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RUBEM ALVES NA UNISC

                                  RUBEM ALVES NA UNISC
Swami Sambodh Naseeb


Lá estava  o poeta, como um lendário samurai. Eu, tendo a felicidade de participar de um encontro (que eles chamam “palestra”, com ele. Ele quem ? Rubem Alves. O ser humano Rubem Alves. Aquele que  ama as crianças, ama os livros, ama a poesia, ama a brincadeira e a alegria. Rubem Alves. O psicanalista. O poeta. O pensador. O filósofo. O pássaro das palavras do coração.
O auditório da Unisc era pequeno. Não, não seu espaço físico. Não porque não caberiam algumas pessoas. É que lá estava Rubem Alves,  a figura lendária, caridosa,  profundamente comprometido com ele mesmo, com a vida, com o prazer e a dança de se fazer gente. Só por isso era pequeno o auditório. Mas era um enorme Rubem Alves.
E a primeira coisa que disse foi que era um escritor, mas que jamais havia sequer sonhado virar um escritor. As palavras chegaram. E chegaram sem um sinal de aviso. Exatamente como a vida. Tanto acontece que jamais poderíamos controlar tudo. Que belo sonho! Afinal, a vida nos leva ! (Mesmo para aqueles que acham que levam a vida) A vida nos leva por seus caminhos. É uma estrada selvagem, no meio da floresta – e não na pavimentação de uma auto-estrada. A vida tem o cheiro da floresta. Rubem fala desta vida.

Rubem Alves desperta em nós o pensador, o criador. Enquanto que educação é pensar e criar, nós aprendemos a ser pensados e criados. Vejam só ! A ética de Rubem  é a ética do amor, da cooperação, da beleza, da poesia. A universidade que ele conclama é a universidade da alegria. Seu tema para abordar: ÉTICA NA UNIVERSIDADE. Então falou de amor, e falou de alegria. E para pincelar estes dois temas, trouxe a poesia e a literatura, poetas e pensadores, para servir de flores que enfeitariam o cenário de sua mensagem. Nesta altura eu já notara: não importava o que ele dizia – sua presença era pura alegria viva. Então sorri, e soube que estava diante de um verdadeiro educador. A palavra viva de um educador, com sua idéias, é uma fonte de luz que ecoa só no meio de tantas barbáries  que ouvimos em relação à educação. Sempre ouvimos falar que o professor não suporta mais seus alunos indisciplinados, os problemas nas escolas, a falta disso, a falta daquilo. Nunca ouvimos no entanto que um professor deveria ser selecionado por um requisito: amar as crianças e ter a capacidade de se envolver com elas. Amar as crianças, diz Rubem Alves, porque se você não tem capacidade de ver quem as crianças são, você não tem capacidade de ensinar nada de valor para ninguém.

Rubem dividiu a vida em dois modos, com duas caixinhas. A caixinha de ferramentas e a caixinha da fruição. Ferramenta é utensílio. Neste ítem, o computador, a caneta, uma cadeira, chave de fenda, telefone, automóvel, o nosso próprio corpo, etc... As ferramentas são maravilhosas, mas a mesma mão que acarinha pode matar. O mesmo computador que ajuda, pode formar uma rede de pedofilia. Então qual o valor das ferramentas ? O valor está em QUEM usa as ferramentas. A ciência é uma ferramenta. Mas um ser humano estúpido, usando esta ferramenta, pode acabar com o mundo. A tecnologia deveria estar a serviço do homem. Parece que as coisas foram invertidas de uns tempos para cá. O homem está escravo do mundo que criou. O criador é vítima de sua criatura. O homem vive para trabalhar ? Ou trabalha para viver, para amar, para gozar das belezas da vida ?

Rubem nos diz que esquecemos a poesia. E poesia não é um gênero literário. Poesia faz parte do ser humano, e é aquela caixinha que ele chamou “fruição”, a caixinha dos prazeres belos da vida. Olhar a beleza, ouvir a beleza, tocar com sentimento. Rubem chamou atenção para o significado da vida. Afinal, o que é a vida ? A vida não é na verdade uma busca constante pela alegria ? Se for, como apenas vivendo de ferramentas o homem poderia ser feliz? E perguntar-se sobre a nossa caixinha de fruição é simplesmente se perguntar sobre o prazer de sentir-se vivo todos os dias, e a delicadeza do amor que tenho pelo meu trabalho, pelo que amo, pelo que crio. O amor que tenho nos passos que dou pelo caminho. Na busca de mais um sorriso. Na canção que se refaz a cada instante e que chamamos “movimento infinito da vida”. Ética é amor.
Eu estava sentado com os olhos cheios, assistindo como se o tempo tivesse parado. Mas eu sabia que o tempo parado era pela eternidade do momento, que sabemos, não tem tempo. Só tem tempo o que é enfadonho. Quando há amor, não tem tempo. Quando há paixão, não tem tempo. Quando há totalidade e devoção, não tem tempo. Rubem Alves, que não tem tempo, um dia no tempo escreveu assim: “O amor é a vida acontecendo no momento: sem passado, sem futuro, presente puro, eternidade numa bolha de sabão. O poeta Robert Frost, sem ter tantas namoradas, namorou a vida em cada momento. Na sua lápide ele mandou escrever: “Teve um caso de amor com a vida...” E Rubem, revelando ali seus setenta anos, finaliza: “Ponho-me a brincar com a vida e uma estranha metamorfose acontece: deixo de ser velho. Sou criança de novo...”

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Swami Sambodh Naseeb
Enviado por Swami Sambodh Naseeb em 10/05/2005
Código do texto: T16109
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Sobre o autor
Swami Sambodh Naseeb
Santa Cruz do Sul - Rio Grande do Sul - Brasil, 47 anos
18 textos (15694 leituras)
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Swami Sambodh Naseeb