Sistema de cotas e diversidade étnico-racial: questões a serem discutidas

Resumo: Este artigo tem como objetivo apresentar uma reflexão sobre aspectos relativos às diversidades culturais, suas influências no meio social, o sistema de cotas para negros em universidade e a importância do trabalho desses temas em sala de aula.

Palavras-chave: Diversidade, cultura, influências, sistema de cotas, Educação.



Sabe-se que a discussão sobre as questões raciais vem se destacando devido à implantação de leis que visam uma reflexão sob o ponto de vista do multiculturalismo e o acesso de negros nas universidades. Atualmente existem diversos documentos e leis que promovem discussões referentes à classe negra e seu papel no desenvolvimento social e cultural de uma sociedade, tentando-se amenizar a questão da discriminação racial no país. Temos os PCN que dedicam e inclui em sua estrutura documental uma análise que tem como objetivo fundamentar teoricamente a Pluralidade cultural e conseqüentemente visa à prática de toda essa teoria apresentada, tendo em vista o melhor desenvolvimento do processo educacional, e mais recentemente a lei nº 10.639, que fala sobre o sistema de cotas nas universidades.

Contudo é necessário mais do que leis para promover uma conscientização. É preciso implantar programas, na prática, de tudo que se diz e se analisa como correto, relativo à questão do negro na sociedade. Não podemos continuar com essa farsa de que somos um povo libertador e desenvolvido, sem preconceitos e sem discriminação, sem nos preocuparmos com uma educação realmente voltada para todas essas questões.

Vivemos há tanto tempo tentando convencer-nos de que somos um povo sem discriminação, preconceito e racismo. Falamos o tempo todo que é uma falta de vergonha o nosso país, sendo o país multiracial que é, rejeitar as pessoas por sua condição social, política, sexual e de raça. Somos o povo que briga todos os dias para tornarmos iguais ou pelo menos com desigualdades menores. Agora para completar o que faltava, estabelecemos cotas para negros terem acesso às universidades. Porquê? Não serão eles, seres humanos iguais aos brancos?

Digo isso não como forma intencional de discriminação, pelo contrário, é que não entendo o porque dessa idéia de menosprezar os negros e pardos dizendo escamoteadamente que eles são seres incompetentes o suficiente para conseguirem lugar ao sol.

Creio que todos devemos ter as mesmas condições de ensino, sem precisarmos ter cotas para ninguém. Acredito na capacidade de todos, sem distinção. Na verdade não será uma lei que estabelece cotas para pessoas de raças diferentes da elite ocidental que irá diminuir a discriminação contra todos.

Todos nós somos discriminados e minorizados, vivemos em busca de uma liberdade, seja ele qual for, há muito tempo.



Deve existir no mundo um sentimento profundo que corresponde a essa palavra LIBERDADE, pois sobre ela se tem escrito poemas e hinos, a ela se tem levantado estátuas e monumentos, por ela se tem até morrido com alegria e felicidade.

Diz-se que o homem nasceu livre, que a liberdade de cada um acaba onde começa a liberdade de outrem; que onde não há liberdade não há pátria; que a morte é preferível à falta de liberdade; que renunciar à liberdade é renunciar a própria condição humana; que a liberdade é o maior bem do mundo; que a liberdade é o oposto à fatalidade e a escravidão; nossas bisavós gritavam: “Liberdade, Igualdade e Fraternidade"; nossos avós cantaram: “Ou ficar a pátria livre/ ou morrer pelo Brasil"; nossos pais pediam: “Liberdade! Liberdade! / abre as asas sobre nós" e nós recordamos todos os dias que “o sol da liberdade em raios fúlgidos /brilhou no céu da Pátria..." – em certo instante.

Somos, pois, criaturas nutridas de liberdade há muito tempo, com disposição de cantá-la, amá-la, combater e certamente morrer por ela.

Ser livre - como diria o famoso conselheiro... - é não ser escravo; é agir segundo a nossa cabeça e o nosso coração, mesmo tendo de a partir esse coração e essa cabeça para encontrar um caminho... Enfim, ser livre é ser responsável, é repudiar a condição de e autônomo e de teleguiado-é proclamar o triunfo luminoso do espírito. (Suponho que seja isso)

Ser livre é ir além: é buscar outro espaço, outras dimensões, é ampliar a órbita da vida. É não estar acorrentado. É não viver obrigatoriamente entre quatro paredes.

Por isso, os meninos atiram pedras e soltam papagaios. A pedra inocentemente vai até onde o sonho das crianças deseja ir.(às vezes, é certo, quebra alguma coisa, no seu percurso...).

Os papagaios vão pelos ares até onde os meninos de outrora (muito outrora!...) não acreditavam que se pudesse chegar tão simplesmente, com um fio de linha e um pouco de vento!...

Acontece, porém, que um menino, para empinar um papagaio, esqueceu-se da fatalidade dos fios elétricos e perdeu a vida.

E os loucos que sonharam sair de seus pavilhões, usando a fórmula do incêndio para chegarem à liberdade, morreram queimados, com o mapa da Liberdade nas mãos!...

São essas coisas tristes que contornam sombriamente aquele sentimento luminoso da LIBERDADE. Para alcançá-la estamos todos os dias expostos à morte. E os tímidos preferem mesmo prender melhor suas correntes e não pensar em assunto tão ingrato.

Mas os sonhadores vão par frente, soltando seus papagaios, morrendo nos seus incêndios, como as crianças e os loucos. E cantando aqueles hinos que falam de asas, de raios fúlgidos - linguagem de seus antepassados, estranha linguagem humana, nestes andaimes dos construtores de Babel...(MEIRELLES, 1996).



Essa liberdade de que Cecília Meirelles fala magistralmente em seu texto é um assunto a ser trabalhado desde muito cedo em sala de aula. Os professores devem trabalhar com seus alunos as diversas faces do multiculturalismo, bem como a história étnico-racial do nosso país a fim de que se consiga amenizar a questão do preconceito e da discriminação racial na sociedade.

É inegável que o ser humano é um formador de preconceitos. Até hoje, infelizmente, para muitos a figura do cidadão negro está relacionada à violência, a injustiça e a marginalidade. Contamos, para fortalecer isto, com uma mídia massificadora e discriminativa que tem uma influência inegável sobre os indivíduos, pois todos nós fomos condicionados a aceitar tudo que nos é informado, como verdade única, sem analisarmos e discutirmos o porquê das coisas.

Alguns podem estar achando que tudo isso já dito anteriormente é uma utopia que não tem nada a ver com a educação. Pois bem, será realmente utopia se não pararmos da falar, falar, falar... e começarmos a agir. É imprescindível que comecemos a praticar todas as palavras bonitas que dizemos ou escrevemos. Será hipocrisia falarmos de uma sociedade mais justa, sem discriminação e preconceito agindo como sempre agimos e como se nada estivesse acontecendo.

Com relação à educação, se faz necessária a implantação de um ensino voltado para a realidade dos povos negros, sim; mas não vai ser através de cotas que iremos democratizar o ensino, até porque se analisarmos será muito maior a quantidade de pessoas negras a serem inseridas no meio educacional do que se estabelecem em porcentagem, pois são raros os cidadão que não possuem sangue negro nas veias.

É preciso sim, trabalhar com as diversidades nas escolas promovendo uma maior reflexão sobre o multiculturalismo e as desigualdades raciais. O desenvolvimento de projetos interdisciplinares envolvendo o tema é fundamental para a construção de um aluno-cidadão mais consciente e menos discriminativo.

Que a carência e a cor da pele de uma criança não sejam tão importantes quanto o brilho dos seus olhos.(Paulo César da Silva Júnior, 2004).

Enfim, é indispensável, principalmente com as crianças que fazem parte da raça negra, desenvolver um trabalho de identidade, para que esta criança possa se reconhecer negra e ter consciência do seu papel na sociedade em que vive, promovendo relações interpessoais e conseqüentemente intrapessoais com um enfoque sociocultural.



MEIRELES, Cecília. Liberdade. Escolha o seu sonho. Rio de Janeiro, Record, s.d. 1996.

JUNIOR, Paulo César da S. A questão racial na escola. Em pauta – Revista Nova Escola, São Paulo, n.177, p.14, 2004.