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A CENSURA ESTÁ DE VOLTA?

A  CENSURA ESTÁ DE VOLTA?

Julio Carrara (*)


Estou bastante indignado com o que está acontecendo atualmente em nossa cidade e região. Não só eu, como outros artistas locais e regionais, fomos ou estamos sendo censurados por entidades em que prestamos serviço ou até mesmo por quem nos patrocina, por colocarmos em cena as nossas idéias sob o nosso ponto de vista -  um ponto de vista crítico e consciente e não complacente e auto-piedoso. E pagamos um alto preço por isso. Ou batemos o pé, defendemos com unhas e dentes a nossa proposta ou aceitamos e obedecemos calados, sem discutir. E aí somos castrados e o nosso trabalho fica mutilado, muitas vezes sem nenhum fundamento, por imposição de algum membro dessas entidades, que consideram o nosso trabalho “grosseiro” ou ”apelativo”.
Levanto a questão: o que é ser apelativo? É preciso conceituar. Se fizermos algo sem fundamento, aí estamos apelando. Caso contrário, não estamos. Colocar um palavrão na boca de um personagem num momento de fúria, revelar os seus instintos primitivos, seus desejos sexuais mais intensos, criticar a sujeira da política, da religião, da sociedade, retratar o que muitas vezes ocorre entre quatro paredes nas casas ditas “de família”, onde pais violam suas filhas ou enteadas, mães que seduzem os filhos, irmãos que mantém relações sexuais com irmãs, ou até mesmo com os do mesmo sexo,  é ser apelativo? Ou é desvendar um universo complexo que recusamos a ver?  Nelson Rodrigues abordou muito bem esses temas nas suas obras. E pagou um preço muito alto por isso. Foi vaiado pelos conservadores e taxado de imoral. Nelson, imoral? Não conheço ninguém mais moralista do que ele. Plínio Marcos enfrentou os mesmos problemas. Hoje eles estão mortos e são considerados gênios pela crítica, o que sempre foram, não tem o que discutir. Mas infelizmente, foram reconhecidos como gênios apenas depois de mortos, e em vida, só levaram na cara. E o que eles escreveram, por acaso, é alguma mentira? Eles apelaram? É apenas uma obra de ficção? Uma masturbação mental?  Não, não é. É real, uma realidade tão dura de ser compreendida, que a sociedade prefere tapar o sol com a peneira, fechar os olhos, fingir que não vê, que isso é invenção, por fazer parte de um sistema medíocre e hipócrita.
O que o público quer ver? Uma história açucarada com o famoso “happy end”, onde o bem vence o mal e todos viveram felizes para sempre? Só pode ser isso. Esse gênero pode e deve ser explorado, mas também não podemos esquecer do outro lado da moeda.  E a desculpa para não querer ver esse estilo de espetáculo do qual falo, é sempre a mesma: “Odeio tragédia. De desgraça já basta a minha vida!” E pagam uma fortuna para ver “A Bela e a Fera”, “Chicago” ou qualquer um desses musicais da Broadway que vêm para São Paulo,  ou então para ver aquelas comedinhas sem sentido do Falabella -  aí sim, preconceituosas e cheias de grosserias. Mas o Falabella pode fazer isso,  ele é global, está na mídia, é até aclamado pelo público “Sai de Baixo”, que acham que o teatro se resume nesse lixo que a Rede Globo de Televisão exibiu durante anos, mas que não representam absolutamente nada, não tem nada a nos dizer. É um amontoado de bobagens, só com o intuito de ganhar dinheiro e sem sequer se preocupar com uma sadia formação cultural, e cujas sessões estão sempre lotadas. E o público do qual falo, se encantam com a parafernália de luz, som, figurinos e com aquelas toneladas de cenários. Se encantam tanto que aplaudem em cena aberta, a cada troca de cenário ou a cada mudança de luz. Pode haver coisa mais brega? Aonde está o ator nisso tudo? Ele e engolido pelo cenário monstruoso, pelas luzes psicodélicas, mas  são famosos, globais. Agora ser famoso é uma coisa, ser ator é outra, completamente diferente. E o público, na maioria das vezes, não estão nem aí pra história. Foram  ao Teatro para ver a Danielle Winits ou o Fábio Assunção, porque os conhecem da TV.
 Agora vá ver se um espetáculo considerado “underground”, de baixo custo, com atores que não estão na mídia,  que tem algo a dizer,  tem profundidade, sutileza, que nos leva à reflexão, tem sessões com a casa lotada? Não. Não tem uma dúzia de pessoas no Teatro, porque o ingresso, segundo o público,  é muito caro – está na faixa dos R$ 15,00. Mas quanto o público paga para assistir a um jogo de futebol? A preferência é pelos globais, infelizmente. Basta você aparecer na “Malhação” e estar fazendo um espetáculo ao mesmo tempo,  que é garantia de casa cheia.  A que ponto chegamos. Mas isso é um outro assunto que fica para uma outra vez.
O mundo é cruel, a realidade é cruel, as pessoas são cruéis. Por que ignorar esses fatos? Por que não querer pensar, não querer refletir sobre temas densos, por que não querer melhorar o mundo? O que impede essa sociedade de ver o que está diante de seus olhos? De crescer? Respondo: porque incomoda. E o  que incomoda segundo eles, não é bom, pois denigre a imagem da família, a imagem da igreja, etc. Mas estamos falando da imagem, da forma. Todo mundo compõe um personagem, cria uma imagem que não é a sua imagem verdadeira, estão escondidos atrás de uma máscara, fingindo ser o que não são, simplesmente para agradar e ser aceito pela sociedade. E aqueles que se comportam como realmente são, em todos os lugares, sem o uso da máscara, são classificados como loucos, pervertidos, ateus, subversivos, entre outros adjetivos. E são censurados com frases ambíguas do tipo: “Como você é pornográfico!”, “Eu não teria coragem de me expor assim”, ou “Isso devia ser proibido”, entre outras frases do gênero. Digo ambíguas porque quem julga dessa maneira, como realmente  se comporta quando está sozinho em seu quarto? Aí sim a máscara cai.
Até aí falamos do público – com raríssimas exceções. E quanto ao artista? Qual é o seu papel dentro disso tudo?  Sua função não é a de mostrar para o público a vida e todas as nuanças da alma humana através de um espelho? Muitas vezes um espelho distorcido e deformado como é a nossa realidade? Se o artista não tem a liberdade de expressão, se ele abaixa a cabeça para quem o censurou, diz amém pra tudo, não que ele não possa ser um artista. Simplesmente não é um artista bom. Será sempre um limitado e um medíocre.
Se aceitarmos tudo passivamente onde é que vamos parar? Vamos ser torturados ou  exilados pela ditadura, ou voltaremos mais atrás, sendo queimados em praça pública com nossas obras na  fogueira da Inquisição? Porque se  continuar do jeito que está, caminhando para trás, é para lá que vamos voltar. Seremos arrancados do palco pela polícia e levados à força para uma delegacia. E aí, sempre que estivermos no palco, precisaremos usar e abusar das metáforas no nosso trabalho como fizeram magistralmente Gilberto Gil, Caetano Veloso, entre  outros, com as suas músicas;  explorar ao máximo o realismo-fantástico, como fazia Dias Gomes para driblar a censura, em suas peças e telenovelas; ou precisaremos ir até Brasília cada vez que concluírmos um trabalho – falo como dramaturgo, para sentarmos com os censores, que com aquela caneta vermelha na mão, cortará e destruirá nossa obra, ditando moralidades, pois o que estão cortando, segundo eles, não está dentro dos padrões, da moral e dos bons costumes em vigor.
Aí eu pergunto: quem  cria e porque criar tal situação? Somos nós, os artistas, ou são àqueles que estão no poder que armaram essa arapuca? Posso responder por mim e pela classe artística: nós temos consciência do que fazemos, sabemos conceituar o que é Arte e o que é Cultura. Estudamos e muito para isso e mesmo assim somos vistos como vagabundos, como marginais, como bichas ou putas. Somos profissionais e exigimos respeito. Senão estaríamos em outra profissão: estaríamos trabalhando de garçom ou entregando pizza – sem desmerecer esses profissionais. Quem se forma numa Faculdade de Artes, faz um juramento de ética na colação de grau. Nós trabalhamos em função de um mundo melhor, desejamos seres humanos mais humanos, não queremos  violência de nenhuma espécie. Nós fazemos um trabalho que além de artístico e/ou educativo, é  social, formativo. Essa é a nossa função. E quem está no poder? Qual é a sua função? Será que eles sabem conceituar o que é Arte e o que é Cultura? Será que eles têm a formação necessária para  ocupar tal cargo? Em plena ditadura militar, quiseram prender Eurípedes, autor grego que viveu há dois mil e quinhentos anos, pode? Será que é interessante para eles ter um povo culto, que saiba analisar, refletir, criticar o que se passa? Quanto mais ignorante for o povo, melhor para os poderosos, aí eles fazem o que bem entenderem, porque o povo não tem argumentos para debater.
Vamos agora falar de palavrões. Para mim, o palavrão que acho mais cabeludo, recebe o nome de censura. E não venha com  papo furado, que estamos no interior, que as pessoas não nos compreenderão, pois estarão perdidos. Ficarão fechados na sua própria carcaça, não irão evoluir, e só prestarão para fazer comerciais de margarina. Mais nada.
Deixo aqui essas questões para que vocês possam refletir e responder. E lutem pelos seus ideais. O caminho é espinhoso, mas  o artista é maior que isso tudo. Não podemos ter preconceitos, não podemos deixar a hipocrisia falar mais alto. Se isso acontecer meu amigo, procure outra profissão. O Teatro não é pra você. Teatro é para poucos. E se você, artista verdadeiro, não valorizar o seu trabalho, quem irá valorizá-lo?  Diga não a Censura. E um último recado para vocês, membros de entidades voltadas à formação cultural e a todos os hipócritas: É proibido proibir.
É só.

Julio Carrara
Enviado por Julio Carrara em 18/06/2006
Reeditado em 18/06/2006
Código do texto: T177659
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Sobre o autor
Julio Carrara
São Paulo - São Paulo - Brasil, 40 anos
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