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Uma Mulher que Perdeu (Cedo) o Medo de Voar

- E bem alto!

Depois passou a ensinar a outras como.

Erica Jong, escritora e professora nova-iorquina. Acho-a uma mulher muito interessante. Humm... Não teria um adjetivo melhor? Não. Seria precipitado. Só agora estou começando a conhecê-la.

Erica ficou famosa após ter publicado, em 1973 e em primeira pessoa, o romance “Fear of Flying” (Medo de Voar), já traduzido para diversas línguas, considerado bestseller (mais de 18 milhões de exemplares vendidos). Este livro causou impacto por tratar, de maneira franca, dos desejos sexuais de uma mulher que, no final, não é punida por viver sua vida do jeito que achava que devia ser. Para a época, deve ter sido mesmo uma sensação. Ainda não o li, mas já está na lista.

Erica é bem louquinha, meio desbocada, do tipo que gosta de provocar. Hoje também é uma avó coruja muito legal. Uma mulher muito, muito inteligente. Conheci-a faz bem pouco tempo, uns trinta dias, talvez. Foi quando dei de cara com “Seducing the Damon: Writing for My Life”, destaque em uma prateleira, numa biblioteca bem “pertiiin” aqui de casa. Peguei-o porque gosto de biografias - muito mais de autobiografias! - e o texto da contra-capa seduziu-me, como que dizendo nas entrelinhas: “Mais tarde, quando tiver mais tempo (quem sabe) abra-me com mais cuidado, folheie minhas páginas... Se eu fosse você, moça, me leria.  Garanto que vai a-do-rar.” Juro! Senti-me “like a virgin” sendo cortejada por um típico Casanova, bem ali no meio das estantes.

Adoro quando livros fazem isso comigo: quando você não dá muito por eles e eles vêem e Pimba! Deixam você de boca aberta, lhe jogam na parede e chamam de lagartixa. Prendem de um jeito que você só os larga mesmo para fazer coisas que outros, de.fi.ni.ti.va.men.te (ainda!) não podem ou não querem fazer por você. E o mais legal é que, mesmo sem tempo, entre um aperreio e outro, você encontra TEMPO e MAIS TEMPO para lê-los, até chegar à última página e ficar com um gostinho de quero mais na boca, salivando, e um olhar viajante, perdido no espaço.

Erica é uma das meninas do Barnard College, instituição voltada para a educação de mulheres. Ela é da turma de 1963. E por falar em escolas de mulheres, outro dia - 25 de Março de 2009 na edição do jornal local, para ser mais precisa -, li uma nota que dizia: “Educação Faz Mulheres Medrosas”. Fatos? Por aqui, mulheres recebem - pelo mesmo tipo de trabalho - 1/5 menos que homens. Justificativa (para tal injustiça)? O comportamento de risco. Homens seriam (ou estariam) muito mais propensos a correr altos riscos do que mulheres. Um muxoxo, se me permitem, do tipo “Me engana que eu gosto!”. Bom, mas deixa esse balaio de gatos para outra ocasião.

Para saber por que isso ocorre, diz a nota, o Bonner Institut zur Zukunft der Arbeit - Instituto voltado para o Futuro do Trabalho, em Bonn – pesquisou a respeito. E o que lá descobriram? Educação e pressões sociais têm um papel fundamental no comportamento feminino no que tange a situações de risco e competição. Mulheres tendem a evitar tais situações. Sério? Eu pergunto: ou seriam fortemente incentivadas a fazê-lo? Ao longo da minha trajetória cansei de ouvir coisas do tipo, até mesmo de outras mulheres: “Mas o que vocês estão fazendo aqui? Por que não vão estudar (ou fazer) outra coisa, mais adequada para mulheres?” E isso não foi só no Brasil não.

A notinha ainda informou que dois ingleses, especialistas em Experimentos Comportamentais - pesquisadores da Uni Essex -, observaram que jovens oriundas de escolas de meninas, em média, têm a mesma disposição que jovens “meninos” de competir e correr riscos. Os pesquisadores alertam que suas conclusões, por si só, claro, não justificariam a promoção de escolas homogêneas. Os nomes dos dois pesquisadores não foram informados.

Ô Joyce, venha me livrar do rumo sério ao qual este texto está querendo me levar. Era para ser uma conversa, não um ensaio... Pelo menos, não ainda.

“Ô mãe,
me explica, me ensina, me diz
o que é feminina?
não é no cabelo, no dengo ou no olhar
é ser menina por todo lugar” (1)

Interessante mesmo é o que Erica diz:

“Wie die meisten Barnard-Mädchen war sie absolut unabhängig und führte auch nebem dem College ein eigenes Leben.”

“Viele Studenden waren verheiratet und hatten Kinder. Es war ein College für kluge Außenseiter – was vielleicht der Grund ist, dass es so viele Schriftsteller hervorgebracht hat.”

(Versão em Alemão – Den Dämon Verführen: Schreiben, um zu Leben, Pg 83.)

Tradução livre:

“Como a maioria das garotas do Barnard, ela (a colega de quem fala) era totalmente independente e tinha também uma vida própria, paralela à universidade."

“Muitas estudantes eram casadas e tinham filhos. (Barnard) era uma universidade para mulheres inteligentes, excluídas da sociedade – razão pela qual, talvez, tantas escritoras tenham sido geradas lá.”

Provavelmente volto a falar sobre Erica, bem como sobre outras às quais ela me apresentou. É que essa doidinha não tem me deixado quieta ultimamente. Quero escrever sobre outras coisas, mas ela não deixa. E já me avisou que não vai embora, enquanto eu não colocar no papel tudo o que ela quer que eu diga. Eu perguntei: “Mas por que cargas d’agua não escreve você mesma? Você é escritora, oras... eu sou só um projeto.” Ao que ela me respondeu: “Estou curiosa para saber como VOCÊ me interpreta he he he... Enquanto você não ceder, não vou sossegar!”

Ao que eu repliquei:
Ah, tá...
“Eu sou da América do Sul,
Eu sei vocês não vão saber
Mas agora sou cowboy
Sou do ouro, eu sou vocês
Sou do mundo, sou Minas Gerais” (2)

Cedi.
Pois é, são as vozes interiores perseguindo.

(1) Trecho de Feminina, Joyce.
(2) Trecho de Para Lennon e McCartney (Lô Borges, Fernando Brant e Márcio Borges).

Ambas podem ser encontradas no site www.mpbnet.com.br.

Um abraço fraterno :-)

Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 16/04/2009
Reeditado em 16/04/2009
Código do texto: T1542672
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Helena Frenzel
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