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As andarilhas dos céus

“Não é o canto da andorinha, debruçada nos telhados da Lapa, / anunciando que tua vida passou à toa, à toa (...)  és tu mesmo, é tua poesia, / tua pungente, inefável poesia, / ferindo as almas, sob a aparência balsâmica, / queimando as almas, fogo celeste, ao visitá-las... “ (Drummond)

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Depois das chuvas, elas voltarão! Farão festas em grande estilo, integradas aos bandos; igual aos muscicapídeos - como nenhum grupo de homens jamais conseguiu realizar. Dançarão! Muito abaixo dos satélites arrogantes que viajam em companhia do sol e da lua do meu sertão. Cantarão! Sob a batuta do vento fresco da madrugada, planando sob ocultas partituras nos céus. Despejarão! Sobre gravatas e ternos os repúdios da natureza em forma de chuva não anunciada.

Elas são assim: andarilhas despretensiosas nas suas atitudes e sinfonias naturais. O filosofo não escreveu sobre suas sinas, o erudito deu o dito pelo não dito e traçou algumas poesias na leveza da leve plumagem de suas asas poéticas...  Mas é preciso esperar. As chuvas virão primeiro e, como num ritual a chamá-las, anjos de foice dançarão sob a água sagrada da minha terra.

Quando calçadas forem infestadas com fotos, números e falsos slogans; quando os palanques começarem a enganar meu povo; quando o cuscuz e a dentadura forem trocados por votos... elas voltarão. Farão seus ninhos, clamarão com um cântico estrídulo de desespero e enfeitarão os céus de cada cidade. Mostrarão que em suas plumas revoam revoltas de homens do passado;  acusados, condenados e segregados injustamente por mancebos no poder!

E em cada manhã, choverá sobre enganados e enganadores as fezes brancas das andarilhas dos céus. Como em um estoicismo dos que se encontram nos corredores das mortes sociais e apenas esperam a rotina dos dias – gravatas manipuladas sobre camisas de algodão;  o conformismo intermediando a morte da voz, da mente, das mudanças...Ataraxia  diante do destino, nada receando, nada esperando!

Faltou nas centúrias do profeta, a profecia do desespero dos homens numa manhã qualquer de sol: Em terras tropicais distantes, de pouca chuva, choverá, sobre a cabeça dos que não vêem o mundo com um olhar poético, brancas flores fétidas de pássaros em festa, como repúdio às suas falsas e aceitas promessas.

E o homem continua a usar sempre o mesmo sabão na vida: lava o corpo, lava o terno sujo pela andorinha, lava os pés proféticos da periferia... mas não lava a boca enganosa que ao poeta asfixia.

Até mais ler, pelos banhos dos céus da vida

Kal Angelus
Enviado por Kal Angelus em 03/07/2006
Código do texto: T186815
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Sobre o autor
Kal Angelus
Teresina - Piauí - Brasil
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