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Luz, câmera, ação!

A Espanha conheceu o cinema pouco depois da França, inclusive, em 1897, já constava – no catálogo Lumière – assuntos espanhóis. No ano seguinte, a visita da Rainha Maria Cristina e seu filho Afonso XIII à Barcelona, foi filmada com uma câmera fabricada naquele país. Não podemos ainda omitir a existência de Chamon – um dos mais hábeis artesãos do cinema primitivo e que pode ser considerado um dos rivais de Meliès e Zecca – mas, provavelmente, a história da arte cinematográfica espanhola não seria sequer mencionada não fosse a presença marcante de Luis Buñuel (1900-1983).

Embora seu reconhecimento tenha se dado no exterior, em especial, pelos trabalhos realizados em Paris, para onde se mudou em 1925 e, mais, tarde, no México, onde se estabeleceu a partir de 1946, depois de haver trabalhado em Hollywood como dublador, Luis Buñuel realizou um filme na Espanha, Tierra sin Pan, documento de curta-metragem sobre um vilarejo nas montanhas de Hurdes. Este documento é tido como sem antecedência ou posteridade dentro da Espanha, por ser entendido como um modelo de documentário social, onde – por seu estilo direto, duro e lacônico – adquire um vigor que o torna um dos mais veementes protestos contra a injustiça e a miséria em toda a história do cinema.

A força de Buñuel se dá em virtude de seu trabalho não se resumir num mero expediente estético, mas por ser o resultado de um desesperado esforço para a integração total na realidade moral do homem. Nesse sentido, a violência, o sadismo e a ironia são apenas ingredientes de um método de conhecimento do qual consiste a sua fidelidade para com os problemas da vida cotidiana e, é claro, por ser um cineasta, os enfrentou fazendo filmes. Mas a violência em Luis Buñuel não tem nada a ver com o pressuposto de uma violência gratuita e espontânea do indivíduo, ou de uma "natureza" violenta, mas a representa para uma reflexão sobre a maneira como esta é induzida socialmente. Daí, rompe com a identificação cretinizada e bestial do espectador com o personagem, pois sua violência é crítica e faz com que a relação espectador/personagem se estabeleça mediada pela razão.

De sua obra, constam 32 filmes, entre os quais, se destacam: A Via-Láctea (1969), em que dois mendigos fazem a peregrinação de Paris a Santiado de Compostela, onde se utiliza de uma erudita e ao mesmo tempo irônica discussão da doutrina cristã; O Discreto Charme da Burguesia (1972), numa mistura de sonho e realidade, seis burgueses se reúnem diversas vezes para jantar, mas – submetidos a situações insólitas – não o conseguem; A Bela da Tarde (1967), também entre a fantasia e a realidade, mostra uma jovem e bem comportada esposa de um cirurgião parisiense atraída pela prostituição; Esse Obscuro Objeto Chamado Desejo (1977), no qual, numa ação simultânea, um burguês se desespera em busca de seu objeto sexual, enquanto o Grupo Armado Revolucionário Menino Jesus comanda atentados terroristas e, na trilha sonora, uma transmissão de Rádio anuncia o aparecimento de um vírus misterioso; O Anjo Exterminador (1962), mostra as dificuldades do ser humano em superar os preconceitos sociais, por as pessoas estarem presas a uma realidade da qual não conseguem escapar, ao mesmo tempo em que não passam de um rebanho; Tristana, Uma Paixão Mórbida (1970), onde explora morbidez, paixões proibidas, relações insólitas, perversões, rebeldia e passividade.

Apesar de seu humor sombrio e sua sensibilidade anárquica serem consideradas tipicamente espanhóis, Buñuel também traz a marca indelével de seus companheiros do movimento surrealista, na França, como André Breton, Antonin Artaud, Benjamin Péret, Paul Éluard e Louis Aragon, pois estes – do ponto de vista ideológico – também através da irreverência dirigiam uma espécie de afetividade "rancorosa" quase exclusivamente aos burgueses, padres e militares. Quanto ao uso da montagem e da técnica de construção das seqüências, Buñuel utilizava uma linguagem fílmica equivalente à "escrita automática" experimentada pelos poetas surrealistas, ou seja, tomava imagens dos mais diversos contextos, com uma livre aproximação e de acordo com os percursos sugeridos pelo inconsciente e sem o tradicional controle lógico-formal.

Enfim, a contribuição que Buñuel nos dá através do seu "delírio" surrealista, da riqueza, vigor e ousadia de seu cinema, vem nos referendar as palavras de Maiakóvski quando afirmava que "sem uma forma revolucionária não há arte revolucionária".
Wilson Coêlho
Enviado por Wilson Coêlho em 18/06/2006
Código do texto: T177827
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Sobre o autor
Wilson Coêlho
Vitória - Espírito Santo - Brasil, 57 anos
6 textos (337 leituras)
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Wilson Coêlho