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Curiosidades Lingüi...císticas

A Linguagem Humana é, para mim, uma das criações mais interessantes do Ser Humano, principalmente porque parece embolar todas as idéias -- perdão pelo exagero, mas assim me parece causar mais impacto -- num mesmo saco de gatos. Tá, o Pensamento é maior do que a Linguagem. Sério! Certamente algum grego já deve ter pensado sobre isto antes. Dizem que os gregos, os antigos, já pensaram tudo o que tinha para ser pensado, e que hoje não há mais nada de novo sob o Sol. Assim não já dizia o Eclesiastes?

Sim, mas agora falando sério: parece, como não podia mesmo deixar de ser, que isso que hoje conhecemos por Linguagem Humana, surgiu dos grunhidos trocados entre mãe e cria. Ou seja, a Linguagem Humana -- muito provavelmente -- é mesmo uma invenção feminina. Pelo menos foi isso que entendi lendo Dieter E. Zimmer (1). No caso desta hipótese ser provada e consolidada, até dou razão aos colegas que defendem “mulher faladeira” como pleonasmo.

Bom, sobre confusões semânticas, outro dia li um artigo que me chamou a atenção, e que tratava do significado de duas palavras bem safadinhas: ouvir e escutar. Sem querer desenvolver um ensaio a respeito dos significados de tais termos, basear-me-ei somente nas definições que encontrei no dicionário  mais ao alcance das mãos, o Houaiss -- o novo pai dos burros --, como diriam meus colegas de rua, de jogar xuxo e queimado. Não conhece esses jogos? Depois escrevo sobre eles. É que na nossa época o pai dos burros era o Aurélio... É, já faz tempo, eu sei...

Pois bem, voltemos a escutar o que ouvir quer dizer. Vamos à definição do Houaiss -- Acho esse nome tão bonito... -- Sim, vamos às definições!

Escutar – v. (mod. 19) 1. trans.int. esforçar-se para ouvir 2. trans. OUVIR 3 dar atenção a

Ouvir – v. (mod. 28) 1 trans.int. perceber pelo sentido da audição; ESCUTAR 2 int. ter o sentido da audição 3 trans. obedecer; atender 4 tomar depoimento.

Chave do dicionário:
v. (mod. 19) – verbo, conjugado como SABER
v. (mod. 28) – verbo, conjugação irregular como PEDIR, ADERIR, TOSSIR e PARIR
v.trans.int – verbo transitivo e intransitivo (pode pedir ou não objeto)
v.trans – verbo transitivo (pede objeto)
v.int – verbo intransitivo (não pede objeto)

O que me chamou a atenção nessa definição foi justamente o entrelaçamento, o que me lembra uma certa 'recursividade'. O que é isso? Trata-se de um termo usado em Computação -- um chavão -- indicando pontos em que uma definição ou um programa chama a si mesmo. Quem ilustra muito bem essa idéia de 'recursividade' é M.C. Escher (2). Dê uma olhadinha em seus desenhos. Para um deles (Ascending and Descending) tem até versão pra LEGO (3). Por isso é que eu digo que Linguagem, Matemática, Música e Arte é tudo farinha do mesmo saco.

Num programa de computador bem que eu poderia cair na tentação de definir:

Ouvir = Escutar
e
Escutar = Ouvir(Ouvir()).

E seria tudo lindo, tudo maravilhoso, não fosse o perigo do programa burro -- "Êpa, burro não! Burro é quem me escreveu!" -- Tá bom, não fosse o perigo do PROGRAMA cair num laço infinito na hora da execução. Grosso modo, laço infinito denota um ponto em que um programa não vai pra frente, nem pra trás, fica igual cachorro doido correndo atrás do próprio rabo, num tipo de “chove e não molha, ou
-- numa versão mais chula, se me permitem -- num “não f... nem sai de cima”. Em suma: numa repetição infinita. Acho que usuários do “Hasta la Vista, Baby!” conhecem muito bem essa situação...

Provocações à parte, será que agora deu pra entender o que eu quero dizer?

Uma forma de acabar com ambigüidades como essas (num programa) seria setar -- Ih, mais outro chavão. Acho que agora passei da conta! --, isto é, de.fi.nir a definição que se quer usar. Por exemplo: no meu programa, ESCUTAR vai sempre significar um ouvir ao quadrado e OUVIR significa simplesmente ouvir. Certo?! Ih, melhor parar por aqui... Não disse que esse negocio de Linguagem é igual mexer em casa de marimbondo? -- "Eu te disse, eu não te disse?!" -- Erica Jong bem que avisa: jamais confie num escritor - ou escritora.

Olhe, de Computação entendo bulhufas. De Lingüística, menos ainda; de Português, "diz Te arreda!”; Filosofia? “Tá doido!”. Sou só uma saliente que gosta de ficar brincando com palavras, vice. Por favor, releve!

Ah, mulheres na Computação não são garotas de programa não. Já pensou uma mãe contando, toda orgulhosa: “Minha filha passou um tempão na Universidade e saiu de lá garota de programa!” Eita mundo confuso. É tudo culpa dela, da Linguagem, ou será de quem a usa? Sei lá!



(1) Dieter E. Zimmer, So kommt der Mensch zur Sprache – Über Spracherwerb, Sprachentstehung, Sprache & Denken, Heyne Verlag. ISBN: 978-3-453-60065-2
(2) http://www.mcescher.com/
(3) http://www.andrewlipson.com/escher/ascending.html

Errata:
Ih, errei! Onde se lê "cha.vão", entenda-se "jar.gão".  Achei mais honesto chamar a atenção para o erro na troca dos termos do que simplesmente corrigir, caladinha :-)

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Última revisão: 14/02/2010



Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 21/04/2009
Reeditado em 14/02/2010
Código do texto: T1551063
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Helena Frenzel
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