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Carandiru – Quem é culpado?

No dia 18 de maio de 2003 sentei na poltrona do cinema com uma emoção que ainda não havia experimentado em relação a filme algum. Assistir sobre o que ocorrera naquele trágico dia no Carandiru era algo que eu ansiava há muito tempo. Posso admitir que chorei o filme todo e mesmo quando as pessoas riam, como no casamento do Sem Chance, eu chorava porque enxergava ali, não um casal de homossexuais, mas um casal de seres humanos alimentando sonhos de um amor, de uma vida a dois, alimentando algo além daquelas paredes sujas e úmidas.

Todas as pessoas que estavam ali, pelo menos na teoria, tinham cometido algum tipo de delito, de crime. Eram assassinos, estupradores, ladrões, mas não eram monstros. Todos eram humanos, todos tinham e demonstravam amor a alguém ou a alguma coisa. O Lula amava os pais, o Mangueira, as duas esposas, o Zico, a Franci, o irmão da Franci a amava também, o Sem Chance amava a Di que o amava em reciprocidade, o Ezequiel amava a irmã, até o Peixeira, que era um dos mais durões, beijou um animal num gesto de afeição e depois, o próprio Peixeira enxergou em si o inferno da consciência e buscou o perdão numa regeneração de  princípios emocionante.

A sociedade não pode decretar para esses homens uma punição para atos cometidos por nosso descaso, por nossa alienação política, por nosso comodismo social. A pobreza não justifica o crime, porém, eu confesso que não sei qual seria a minha ação caso eu morasse numa favela, fosse discriminada por minha condição social e/ou por minha cor, não conseguisse vaga em mercado de trabalho “honesto”, não tivesse escola, não tivesse comida, não tivesse acesso às leis de meu país, não tivesse saneamento, não tivesse base nenhuma para construir sonhos. Eu confesso que não sei como eu me sairia se vivesse num meio onde o ofertado a mim viesse de fontes não tão “honestas”.

Eu seria hipócrita se não visse o que aconteceu no Carandiru como um massacre, uma chacina, uma covardia. Se aqueles homens erraram, errou muito mais a polícia, pois essa sim, teve treinamento para agir em procura da paz, da segurança e da ordem social. Os detentos estavam lá a cumprir pena pelos erros cometidos, pelos crimes cometidos. Eles são responsabilidade do país, eles são frutos da sociedade em que vivemos. Um país que não oferece condições nenhuma de vida digna, de garantia de bem-estar aos seus “filhos” gera um mundo paralelo onde os “excluídos” elaboram as suas leis e buscam, ao seu modo, fazer a sua sociedade.

Hipócritas somos nós se não nos conscientizarmos de que temos sim responsabilidade e culpa por tudo o que aconteceu no Carandiru e por tudo o que vem acontecendo em nossa sociedade. Nós que estudamos, que fazemos parte dos privilegiados que têm acesso à Universidade, nós que podemos deitar de barriga cheia, que podemos ao menos sonhar com um futuro, com uma profissão, temos que entender de uma vez por todas que esses desvalidos da sorte são de nossa responsabilidade. E enquanto nós não mudarmos nossa sociedade – seja exigindo do governo, seja repensado nossa forma de agir, sofreremos os choques de realidade de dois poderes: o “correto” e o paralelo.

Como é que um país que tem mais presídios do que universidade quer condenar os condenados? Que condições o país está dando a essas pessoas para que elas se reintegrem á sociedade? Que sociedade o país está oferecendo a essas pessoas?

Amigos, as vítimas do Carandiru são vítimas sim, porque tendo errado deveriam ser “tratadas” pelo governo para se restituírem e, no entanto, o que acontece? Os presídios são verdadeiros infernos que além de não oferecem condições sequer de sobrevivência, também não ocupam o tempo do detento, não tentam resgata-lo de forma alguma, não o educam, não o profissionalizam, enfim, uma pessoa vivendo num inferno de imundície e com o tempo ocioso, terá fortes tendências a sair de lá em condições ainda piores.

Os detentos do Carandiru são sim vítimas. Vítimas de uma sociedade alienada que orgulha-se de dizer “Eu odeio política”, que troca votos por favores, que elege candidatos em troca de vagas em prefeituras. Os detentos do Carandiru foram inocentes, haviam errado, é verdade, mas já estavam pagando pelos seus erros. Eles foram inocentes porque receberam, covardemente, a descarga de raiva de uma sociedade hipócrita que despejou neles toda a culpa de tantos erros, de meio século de erros constantes e consecutivos.

Eu chorei ao assistir Carandiru. Chorei porque enxerguei lá pessoas, e não monstros. Chorei porque vi que aquelas pessoas tinham sentimentos também, que erraram por algum motivo, que precisavam de atenção. Chorei quando os vi cantar o Hino Nacional, com a mão no peito, honrando um país que lhes esquecera. Chorei porque eles conseguiram o perdão de Deus, mas não da sociedade. Chorei porque eles não existiam além daquelas paredes imundas, e nem entre elas.

E nós continuamos fabricando detentos, muitos deles. Prestemos atenção nisso. Não dá para fazer de conta que não temos relação com eles.
 
Parabéns Hector, o seu trabalho é espetacular!
Cinthya Danielle dos Reis Leal
Enviado por Cinthya Danielle dos Reis Leal em 09/05/2005
Reeditado em 09/05/2005
Código do texto: T15805
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Sobre a autora
Cinthya Danielle dos Reis Leal
Petrolina - Pernambuco - Brasil, 40 anos
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Cinthya Danielle dos Reis Leal