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QUEIJO SUIÇO E A TRANCA

“A mais alta das torres começa no solo”
Provérbio chinês


No clube de campo, num domingo de sol, depois de tomar uma relaxante sauna e repor o líquido perdido com um copo de chope, meu momento de relaxamento foi bruscamente interrompido por uma discussão na mesa ao lado: no jogo de tranca, houve um problema gravíssimo  no momento do corte.
A discussão desfez a mesa em segundos; exaltados, todos discutiam  aos brados com todos, o pano verde foi retirado às pressas como uma bandeira a ser resguardada: parecia um impasse irremovível. O jogador responsável pelo irregular corte, maço de cartas na mão, olhava atônito e não entendia bem o motivo de tanta revolta: ele, após o corte feito, só havia trocado a posição de uma carta, passando-a da parte superior para o meio do monte.
Descobri depois que ele havia violado uma das regras do jogo: feito o  corte , não se mexe mais nas cartas, a não ser para distribuí-la. É regra, e regra é lei, não se discute , cumpre-se, argumentavam os legalistas, ao passo que alguns achavam tudo uma “frescura” e questionavam o que poderia interferir no resultado final do jogo a simples mudança de uma carta que ninguém sabia qual era seu naipe, e ,   portanto,não havia, por parte do violador , nenhum objetivo concreto em seu ato impensado e até inocente.
Penso que o motivo que levou ao desentendimento acima é simples. Vivemos num país em que políticos criam caixa dois, três , quatro, roubam , corrompem e são corrompidos, e, se descobertos, são absolvidos pelos seus pares Congressistas; uma jovem assassina os pais e fica em liberdade na praia; um jornalista mata friamente a sua amante e não é preso, ou seja, num país em que quem tem dinheiro para pagar um bom advogado consegue fazer a lei não sair do papel, eu pergunto: por que não se pode transgredir uma simples regra num jogo de tranca ?
O que alegam é que ninguém tem culpa se um bom advogado consegue achar brechas na lei e deixa escapar por elas seus abonados clientes.
Mas eu me pergunto: se advogados competentes conseguem achar essas brechas, o que fazem nossos juristas ?  Não temos juristas competentes  que possam assessorar nossos políticos no sentido de criarem leis que não sejam porosas, cheia de espaços vazios, lacunas, como queijos do tipo suíço?  Seriam os políticos, coniventes com a existência dessas brechas na lei ? Qual seria o motivo que impediria nossos notáveis de se insurgirem contra o que, na verdade , permite  injustiças nos julgamentos, tendo em vista o resultado depender da capacidade ou não de advogados saberem utilizar-se das brechas da lei ?
Enquanto tal chaga jurídica  não tem solução, vamos ensinando aos  nossos jovens que a justiça é relativa, que o errado pode vir a ser o certo, dependendo de quem defenderá  uma ou outra tese; que matar alguém pode ou não ser correto, mesmo que as evidências sejam gritantes contra o assassino; que desviar  dinheiro público é diferente de furtar.
Vivemos um tempo em que ética e moral são  relativas, capengas, e nesse ambiente permissivo, quem vai se importar em seguir as pequenas regras que estabelecem as relações entre as pessoas nas suas atividades sociais ?
É assim que nossos jovens estão aprendendo a pensar, baseados nos anti-exemplos de algumas de nossas autoridades maiores, e adultos não tão influentes.
 

ANTÔNIO CARLOS TÓRTORO
PRESIDENTE DA ARE - ACADEMIA RIBEIRÃOPRETANA DE EDUCAÇÃO

Tórtoro
Enviado por Tórtoro em 09/05/2006
Código do texto: T153329
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Sobre o autor
Tórtoro
Ribeirão Preto - São Paulo - Brasil, 67 anos
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