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HUMANOS PINGÜINS PAPUA


Há um tempo eu assistia a uma reportagem na rede Globo que mostrava , dentre outras atividades do  pingüim papua, a sua destreza em roubar pedrinhas dos ninhos alheios a fim de  enriquecer o seu , tendo em vista conseguir cativar as fêmeas de sua espécie.
No mundo do pingüim papua  — que tem o nome científico  Pygoscelis papua, e que recebeu o nome de gentoo pelos habitantes das ilhas Falklands (Malvinas) —  , um macho com recursos é um macho com sucesso, ou seja , quanto mais pedras um pingüim tiver, maior a proteção que ele vai poder dar ao ninho dos filhotinhos, e, assim deixar sua fêmea feliz e satisfeita: é uma questão de sobrevivência.
Nos últimos tempos, tenho notado entre nós um aumento de papuas humanos: é só você se distrair e pequenas coisas lhe são furtadas.
É importante frisar que furtar é diferente de roubar. Roubo exige premeditação e o clepto — como a Haydée, personagem vivida por Cristiane Torloni, na novela da Globo, América — , age em função da ocasião.
Fatos desagradáveis têm ocorrido, com certa freqüência, nas escolas, nos clubes, nas festas: é só você se descuidar e desaparece uma  revista, uma  caneta, um estojo, dois ou três reais trocados, uma miniatura de pelúcia, um pente, um espelhinho.
O sentido de propriedade tem sido esquecido , despudoradamente deixado de lado. Para algumas pessoas, o que é achado não tem dono e nunca teve. Não existe mais a preocupação de se procurar o proprietário de algo perdido. Algumas pessoas, da forma mais natural possível, acham algo e , pasmem , dão-no de presente a outra sem o menor titubeio.
Penso que o primeiro motivo que leva a esse tipo de conduta é a falta de religiosidade, da onipresença do Olho Que Tudo Vê, de algo que impeça um ser humano de fazer algo errado  mesmo que ninguém esteja vendo. Falta a empatia que permitiria aos papuas humanos se colocarem no lugar do outro, o furtado, e, com base em suas próprias suposições ou impressões, pudessem compreender o que sentirá o próximo ao descobrir-se furtado ou sem a posse do objeto perdido.
Penso ser preciso que os pais fiquem atentos quando perceberem que seus filhos começam a aparecer com objetos que não são seus porque isso pode, num primeiro momento, ser um sinal de  que elas querem alertá-los, por algum motivo, geralmente falta de carinho e atenção.
Na escola , é também importante que os educadores não vejam esse tipo de comportamento como bobagens de criança e façam as devidas advertências, tendo em vista que todos são culpados por cometerem um delito, seja ele qual for, até que se prove o contrário: ficar com algo que não é seu, não tem outro nome : é furto.
Se não quisermos perder na escola, no clube, nas festas, ou em qualquer tipo de reunião social, a liberdade de deixar pequenas coisas sobre a mesa e nos afastarmos por instantes, é preciso que redobremos a atenção em relação aos nossos filhos, alunos, funcionários,  conversando com eles sobre direitos e deveres, e explicando a diferença entre tomar emprestado e furtar, entre achar,e não encontrar o dono, e nem procurar saber quem perdeu determinado objeto.
Não somos pingüins papuas: mesmo que não saibamos, há sempre um Olho Que Tudo Vê.


ANTÔNIO CARLOS TÓRTORO
      PRESIDENTE DA ARE- ACADEMIA RIBEIRÃOPRETANA DE EDUCAÇÃO




Tórtoro
Enviado por Tórtoro em 07/05/2006
Código do texto: T152005
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Sobre o autor
Tórtoro
Ribeirão Preto - São Paulo - Brasil, 67 anos
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