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Notas de Leitura: Wilde - Um Provocador

Já contei aqui uma vez e repito: tenho a sensação de que livros me escolhem, e não eu a eles. E eu simplesmente A-D-O-R-O quando isto me acontece! Não há muito tempo atrás, num tabuleiro de ofertas de livraria, encontrei uma biografia de Oscar Wilde, escrita por uma competente jornalista chamada Kerstin Decker. Traduzindo livremente para o Português, o título seria: Oscar Wilde Para Apressados. Gostei tanto do texto da contra-capa que não pensei duas vezes em comprar.

Amo essas limpezas de estoque que livrarias fazem de vez em quando. É uma boa oportunidade para encontrar livros bons, e por preços melhores ainda! Eu já havia topado com Wilde antes, na minha adolescência, quando li O Retrato de Dorian Gray. Lembro-me que depois de O Alienista, de Machado, Dorian Gray também me deixou fora de órbita, curtindo o efeito das drogas naturais que o corpo é estimulado a produzir durante leituras assim, tão gostosas ... Em suma: fiquei fascinada com a criatividade nas duas histórias!

Produção de morfina: não havia pensado ainda no prazer da leitura sob este ângulo. Digo: no BOM vício da leitura, claro! -- Melhor dizer BOM HÁBITO, já que ‘vício’ tem conotação negativa ...

Sim, mas voltemos a Wilde, que nasceu em Dublin (capital da Irlanda), em 1854. Filho de pai médico (oculista) e mãe tradutora. E ambos com passatempos no mínimo interessantes: ele escrevia livros sobre Arqueologia; ela coordenava movimentos políticos. Talvez por isso mesmo o jovem Wilde tenha tido passagens marcantes nas instituições que freqüentou -- Trinity College (Dublin) e Magdalen College (Oxford) --, e através de seus escritos tenha dado boas contribuições para a Literatura,  no campo da Estética, e em Filosofia, explorando o fenômeno dos comportamentos centrados na figura do indivíduo: a busca do desenvolvimento máximo -- e uso --  das habilidades do indivíduo como sentido básico da existência. Pelo menos foi assim que eu entendi, após uma breve leitura. Se estiver enganada, por favor corrijam-me, sim?

Porém, do meio para o fim, a vida de Oscar foi marcada por escândalos. Ele foi condenado a dois anos de prisão e trabalhos forçados por irreverência, no tribunal e na vida privada. Wilde era homossexual; e sodomia, termo usado na época, era crime no Reino Unido. Se bem que o crime que o levou à prisão parece ter sido ABUSO DE MENORES, já que o pivô da confusão, o ‘inocente’ Lord Alfred -- o Bosie -- era bem mais jovem que Wilde, seu corruptor. A versão de que o jovem Lord Alfred tenha seduzido o velho Wilde era inaceitável, embora digam as más línguas que foi exatamente isso que se passou. Fofocas à parte, fato é que Oscar cumpriu sua pena direitinho e saiu da prisão física e moralmente arruinado.

Há algo curioso na história deste escritor: a vida imitou a ficção ou a ficção imitou a vida? Quando Oscar Wilde concebeu Dorian Gray (1890), talvez não fizesse idéia de que anos mais tarde encontraria, na vida real, aquele que bem poderia ter sido sua inspiração para Dorian – aqui me refiro a Bosie.

Brás Cubas contou que sua Marcela o amou “por quinze meses e 11 contos de Réis; nada menos”, descrição esta que eu acho perfeita! Já Lord Alfred, esse levou mais tempo ao lado de Wilde: dois anos e meio por nada menos que 5.000 Pfund*. Numa sucessão de idas-e-voltas, alguns biógrafos opinam que Bosie amou Wilde -- à sua maneira, claro --, embora sempre se afastasse quando Wilde não tinha mais dinheiro, e nunca fora visitá-lo pelo tempo em que este esteve na prisão ... Mesmo assim, talvez como a personagem Ana de Assis, a ex mulher de Euclides da Cunha interpretada por Vera Fischer na minissérie Desejo, pudesse Wilde também, ao final, dizer: “Eu não errei, amei”. Foi também para Lord Alfred que Wilde escreveu uma das maiores cartas de amor que a Literatura já teve registro – 50.000 palavras!

Para quem acha que ‘bullying’, ‘mobbying’ ou outro termo moderno para designar boicoite à imagem de outrem é coisa nova, leia a biografia de Wilde e descubra que campanhas deste tipo existem desde que o mundo é mundo. Os escândalos envolvendo a conduta privada de Wilde foram motivo para que a sociedade da época o execrasse. E de forma muito pior do que fizeram com uma das mais importantes militantes na luta pelos direitos da mulher que eu já tive o prazer de ouvir falar: Mary Wollstonecraft -- Eita nomezinho complicado, viu?! sempre dá nó na minha língua :-). Mary viveu entre 1759 e 1797 e foi mãe da escritora Mary Shelley, a autora do romance Frankenstein. Dentre seus escritos mais importantes está um manifesto a favor dos direitos da mulher - A Vindication of the Rights of Woman (1792). Digo que o boicote a Wilde foi muito pior porque, diferente de Mary que cometera o ‘crime’ de gerar uma filha sem ser casada, Oscar foi execrado ainda em vida.

Sebastian Melmoth. Esse foi o novo nome que teve que adotar após sair da prisão, e ter que trocar Londres por Paris. Mesmo assim, a perseguição seguiu até depois de sua morte.

"Inferno aos sodomitas e às mulheres com um passado”. Esse parece ter sido o pensamento reinante na sociedade vitoriana da época, e boa parte dos escritos de Wilde refletem esse  ‘Zeitgeist’.

Oscar é também apontado como um dos escritores mais preguiçosos que a Literatura já teve notícia. Dorian Gray foi seu único romance, e diz a lenda que só o fez por causa de uma aposta com um amigo: agüentaria ficar preso à sua escrivaninha tempo suficiente para escrever uma narrativa um pouco mais longa – ainda por cima uma história policial, distante de tudo o que já havia escrito até então.

Wilde teve uma vida intensa. Contam que era um boa-vida, nunca teve que trabalhar duro -- exceto nos dois anos em que passou na prisão. Costumava dormir até tarde e era apreciador de bebidas caras. Nada disso, porém, diminui a importância de sua obra. Há registros de que, na verdade, Oscar era perfeccionista: revisava minuciosamente seus textos antes de publicá-los. Já encontrei gente que me dissesse que é justamente aí, na revisão, que se esconde o trabalho do verdadeiro escritor, pois requer o refinamento -- com a cabeça -- do que ditou o coração. Um dito comum aqui na Alemanha é: “O diabo se esconde nos detalhes” -- Entenda que a palavra ‘diabo’ nesta frase refere-se à complexidade de algo, de um problema.

Todo ser humano tem vários lados, e Oscar Wilde era bom pai -- sempre muito atencioso com os filhos. Por causa deles -- dois meninos -- começou a escrever suas peculiares fábulas que, na opinião de alguns críticos, sagraram seu estilo irreverente.

Oscar foi também poeta. Se bem que à sua poesia não tive ainda o prazer de ser apresentada. Pode ser que ainda me aconteça, dia desses. Talvez ela, a poesia de Wilde, esteja agora muito ocupada com outros leitores, e que quando tiver um tempo livre, quem sabe me procure... ela, a poesia, e não “a morte, angústia de quem vive ou a solidão, fim de quem ama” ... (?) ...  Talvez fim de quem ama... UNICAMENTE... a si mesmo (?) ...

Distrações à parte, a história de Wilde me caiu às mãos e comecei a lê-la sem grandes expectativas, no mesmo estilo L’ART POUR L’ART que pareceu reger vários atos do Drama** de sua vida. Acredito ter sido essa uma leitura que muito me acrescentou, tanto como pessoa quanto como amante de Literatura, que sou. O que em minha cabeça ficou foi a imagem de seu marcante bom-humor, o que Wilde conservou até mesmo na prisão. Para terem uma idéia, seus biógrafos contam que antes de morrer -- só e pobre, num quarto barato de hotel -- suas últimas palavras foram mais ou menos: “ Ou eu ou esse papel de parede: um dos dois tem que ir!”***

Além de O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde escreveu vários outros textos importantes, incluindo Salomé (1891), peça que também abalou a sociedade da época. Sob identidade falsa (Sebastian Melmoth), Wilde faleceu em 30 de novembro do ano de 1900, em Paris, por conta de uma infecção.


NOTAS:

* No momento, não faço idéia do quanto viria a ser uma tal quantia (5000 Pfund). Só sei que fez muita falta à família de Wilde (mulher e dois filhos).
** Drama – palavra aqui usada no sentido de Texto, Roteiro de Peça Teatral.
*** Wilde vivia implicando com o padrão do papel de parede no quarto de hotel em que viveu seus últimos dias.


FRASES ATRIBUÍDAS A OSCAR WILDE:

“Ich habe mein Genie in mein Leben investiert, in mein Werk nur mein Talent.”

Tradução livre: “Minha genialidade investi em minha vida; em minha obra, somente meu talento.”

“Ich habe geschrieben, als ich das Leben noch nicht kannte, jetzt, da ich den Sinn des Lebens kenne, habe ich nichts mehr zu schreiben.”

Tradução: “Eu escrevia enquanto não conhecia o sentido da vida. Agora que já o conheço, não tenho mais nada para escrever.”

Especulação da autora (Kerstin Decker) sobre o que dissera Oscar Wilde ao morrer e chegar no inferno:
“Nur in die Holle, seufzte Oscar Wilde, ist man vor de Puritaner sicher.”

Tradução livre: “Só no inferno, suspirou Oscar Wilde, fica-se (seguramente) livre dos puritanos.”

E o último, que por estar em inglês, preservo o original (Fonte: Wikipedia.de)

“To the world I seem, by intention on my part, a dilettante and dandy merely – IT IS NOT WISE TO SHOW ONE’S HEART TO THE WORLD – and as seriousness of manner is the disguise of the fool, folly its exquisite modes of triviality and indifference and lack of care is the robe of the wise man. IN SO VULGAR AN AGE AS THIS WE ALL NEED MASKS.”

REFERÊNCIAS:
Kerstin Decker, Oscar Wilde für Eilige – Aufbau Taschenbuch Verlag, 2004 – ISBN 3-7466-2054-6
Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 17/10/2009
Reeditado em 18/10/2009
Código do texto: T1871033
Classificação de conteúdo: seguro

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Helena Frenzel
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