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A mulher no coronelismo: cama, mesa e banho


  No coronelismo temos o homem como sendo o centro do meio que estava imposto essa política. Sendo a figura do coronel sempre uma pessoa com um bom poder aquisitivo,  rústico e outros aspectos de brutalidade.

“ É comum, nos meios de comunicação apresentar o coronel como um fazendeiro rústico, autoritário, brutal, ignorante, dispondo da vida dos demais habitantes do lugarejo em que reside. ( JANNOTI, 1981p. 8)”.

  Sendo assim dentro dessa  política inconcebível a presença de uma mulher como centro da mesma, pois como diz Janotti podemos ver que além do poder aquisitivo do coronel teria que por essência essa figura ser acima de tudo autoritário, brutal e ignorante, então como uma mulher durante o final do séc. XIX e início do XX, poderia assumir o papel de autoritária,  ignorante e brutal? Se a mesma era considera: frágil, indefesa, ineficiente  e vários outros adjetivos que mostram a mulher  como sendo  aquele ser que precisa do homem para lhe proteger, defender dos perigos do mundo. Mas, como um ser desse tipo poderia dominar uma massa populacional de uma cidade ou uma região se a mesma não era capaz de defender a se próprio? Então simplesmente o lugar da mulher teria de ser a casa , ou seja cama, mesa e banho.
  O coronel era uma figura que além de sua casa ele era respeitado em todo o seu curral eleitoral, pois não era aquele tipo de político que só aparecia na época das campanhas eleitorais e aquele homem sempre presente e ajudando a seus subordinados. Como por exemplo em casamentos das filhas ou filhos das pessoa dependentes dele. Intervindo nos casamentos de outras pessoas que eram manipuladas pelo seu poder.

  “Em um certo casamento, recebeu o sacerdote, o velho padre Rocha da Diocese de Nazaré, recebeu uma denuncia de que o noivo era casado anteriormente no religioso. Explicou ao coronel Chico Heráclio a impossibilidade de se realizar a cerimonia, o que pelo zumzum que corria já escandalira a todos...Chico ,cautelosamente indagou-lhe qual a pena em caso de constatar depois o falso testemunho. E sabendo que era pecado mortal, preso de grande seriedade, disse: Faça o casamento padre juro duzentas vezes. O casamento foi feito.(Vilaça,2003.p.162) “.

  Vemos que mesmo o noivo não podendo se casar novamente no religioso o poder, que o coronel exercia sobre o religioso e todas as outras entidades da sociedade fez com que o casamento fosse realizado, mas será que esse problema existisse por parte da noiva o coronel daria sua palavra para o casamento se realizar? Ou a mulher nesse período da historia do Brasil seria excomungada? Sendo a mulher nesse período vista como a responsável pelo pecado carnal e diversos outros tipos de erros ela não teria o direito de se defender e seria excomungada dentro dessa sociedade patriarcalista. Outros exemplos da mulher como sendo aquela que servia como escrava do lar para o coronel pode ser visto quando o mesmo se casava varias vezes e suas mulheres morriam ,muitas de parto ou de doenças que proviam de seu esposo que contrai em cabarés.

  “Chico Heráclio viúvo por muito tempo da Segunda esposa, Virgínia ,a primeira, Maria Miguel, morreram de febre tifo, quarenta dias após as núpcias, e separado da terceira mulher, Consuelo, sua casa sem a presença feminina, era muito livre ,habitada agora até por jovens[mulheres] as vezes três ou quatro rendidas aos seus encantos de velho rico.(VILAÇA,2003.p.124-5)”.

  Podemos ver nessa demonstração da vida do coronel Chico Heráclio de Pernambuco a tese de um homem viril em que as mulheres tinham de ceder ao que ele queria e sendo as mesmas consideradas as  responsáveis pelo prazer dele. A escrava do lar,  ou seja cama ,mesa e banho de seu esposo e senhor por as mesmas serem escravas dele. Mas os coronéis eram quem mandavam em toda a sua região ou “curral eleitoral’’ como não seria diferente em sua casa sendo sua mulher e filhos simplesmente obrigados a lhe obedecer. Por isso o coronel para que seu poder continuasse a reinar na sua região sempre queria que as suas esposas lhe dessem filhos varões. Mas ,quando isso não acontecia ele queriam que as filhas seguissem sua mãe em casa e aprendessem tudo que elas sabiam para quando seu pai quisesse arranjar seu casamento elas não decepcionassem seu marido.
  Tendo que ser uma boa cozinheira, cuidando muito bem da casa, dos filhos que vinham a Ter e satisfazendo na cama o seu marido. Sendo a mulher  dentro desta política falocêntrica ao contrario do que expõe Swain não existindo a identidade fixa da categoria mulher. Mas, como nesse período elas não poderiam deixar a sua imagem de mulher, pois desde pequena as mesmas eram treinadas como robores para servirem aos seus maridos quando vinhessem a casar. Portanto nesse período só existia uma única e exclusiva maneira sexual entre duas pessoas de sexos opostos e que a mulher seria aquele ser que estava submissa ao homem tendo  que acatar as suas decisões e servi-lo.

  “Temos assim mulheres, homens-identidades definidas num esquema binário, heterossexual, reprodutivo, natural-rodeados de uma multidão de práticas que traduzem identidades incompletas, incorretas, incômodas.(SWAIN,2002.p.326-7)”.

  Na qual a mulher seguia um caminho natural com identidades definidas num esquema binário heterossexual para simplesmente reproduzir e servir ao seu marido dentro do espaço da casa que seria então a cama, mesa,  banho e nada mais além de ser isto para o homem.
  No entanto dentro do período do final do século XIX e início do XX, o sexo, o gênero e o corpo não passava do biológico, pois o indivíduo ao nascer já trazia toda a sua vida sexual definida. A mulher não assumia posição alguma a frente de seu marido, tendo simplesmente ao nascer seu “destino sexual” traçado não podendo de maneira alguma fugir ao esquema do binário, pois primeiramente ela estava dominada pelo poder de seu pai essa figura vista como sendo aquele que determinava tudo em uma casa.
  Sendo antes de pai marido em que sua esposa uma simples mulher e vigia das filhas por causa do medo que seu esposo imprimia sobre todos fazendo com que as mães fossem severas com suas filhas, pois se algo acontecesse a elas a figura do homem viril e pai poderia agir sobre a simples mulher que tinha sido construída esposa e mãe como ele agia em seus currais eleitorais com aqueles que o traia nas eleições de forma brutal.
  Depois de casar, a mulher se libertava do poder de seu pai mas caia nas entranhas do poder do marido passando a mesma a obedecer a um ser construído de esposo. Pois a mesma tinha nascido e sido educada a servir a esse novo ser. Tendo assim uma identidade definida desde o momento em que a parteira dizia que era do sexo feminino.
  No coronelismo, podemos ver o sexo com dois exclusivos objetivos o da satisfação do homem, por o mesmo nesta sociedade coronelística ser o centro e simplesmente para a reprodução. No entanto para a mulher não existia um espaço maior que a sua própria casa para que ela pudesse demonstrar os seus serviços ou dons. Sendo a mesma dentro deste espaço obrigada e submetida ao poder do seu marido. Ou seja, se a mulher tinha um espaço demarcado esse mesmo elas não se destacavam como sendo aquela figura que se impunha sobre os demais, pois se o sexo nesse período só tinha duas exclusividades para satisfazer ao homem e reproduzir, a mulher como sendo aquele ser responsável em uma relação heterossexual pela geração do ser humano, ela não teria outra função além de cuidar da casa, dos filhos e servir ao marido. “(...)Para Beauvoir, as mulheres são o negativo dos homens, a falta em confronto com a qual a identidade masculina se diferencia.(BUTLER,2003.p.27)”.
  Considerando o que Beauvoir expõe a mulher seria aquele ser no qual o homem se apodera da mesma por esse ser  complementar ao seu corpo no sentido do prazer, pois tentando se remeter ao coronelismo a mulher não passaria daquele objeto diferente da identidade masculina que estava ali para lhe satisfazer pois a mesma era diferente dele principalmente por ser construído no momento do nascimento ambos os seres masculino e feminino teria seus destinos traçados a partir do sexo. O homem seria forte, ignorante, detentor do poder principalmente por essa sociedade ser puramente falocêntrica. Pois o sexo era quem determinava se o indivíduo iria deter o poder ou ser submisso ao seu oposto. A mulher seria aquele ser frágil, ingênua pois não saberia mandar, e teria que ser orientada no seu caminho durante toda a vida.

  “Como se explicaria, a sexualidade se não seja simplesmente aquilo que permitia a reprodução da espécie, da família, dos indivíduos? Não seja alguma coisa que dê prazer e gozo? Como é possível que ela tenha sido considerada como o lugar do privilegiado em que nossas verdade profunda e lida, é dita? Pois o essencial é que, a partir do cristianismo, o Ocidente não parou de dizer para saber quem conheça seu sexo.(FOUCAULT,2004,p.229)”.

  Como podemos ver em Foucault na nossa sociedade contemporânea o sexo só tem duas finalidades: a da reprodução da família e a do gozo do prazer, mas imagine como era pensado a sexualidade dentro de uma sociedade no final do século XIX e início do XX, em que a política coronelística tinha o homem como sendo o poderoso, o onipotente, o machão. No entanto se existia prazer nesta sociedade era o homem quem deveria sentir, pois simplesmente a mulher estaria ali para servir a esta homem viril e forte  na hora e no momento em que ele tivesse vontade.
  Então como será que Foucault pensaria a sexualidade em uma sociedade coronelística, onde o homem era tido como o único que se “beneficiava” em uma relação heterossexual? Era uma sociedade patriarcal na qual a mulher teria seu único espaço o da casa no qual ela teria alguma serventia para cozinhar, lavar, cuidar de seus filhos e no momento em que o homem tivesse vontade de se satisfazer sexualmente ela estivesse pronta.
  Porém, o coronelismo por ser uma sociedade patriarcal o homem dominava sua casa até as fronteiras de seus curais eleitorais, então como as mulheres poderiam se rebelarem e reivindicarem por seus espaços dentro desta sociedade que ela era construída para servir ao homem? Se “todas as mulheres” desde o momento em que nasciam  e diziam que era do sexo feminino seus pais lhe educavam e construíam as mesmas como sendo aquele ser que teria um destino traçado que seria um casamento. E aquela que chegasse ao casamento e depois se separasse era considerada a culpada por aquela relação Ter chegado ao fim e ser tachada por toda a sociedade como mulher da vida.
  As mulheres do fim do século XIX e início do XX eram senhoras respeitadas pela alta sociedade por serem casadas ou consideradas mulheres da vida por serem separadas ou realmente viverem em cabarés. No entanto, as mulheres do coronelismo teriam duas escolhas, servirem de cama, mesa e banho ou apenas servir na cama?

     
   





















Bibliografia:
BUTLER, Judith. Problemas do gênero: feminismo e subversão da identidade.
Rio de Janeiro: civilização brasileira, 2003.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: edições Graal, 1979.
JANNOTI, Maria de Lourdes M. O Coronelismo: Uma política de compromissos. 2º
edição, São Paulo.Brasiliense.1981.
SWAIN, Tânia N. Identidade nômade e heterotopias de mim. In: RAGO, Margareth;
ORLANDI, Luiz B(orgs) Imagens de Foucault e Deleuze: ressonâncias:
nietzschianas. Rio de Janeiro: DP&A,2002.
VILAÇA, Marcos Vinícius. Coronel, Coronéis: apogeu e declínio do Coronelismo no
Nordeste/ Marcos Vinícius Vilaça, Roberto Cavalcanti de Albuquerque. Rio de Janeiro:
Bertrand Brasil, 2003.

Salvio Garcia Santos
Enviado por Salvio Garcia Santos em 30/04/2006
Código do texto: T147933
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Salvio Garcia Santos
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