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OS GÊNEROS DO DISCURSO NA PERSPECTIVA BAKHTINIANA

OS GÊNEROS DO DISCURSO NA PERSPECTIVA BAKHTINIANA

Por Anderson Lima
Licenciado Em Letras UFPA
anddersonlima@bol.com.br


A comunicação é indispensável para os seres humanos. Ela pode se dar por meio de diversas manifestações linguísticas, como a escrita, a oralidade, os sons, os gestos, as expressões fisionômicas etc. Segundo Bakhtin tais manifestações são bastante diversificadas, pois estão relacionadas às muitas esferas da atividade humana.
Bakhtin (1997, p. 290) trata do uso da língua nas atividades humanas:

Todas as esferas da atividade humana, por mais variadas que sejam, estão sempre relacionadas com a utilização da língua. Não é de surpreender que o caráter e os modos dessa utilização sejam tão variados como as próprias esferas da atividade humana (...) A utilização da língua efetua-se em forma de enunciados (orais e escritos), concretos e únicos, que emanam dos integrantes duma ou doutra esfera da atividade humana. O enunciado reflete as condições específicas e as finalidades de cada uma dessas esferas (...) cada esfera de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, sendo isso que denominamos gêneros do discurso.


Neste trecho podem-se perceber três conceitos principais: língua, enunciado e gêneros do discurso. Essas entidades, para Bakhtin, estão intimamente relacionadas, para o bom funcionamento da comunicação. As vastas variedades das esferas da atividade humana dão origem a vários gêneros do discurso, que segundo Bakhtin resultam em formas-padrão “relativamente estáveis” de um enunciado, determinadas sócio-historicamente. Bakhtin vai mais além, ao referir que só nos comunicamos, falamos e escrevemos por meio de gêneros do discurso. Os gêneros estão no dia-a-dia dos sujeitos falantes, os quais possuem um infindável repertório de gêneros, muitas vezes usados inconscientemente. Até nas conversas mais informais, por exemplo, o discurso é moldado pelo gênero em uso. Tais gêneros, segundo Bakhtin (1997, p. 282), nos são dados “quase da mesma forma com que nos é dada a língua materna, a qual dominamos livremente até começarmos o estudo da gramática”.
Os gêneros do discurso sofrem constantes atualizações ou transformações. A este respeito, Bakhtin (1997, p. 106) diz que “o gênero sempre é e não é ao mesmo tempo, sempre é novo e velho ao mesmo tempo.” Esta passagem, de certa forma, explica o “relativamente estável”, pois, bem como a sociedade, os gêneros também se modificam para atender às necessidades desta sociedade. Como, por exemplo, a carta, meio de comunicação bastante usado em épocas anteriores. Hoje, de certa forma, perdeu espaço para o e-mail, haja vista que a sociedade atual necessita de agilidade e rapidez na transmissão das informações; necessidade esta que a carta não é capaz de suprir. No entanto, a carta não deixou de existir. O que houve foi uma modificação, uma atualização do gênero carta, para melhor atender à sociedade.
A este respeito Bakhtin (1997, p. 284) diz que

Cada esfera conhece seus Gêneros, apropriados à sua especificidade, aos quais correspondem determinados estilos. Uma dada função (científica, técnica, ideológica, oficial, cotidiana) e dadas condições, específicas para cada uma das esferas da comunicação verbal, geram um dado gênero, ou seja, um dado tipo de enunciado, relativamente estável do ponto de vista temático, composicional e estilístico.


Sabe-se que os gêneros vão sofrendo modificações em consequência do momento histórico em que estão inseridos. Cada situação social dá origem a um gênero com suas características peculiares. Levando-se em consideração a infinidade de situações comunicativas e que essas só são possíveis graças à utilização da língua, pode-se perceber que infinitos também serão os gêneros. Bakhtin relaciona a formação de novos gêneros ao aparecimento de novas esferas da atividade humana, com finalidades discursivas específicas. Esta imensa heterogeneidade fez com que Bakhtin propusesse uma primeira grande “classificação”, dividindo os gêneros do discurso em dois grupos: primários e secundários. Os primários relacionam-se às situações comunicativas cotidianas, espontâneas, informais e imediatas, como a carta, o bilhete, o diálogo cotidiano. Os gêneros secundários, geralmente mediados pela escrita, aparecem em situações comunicativas mais complexas e elaboradas, como o teatro, o romance, as teses científicas, etc. Tanto os gêneros primários quanto os secundários possuem a mesma essência, em outras palavras, ambos são compostos por fenômenos da mesma natureza, os enunciados verbais. O que os diferencia é o nível de complexidade em que se apresentam.
Segundo Bakhtin (1997, p. 281):

Não há razão para minimizar a extrema heterogeneidade dos gêneros do discurso e a conseqüente dificuldade quando se trata de definir o caráter genérico do enunciado. Importa, nesse ponto, levar em consideração a diferença essencial existente entre o gênero de discurso primário (simples) e o gêneros do discurso secundário (complexo). Os gêneros secundários do discurso - o romance, o teatro, o discurso científico, o discurso ideológico, etc. – aparecem em circunstâncias de uma comunicação cultural mais complexa e relativamente mais evoluída, principalmente escrita: artística, científica, sociopolítica. Durante o processo de sua formação, esses gêneros secundários absorvem e transmutam os gêneros primários (simples) de todas as espécies, que se constituíram em circunstâncias de uma comunicação verbal espontânea. Os gêneros primários, ao se tornarem componentes dos gêneros secundários, transformam-se dentro destes e adquirem uma característica particular: perdem sua relação imediata com a realidade existente e com a realidade dos enunciados alheios...


Além dos aspectos sócio-históricos, devem-se levar em consideração outros aspectos, como espaço e tempo, tratados por Machado (2008, p. 158, 159):

O gênero não pode ser pensado fora da dimensão espácio-temporal. Logo, todas as formas de representação que nele estão abrigadas são, igualmente, orientadas pelo espaço tempo (...) O cronotopo trata das essenciais de relações temporais e espaciais assimiladas artisticamente na literatura. Enquanto o espaço é social, o tempo é sempre histórico. Isso significa que tanto na experiência quanto na representação estética o tempo é organizado por convenções. Os gêneros surgem dentro de algumas tradições com as quais se relacionam de algum modo, permitindo a reconstrução da imagem espacio-temporal da representação estética que orienta o uso da linguagem: ‘o gênero vive do presente mas recorda o seu passado, o seu começo’, afirma Bakhtin. A teoria do cronotopo nos faz entender que o gênero tem uma existência cultural, eliminando, portanto, o nascimento original e a morte definitiva. Os gêneros se constituem a partir de situações cronotópicas particulares e também recorrentes por isso são tão antigos quanto as organizações sociais.

Neste trecho percebe-se a relação dos gêneros com o espaço e o tempo, característica que Bakhtin denomina cronotopos. O gênero não surge do nada, ele está ligado a uma origem cultural, delimitada por aspectos sociais que estão relacionados ao espaço e, toda cultura possui sua própria história relacionada ao tempo. Daí, o gênero, que nasce dentro de tal cultura, sofrer modificações de acordo com o espaço e tempo.
Até este ponto, tratou-se dos gêneros, sua conceituação e classificação. Foi possível perceber a íntima ligação do gênero com o enunciado. No entanto, antes de se tratar do conceito de enunciado (fundamental para entender o conceito de gênero), é necessário uma breve explanação a respeito de outros conceitos: o conceito de oração e palavra (unidades da língua).
Tanto a palavra quanto a oração pura e simples não constituem ato comunicativo, não suscitam uma atitude de resposta por parte do outro, como unidades da língua possuem uma conclusibilidade abstrata e, por isso, podem não ser precisas. A oração em si não tem autoria e só a partir do momento em que se torna um enunciado, em uma situação discursiva, é que passa a representar a intenção do falante. A palavra do mesmo modo pode ser um verdadeiro enunciado. Por exemplo, quando olhamos para um desenho mostrado por alguém e dizemos - lindo!, estamos carregando a palavra de sentido e provocando nesse alguém alguma atitude, tornando-a um enunciado concreto (Bakhtin, 1997).
Ainda com relação à palavra, o autor afirma que escolhemos as palavras de acordo com as especificidades do gênero discursivo utilizado no momento. Haja vista que o gênero é uma forma típica do enunciado, no gênero a palavra incorpora esta tipicidade. Bakhtin considera que a palavra não é dotada apenas de expressão típica, mas também de expressão individual, já que a comunicação se dá por meio de enunciações individuais. E as palavras são incorporadas ao discurso a partir dos enunciados de outras pessoas. “Essas palavras dos outros trazem consigo a sua expressão, o seu tom valorativo que assimilamos, reelaboramos, e reacentuamos” (p. 295).
Com relação ao enunciado, este pode ser falado ou escrito, pressupõe um ato de comunicação social, é a unidade real do discurso. Neste caso existe uma interação entre os sujeitos falantes.
Bakhtin (1997, p. 293) conceitua o enunciado como:

... unidade real da comunicação verbal: o enunciado. A fala só existe, na realidade, na forma concreta dos enunciados de um indivíduo: do sujeito de um discurso-fala. O discurso se molda sempre à forma do enunciado que pertence a um sujeito falante e não pode existir fora dessa forma. Quaisquer que sejam o volume, o conteúdo, a composição, os enunciados sempre possuem, como unidades da comunicação verbal, características estruturais que lhes são comuns e acima de tudo, fronteiras claramente delimitadas. (...) As fronteiras do enunciado compreendido como uma unidade da comunicação verbal, são determinadas pela alternância de sujeitos falantes ou de interlocutores.


Bakhtin afirma que enunciado não é uma unidade convencional e sim uma unidade real, a qual é estritamente delimitada pela alternância de sujeitos falantes. É no diálogo real que esta alternância dos sujeitos falantes é mais facilmente percebida. Os enunciados dos interlocutores (parceiros do diálogo) ou as chamadas réplicas alternam-se no diálogo, o qual, segundo Bakhtin, por sua clareza e simplicidade, é a forma clássica da comunicação verbal.
No ato conversacional, há alternância dos sujeitos falantes, que emitem enunciados. Neste processo o receptor não é um ser passivo, ao contrário, ao ouvir e compreender o enunciado, este toma para si atitudes responsivas, ou seja, ele pode concordar ou não, pode opinar, direcionar, interromper, discutir, enfim exercer papel ativo no ato comunicacional. Não é intenção do locutor uma reação passiva por parte do receptor, mas sim um feedback, uma vez que o locutor age no sentido de induzir uma resposta, atua sobre o outro no sentido de convencê-lo, influenciá-lo. Bakhtin afirma que esta atitude é a principal característica do enunciado. Salienta, também, que o enunciado é único, não pode ser repetido, apenas citado, haja vista que advém de discursos proferidos no exato momento da interação social.
Segundo Rodrigues (2005, p. 157) “são exemplos de enunciados os romances, as cartas, as crônicas, as notícias, as saudações, as conversas de salão etc.” O enunciado, como afirma Bakhtin no trecho acima, “é uma unidade real, estritamente delimitada pela alternância dos sujeitos falantes”. Isto se dá numa relação dialógica.
O conceito de dialogismo fez-se presente, no Circulo de Bakhtin, para ressaltar a permanente interação e colisão entre estruturas significantes inseridas em um determinado campo histórico e social. As estruturas significantes são os “sistemas de signos”, sejam eles literários, políticos, religiosos etc. Sempre se originam das pulsões e tensões sociais.
A este respeito, Faraco (2003, p. 58) afirma: “Há, portanto, uma grande identificação do pensamento do Círculo de Bakhtin com a idéia de diálogo. E isso a tal ponto que já se tornou habitual e generalizado designar esse pensamento pelo termo dialogismo”.
É necessário, no entanto, como afirma Faraco, ter cuidado com o uso do termo diálogo, pois este possui várias significações sociais. Faraco (2003, p. 59) mostra as várias acepções do termo diálogo e o foco, deste termo, para o Círculo de Bakhtin.

A palavra diálogo designa, comumente, uma determinada forma composicional em narrativas escritas, representando a conversa dos personagens. Pode designar também a seqüência de fala dos personagens no texto dramático, assim como o desenrolar da conversação na interação face-a-face.
Os membros do Círculo de Bakhtin não são teóricos do diálogo nesses sentidos (...) Desse modo, não constitui objeto de suas preocupações observar a maneira como se dá a troca de turnos entre participantes de uma conversa (...) Nem desenvolver um estudo de práticas conversacionais de um grupo humano qualquer...
Portanto, o evento do diálogo face-a-face (aquilo que eles chamam, em vários momentos, de diálogo em sentido estrito do termo) estará no foco de atenção do Círculo, mas não como forma composicional e sim como ‘um documento sociológico altamente interessante’(...), isto é, como um espaço em que mais diretamente se pode observar a dinâmica do processo de interação das vozes sociais.


Segundo Faraco, o chamado Círculo de Bakhtin preocupa-se com o diálogo em uma perspectiva mais ampla do que a mera interação face-a-face. O que interessa para o círculo é o complexo de forças que atuam no diálogo e condicionam a forma e as significações do que é dito ali.
A este respeito Faraco (2003, p. 60) diz que

... o evento do diálogo face-a-face só interessa como um dos muitos eventos em que se manifestam as relações dialógicas que são mais amplas, mais variadas e mais complexas do que a relação existente entre as réplicas de uma conversa face-a-face. O objeto efetivo do dialogismo é constituído, portanto, pelas relações dialógicas nesse sentido lato (‘mais ampla, mais variadas e mais complexas).
Sob essa perspectiva, o diálogo face-a-face vai também interessar ao Círculo como um dos espaços em que se dá, por exemplo, o entrecruzamento das múltiplas verdades sociais, ou seja, como um dos muitos espaços em que ocorre diálogo no sentido amplo do termo, isto é, a confrontação das mais diferentes refrações sociais expressas em enunciados de qualquer tipo e tamanho postos em relação.
O Círculo, portanto, olha para o diálogo face-a-face do mesmo modo que olha para uma obra literária, um tratado filosófico, um texto religioso – como eventos da grande interação sociocultural de qualquer grupo humano; como espaços de vida da consciência socioideológica; como eventos atravessados pelas mesmas grandes forças dialógicas.

Tratou-se até este ponto de língua, enunciado e gêneros, na perspectiva bakhtiniana. Rojo (2005) mostra duas tendências, para análise dos gêneros, denominadas por ela de “teoria dos gêneros do discurso ou discursivos,” pautadas em aspectos sócio-históricos, e “teoria de gêneros de texto,” centrada na descrição da materialidade textual. Segundo, a autora, as duas vertentes estão ligadas a diferentes releituras da herança bakhtiniana.
Rojo (2005, p. 186) apresenta a distinção entre as duas vertentes nesta passagem:

...gêneros de texto tendiam a recorrer a um plano descritivo intermediário – equivalente à estrutura ou forma composicional – que trabalha com noções herdadas da lingüística textual (tipos, protótipos, seqüências típicas etc.) e que integrariam a composição dos textos do gênero. A outra vertente, a dos gêneros discursivos, tendiam a selecionar os aspectos da materialidade lingüística determinados pelos parâmetros da situação de enunciação – sem a pretensão de esgotar a descrição dos aspectos lingüísticos ou textuais, mas apenas ressaltando as ‘marcas lingüísticas que decorriam de/ produziam significações e temas relevantes no discurso.

Este trabalho não irá seguir uma abordagem textual, para o gênero rótulo, pois não se fará uma abordagem dos rótulos, visando à identificação da estrutura das partes que o compõem. Será feita, no 2° capítulo deste trabalho, uma abordagem discursiva do gênero rótulo, gênero pertencente à esfera publicitária. A escolha deste gênero do discurso deveu-se à inquietação de vislumbrar nele vários aspectos interessantes que vão muito além de apenas indicar e identificar o produto inserido na embalagem. O objetivo aqui é analisar o gênero rótulo como um gênero do discurso, por meio de sua função social e de sua história.
O rótulo pode representar um dos canais mais importantes para a comunicação entre o fabricante do produto e o consumidor e atualmente tem se revelado uma das principais estratégias de marketing para os produtos em geral, pois por meio dele o fabricante pode informar, persuadir e vender seu produto.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. Os gêneros do discurso. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.


FARACO, C. A. Linguagem e diálogo: as idéias lingüísticas do círculo de Bakhtin. Curitiba: Criar Edições, 2003.


GONÇALVES, Cristina Munhão. Ética e persuasão na publicidade dos rótulos de embalagens. In: Cenários da Comunicação. 3º volume, São Paulo: Uninove, 2004.


MACHADO, Irene. Gêneros discursivos. In: Bakhtin Conceitos Chave, 4ª ed. São Paulo: Contexto, 2008.


RODRIGUES, R. H. Os gêneros do discurso na perspectiva dialógica da linguagem: a abordagem de Bakhtin. In: MEURER, J. L.; BONIONI Adair, MOTTA-Roth Désirée, (Orgs). Gêneros: teorias, métodos, debates. São Paulo: Parábola Editorial, 2005.


ROJO. Gêneros do discurso e Gêneros textuais: questões teóricas e aplicadas. In: MEURER, J. L.; BONIONI Adair, MOTTA-Roth Désirée, (Orgs). Gêneros: teorias, métodos, debates. São Paulo: Parábola Editorial, 2005.
anpali
Enviado por anpali em 17/07/2009
Código do texto: T1705374

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