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QUEM CONCORDA, COMANDA
J.B.Xavier


Outro dia, assim, repentinamente, eu recebi uma das maiores lições da minha vida. Pude presenciar ao vivo, e em cores, um mestre - ou melhor - uma mestra da persuasão em ação. Não, não, não foi numa escola que presenciei isso, nem em alguma demonstração de rua, ou curso relâmpago que eu tenha feito.

Foi na casa de um amigo que vi acontecer. Eu estava hospedado em sua residência no fim de semana em que ministrei, em sua cidade, uma palestra cujo tema era exatamente “A Arte da Convivência”.

Esse amigo é uma das pessoas mais teimosas que conheço. Humildade definitivamente não é seu forte, mesmo porque ele tem consciência de que possui uma inteligência brilhante. Evito polemizar com ele sempre que possível, porque é muito difícil ganhar dele numa discussão.

Durante o café da manhã do sábado, presenciei a exposição de sua esposa sobre a compra de uma máquina de lavar pratos. Meu amigo começou a contradize-la sobre o tamanho da mesma. Ela achava que deveriam comprar um modelo grande, porque resolveria de uma vez o problema da louça da família por um dia inteiro. Ele achava que deveria comprar um modelo pequeno, porque era mais prática, fácil de manejar, e, sobretudo, por custar menos.

Conhecendo o meu amigo, eu já estava me preparando para ouvir uma discussão entre o casal, mas o que ela disse me pegou de surpresa, e acho que ao meu amigo também.
- Talvez você tenha razão, disse ela. Eu não tinha analisado esses aspectos da questão! Vou pensar no assunto.
A conversa mudou de rumo e, animadamente, trocamos muitas idéias sobre a palestra que eu iria ministrar. Até então, eu nem mesmo notara que haviam me dado uma aula de convivência, bem ali, debaixo do meu nariz. É impressionante como somos distraídos, ás vezes.

Após o almoço, quando a louça foi recolhida, ela comentou enquanto lavava os pratos:
- Que tamanho você disse que tem a máquina de lavar louça modelo pequeno, querido?
- Cabem seis pratos, disse ele.
- Será que essa louça toda aqui caberia na máquina? – perguntou ela sem se voltar.
Ele olhou para a pilha de pratos, travessas e talheres e teve que admitir:
- Sei, não. Acho difícil.

Então pensei: “É isso! Ela esperou a melhor oportunidade para lembrá-lo das desvantagens do modelo pequeno. Esperei então que ela continuasse com sua linha de argumentos em favor de sua opção, mas para minha surpresa, ela mudou de assunto e começamos a falar sobre amenidades. Fiquei confuso. Seus planos eram outros, como pude ver mais tarde.

No dia seguinte, após o término da palestra, ela preparou um lauto jantar, do qual participaram também seus pais, sogros e alguns amigos que haviam me ouvido. Não pude deixar de notar um certo exagero na quantidade de talheres, travessas e pratos que foram disponibilizados, mas só fui perceber que isto foi proposital, quando após o jantar, as mulheres se reuniram para lava a louça.

- Vamos lá, disse ela sorrindo, os homens enxugam!
E lá fomos nós, em fila indiana, com os panos de prato em riste, para a cozinha. Quando meu amigo viu a pilha de pratos, desanimou.
- Vamos atravessar a noite lavando louça, disse ele, meio chateado.
- Não se preocupe. A partir de amanhã lavaremos só a metade. A outra metade a máquina lava, disse ela sorrindo.
- Nada disso, disse o meu amigo, amanhã vamos ver também a máquina modelo grande. Se a diferença de preço não for muito grande...
- Não acredito que a partir de amanhã não vou mais precisar lavar louça, disse ela abraçando-o e dando-lhe um beijo.
- Mulheres são fáceis de agradar, piscou meu amigo para mim, enquanto ela se afastava.

Eu estava boquiaberto, ao perceber como ela planejara sua estratégia de persuasão. Não teve pressa, não insistiu. Simplesmente deixou-se levar, criando situações que demonstrassem seus argumentos. E ainda fez meu amigo pensar que estava no comando da situação. Uma redonda e completa vitória.

Na próxima oportunidade, porém, tentei praticar o que aprendi. Pude ver que havia assistido apenas à primeira aula desta grande lição de vida. Concordar para comandar não é tão simples, e nem sempre o assunto envolvido é tão banal quanto uma máquina de lavar pratos. Pode estar em jogo um projeto de vida, por exemplo. Aí a coisa é mais séria.

Um de mus filhos, um garoto de 19 anos, é um guitarrista amador, que sonha em ser um astro do rock. Ele já toca relativamente bem, mas, sempre achei que para ser um músico completo, é necessário conhecer a música de raiz. No caso, Noel Rosa, Cartola, Jacó do Bandolim, Nelson Cavaquinho etc. Mas, como levar um roqueiro inveterado, ligado no Metállica, a ouvir esses gêneros de música? Esse era o meu desafio! Com base no que aprendi com a esposa de meu amigo, resolvi tentar.

O passo número um, segundo aprendi, é não ter pressa. O número dois é entrar no ritmo do outro, e nunca tentar trazer o outro para nosso ritmo.

A oportunidade surgiu quando, um dia, ele me perguntou:

- Pai, baixou do Night Wish?
- Baixei – Achei da hora.
- Baixou também o Blind Guardian, o Evangelion, o Dream Theatrer e o Metálica?
- Baixei tudo!- respondi.
- Então passa para a minha máquina!,respondeu ele, todo animado.
- De que jeito? Respondi – aquilo deve ocupar uns oito gigas! Tem muita imagem de shows...Com taxa de transferência de 15 bps, vai levar a noite toda!
- Baixou do You Tube? Tá em Wave? Passa para MP3
- Eu já fiz isso! oito gigas já é MP3!
O garoto pareceu desanimar. Então eu sugeri:
- Você não quer que eu grave as melhores só num DVD?
- É isso, aí, tá ligado - respondeu ele - Meu HD já tá quase lotado...Tô esperando o Blue Ray...Aí sem, vai ter espaço sobrando. Valeu, pai.
Dando-me um beijo, ele saiu todo animado.

Se você teve dificuldades em entender esse diálogo, você deve ter dificuldades em se comunicar com seus filhos, se eles estiverem ao redor da faixa etária dos meus.

Evangelion, Night Wish etc, não são programas de computador, são bandas de rock! E todos os termos que ele usou são de uso corrente da meninada.

Bom, a terceira lição do “Concordar para Comandar” é honestidade. Não se leva pessoas a pensar do nosso modo, mentindo para elas. De maneira que eu precisava gostar verdadeiramente do Night Wish ou do Metálica! Escolhi o Night Wish para me "especializar". A garotada chama o estilo da banda de "Rock Medieval" e resolvi saber o que é isso!

Mas, o Night Wish! é uma banda de rock pesado. Não foi fácil, porque meus ouvidos já estavam destreinados para o rock. Anos de Beethoven, Mozart, Paganini e Cia. os haviam condicionados de tal maneira que os primeiros acordes da banda soaram como se um caminhão de brita estivesse descarregando diante de minha porta.

Então pensei: Ora, quem já passou por Alice Cooper, Black Sabath, Creedence Clearwater, Deep Purple etc, e sobreviveu, não pode ter perdido de todo a vocação de roqueiro. E resolvi dar uma segunda e uma terceira chance ao Night Wish, até que seus acordes começaram a fazer sentido, e comecei a ouvir a melodia daquele rock pauleira.

À medida que eu ouvia, pude encontrar as razões pelas quais ele era conhecido por “Rock Medieval”. É que havia uma soprano como “crooner” e isso me remeteu diretamente para a década de 70 e para Nina Hagen. Ela fazia o mesmo tipo de música. Aliás, que me conste, ela foi a primeira a misturar música erudita e rock. Depois vieram outros, como Montserrat Caballé & Fred Mercury, do Queen, Plácido Domingo, e logo em seguida o grande Pavarotti, que apesar das críticas iniciais ao colega tenor, não resistiu ao popularesco. Hoje ninguém mais estranha ouvir no rádio trechos de música erudita em programas de rock pesado.

Mas, mais importante que tudo isso, era a intenção que eu tinha de fazer com que meu garoto ouvisse um pouco de Ernesto Nazaré, de Noel Rosa ou Jacó do Bandolim.

Pensando nisso, curti o Night wish o mais que pude, ao ponto de emparelhar com meu garoto nessa curtição. Pacientemente esperei pelo momento ideal de lhe dizer que Nina Hagen já fizera algo parecido, e quando lhe apresentei a dita cuja, num velho disco de vinil dos anos 70, ele ficou deslumbrado com a semelhança.

Aproveitando esse deslumbramento, mostrei-lhe Montserrat Caballé, e à medida que seus ouvidos iam se acostumando aos novos sons, fui lhe apresentando, em doses homeopáticas cuidadosamente distribuídas ao longo do tempo, jóias da musica erudita e popular brasileira, que ele tanto rejeitava. Claro, tudo isso mesclado de muito Night wish. Sempre que eu ficava mais afoito, lembrava da paciência da esposa do meu amigo.

À medida que ia encontrando as raízes musicais e reconhecendo a música atual nelas, mais meu garoto se animava a ouvi-las. Fiquei orgulhoso de mim mesmo por ter me saído bem do desafio. Só precisei de paciência e de um pouquinho de humildade para me transformar em aluno, ao invés de tentar ser o mestre, fazendo com que as descobertas de um novo mundo fossem um mérito exclusivo dele.

Percebi que tinha atingido meu objetivo, quando há dias, ele me disse, após me enviar um e-mail:

-Taí pai, Steve Vai tocando Tender Surrender, q eh uma música dele... olha q absurdo...

Eis a URL que ele me enviou:

http://www.youtube.com/watch?v=fzXQ119OPFk&search=Steve%20vai

Visite a página, leitor, vc vai ficar mesmo impressionado.

Após assistir ao vídeo, pude ver quanta coisa eu estava perdendo, por manter-me fechado em minha "zona de conforto".

Na semana seguinte, lá estávamos eu e ele assistindo à seqüência da programação dedicada a Mozart, no Teatro Muncipial. Pude ver como ele vibrava com o virtuosismo do pianista.

Eu e ele saímos ganhando do processo, porque fomos apresentados a universos completamente diferentes, mas igualmente belos.

O maravilhoso do processo, é a relação ganha-ganha que se estabelece, se ele for bem conduzido. Neste caso, fomos os dois, meu garoto e eu, apresentados a novos mundos que nem sabíamos existir: ele conheceu músicos que são os pilares da música brasileira, e eu reentrei no mundo do rock, onde encontrei bandas fazendo coisas incríveis, como o Hera, o Enigma, etc.

Há muito tempo eu vinha notando que as pessoas que lideram com facilidade têm uma coisa em comum: não discordam frontalmente de seus liderados. Ao contrário, concordam com eles, numa primeira instância, e, por não terem criado áreas de atrito, conseguem voltar ao tema mais tarde e colocar suas próprias idéias a respeito do mesmo, sem que o interlocutor se sinta ameaçado.

Se observarmos bem, o alpinista faz isso com a montanha. Ele não discorda dela. Antes, a estuda, escolhe o melhor caminho, recua quando necessário, avança um pouco mais, descansa, volta à carga, e – o mais importante – não perde de vista o objetivo, que é chegar ao cume.

Observando exemplos assim, puder ver que a rede de aliados dessas pessoas é sempre mais ampla que a dos que impõe aos outros sua opinião.

Pessoas que dominam a arte de concordar atraem mais pessoas para essa rede, e conseguem delas um grau de fidelidade muito maior que os teimosos. Geralmente pessoas assim possuem um grau de humildade bastante desenvolvido, e adoram deixar que os outros brilhem.

***
JB Xavier
Enviado por JB Xavier em 20/05/2006
Reeditado em 16/01/2011
Código do texto: T159446
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JB Xavier
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