobrem uma verdade extraordinária: os livros foram envenenados e quem estava matando as pessoas não era o demônio e nem o castigo divino, as mortes misteriosas eram promovidas pelos membros do clero para evitar que as pessoas descobrissem outras verdades que colocariam em xeque a fé religiosa e os dogmas da Igreja.

William e Adso escapam do fogo, e saem a salvo da biblioteca em chamas, com vários livros salvos do fogo nas mãos, entre eles, uma das obras mais preocupantes para a Igreja e o clero: “A Divina Comédia”, obra de Dante Alighieri.

Dante Aliguieri é considerado o precursor do Renascimento. A obra do poeta  (1307) é dividida em três partes:
• O Inferno.
• O Purgatório.
• O Paraíso.

A primeira parte é composta de 34 contos, e as duas outras partes de 33, totalizando 100 contos ao todo, escritos em tercetos de versos decassílabos com rima encadeada. Como se trata de um gênero literário que utiliza a sátira, a obra foi proibida pela Igreja. O riso era tido como algo demoníaco e quem sorrisse em público poderia sofrer a pena de morte na fogueira. Jorge de Burgos define bem o modo de pensar da Igreja quando fala do perigo do uso da comédia nas obras literárias: a comédia pode fazer com que as pessoas percam o temor de Deus e, portanto, faz desmoronar todo esse mundo.

Como sugestão:  leitura do livro “O nome da rosa” de Umberto Eco e assistir o filme baseado na obra.


Referências

- PEREIRA, Pedro Sérgio e MORAES, Robson Alexandre – História Ensino Médio. Ed. Frase Didática, 1ª Edição 2001, SP. Vol. Único.
____________ História. Ensino Fundamental.   Ed. Frase Didática, 1ª Edição 2001, SP. Vol. Único.

- FERREIRA, João Paulo Mesquita Hidalgo e FERNANDES, Luiz Estevam de Oliveira – História Integrada. 1ª Edição 2005. Vol. Único: ensino Médio. Editora FTD: Campinas - SP.

- MARQUES, Ademar – História Ensino Médio. Vol. Único. Ed. Positivo. 1ª edção, 2006. Curitiba - PR.

- http://www.adventistas.com/marco2003/miguel_servetus.htm
- http://www.capitulosantos.com.br/h_inquisicao_toturas.html
- VEIT, Valentim- História Universal. Livraria Martins Editoras, SP, 1961.
- LEA, Henry Charles - A History  of the inquisition of the Middle Ages, 3 vols. Nova Yorque, 1887.

- REDE DE LETRAS: http://www.estacio.br/rededeletras/numero10/parlaquetefabene/oprincipe.asp
Olinuap Onabra Muhammed
Enviado por Olinuap Onabra Muhammed em 07/03/2009
Reeditado em 10/08/2011
Código do texto: T1474654

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