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Ambientalmente Corretos? Pressupostos para a cidadania: Tarefa de Educação

Ambientalmente Corretos? Pressupostos para a cidadania: Tarefa de Educação.
O tema meio ambiente tem ocupado lugar de destaque em todos os setores da vida social, cultural intelectual, enfim. O que seria um aspecto natural da convivência humana no seu habitat, a sua relação com o meio e consigo, tornou-se a problemática do século por que a deterioração das relações com o ambiente, nada mais são que a extensão da mutilação das relações humanas, fato comprovado com as inúmeras contradições étnicas que vemos despontar no dia-a-dia de crises e guerras e onde as tentativas de acordos de paz vem demonstrando que falta algo mais que só “vontade política”.
No atual momento, a crise de sustentabilidade do planeta, precisa tirar do papel e dos discursos (como nas tentativas fracassadas da Rio + 10 em 2002 na África do Sul) as propostas aparentemente perfeitas dos técnicos e observar que projetos precisam de uma parceira inquestionável para a efetivação dos mesmos: a educação.
Segundo a ambientalista Maria do Céu Carvalho Ferreira (2000, pág 10):
“O conceito de respeito ecológico espalhou-se em menos de 20 anos... Paradoxalmente, todavia, a despeito da rapidez da informação contida em seu bojo: – a natureza não é mais coisa distante – o uso dos recursos naturais é perdulário e irresponsável, em todo planeta, aguçando o desafio de superar, minimizar o atual estado de coisas diante do prognóstico sombrio com que nos defrontamos: temos apenas uma ou duas gerações para mudar o panorama atual”.
Depois da frase do ambientalismo romântico (década de 70) sucede-se a tensão conceitual de apropriação institucional da questão ambiental. Percebeu-se que os hippies e os poetas tinham razão: a natureza tinha e tem um preço.
A globalização que veio produzir uma aceleração e remodelamento em aspectos como tecnologia, organização social, vem trazer também a era da chamada educação ambiental, relacionando o conceito de sustentabilidade e de sociedade transnacional.
Nesse contexto, onde processos produtivos devem realizar-se segundo o princípio de maximizar a ação de fluxo da matéria e energia, a educação ambiental já penetrou no coração do ciclo tecnológico. Todavia ainda está muito distante de propiciar mudanças efetivas a nível macro, pois o objeto de atuação é extremamente amplo, falando a linguagem da “alfabetização ecológica” (David Orr, 1989) e trazendo implícita a responsabilidade com a saúde mental coletiva.
“No início do século XX, o escritor H.G.Wells dizia que “o futuro será uma corrida entre a entre a educação e a catástrofe”. No momento, acho que estamos perdendo a corrida”. Arthur Clarke. (Maria do Céu, apud). Complementando o pensamento de Wells e Clarke o professor ministro Cristovam Buarque que fala de uma “esquina civilizatória” que identifica uma sociedade insustentável, em rota de colisão, que obrigará a escolher novos rumos para a humanidade (Buarque, 1989).
Crise de valores, violência, drogas, escândalos políticos, são alguns aspectos da crise generalizada que perneia o mundo globalizado, fazendo parte do cotidiano de milhões de pessoas no mundo inteiro, chegando às nossas crianças, enredando os jovens desagregando a família, enfim, desafiando o ser humano em sua formação, desafiando a sobrevivência da espécie, uma vez que a proliferação dessa “desagregação atinge todos os níveis, todas as classes sociais”. Não existe barreira econômica que detenha a contaminação e a banalização dessa doença social que nada mais é do que desdobramento de uma crise ambiental.
Assim considerada, descartamos a idéia de meio ambiente restrito à natureza, ao meio físico, Natural. Ele é muito mais: é econômico, tecnológico, sociológico, jurídico, psicológico, filosófico, enfim, é a inter-relação do ser com o seu cotidiano e com seus parceiros de habitat. Capra (1982) coloca isso quando aponta que tudo depende de uma concepção sistêmica: quando o mundo é visto de forma integrada, perceber-se o quanto tudo está intimamente ligado, interdependente. Recursos naturais, criminalidade, desemprego e inflação são o câncer de uma sociedade que sofre da crise da percepção.
“Crise, do grego KRÍNEIN – momento de discernimento, momento de decisão, atinge a todos atualmente como indivíduo, como sociedade, como civilização, como momento decisivo”, completa Capra. (Maria do Céu Carvalho Ferreira 2000).
Como sociedade, atores e ao mesmo tempo vítimas da apropriação inescrupulosa dos recursos naturais que representa o ritmo desenfreado da busca pelo consumo, já identificado, agora a missão é formar cidadãos comprometidos com o resgate de atitudes coerentes para o convívio politicamente (ambientemente) correto no meio.
E aí vem o grande desafio: em que modelo pauta-se a formação da cidadania para a convivência num meio politicamente correto, uma vez que a tecnologia na educação não tem demonstrado resultados concisos nem tecnicamente falando (fracasso do sistema escolar) e nem no que diz respeito ao ser humano integral, criativo e autônomo?
A escola em meio a tantos modelos importados, mantêm-se em sua postura tradicional de transmissão de conteúdos pressupostos, organizados num saber verticalizado que distancia o aluno enquanto sujeito ativo na construção do seu próprio aprender.
No mundo que não conseguiu romper com a valorização do cientificismo e da tecnologia, enquanto bases das grandes conquistas humanas, despertar a conquistas humanas, despertar a consciência de que fazemos parte da natureza, representa um grande desafio. A convicção de que a educação ambiental é necessária, firmou-se nos meios científicos, acadêmicos e até políticos, buscando-se nela as soluções para os problemas ambientais. “A educação ambiental entra em cena e é apresentada como uma salvação”. (Grun, 1996). Entretanto é conveniente descer aos seus fundamentos estruturais, a partir do próprio termo, visando entender o nosso momento histórico, conforme coloca apropriadamente este autor:
“o próprio predicado ambiental é esclarecedor e revela inúmeros problemas e constrangimentos conceituais. Como decorrência dessa predicação, uma das primeiras coisas que nos vem à mente é que se existe uma educação que é ambiental, deve existir uma educação não ambiental em relação à qual a educação ambiental poderia fazer referência e alcançar sua legitimidade. Ora, isto é no mínimo muito estranho... Como podemos ter uma educação não-ambiental, se desde o dia de nosso nascimento até o dia da nossa morte, vivemos num ambiente?”
E o autor continua: a natureza é um conceito negativo da teoria educacional e a única maneira de entendê-lo é por meio de sua ausência... A educação ambiental surge como uma necessidade quase inquestionável pelo simples fato de que não existe ambiente na educação moderna. Tudo se passa como se fossemos educados e educássemos fora de um ambiente (apud, Maria do Céu Carvalho Ferreira).
A distinção entre educação ambiental e educação não existe e o professor José de Ávila (Coimbra, 1992) reforça essa assertiva quando afirma que educação ambiental é uma expressão pleonástica, pois toda educação é por natureza ambiental, devendo ter como base a relação harmoniosa dos seres humanos entre si e com o maio ambiente.
Mas a própria concepção de ambiente é parcial para a maioria das pessoas que a restringe apenas ao universo dos seres contidos na biosfera, sejam plantas, animais, minerais etc. Ou mais recentemente a questão do lixo e da poluição. Essa noção para alguns autores tem origem no antropocentrismo explícito no nosso cotidiano: escola, religião, enfim, quando propagamos que o mundo, o planeta é nosso. Para Maria do Céu Carvalho Ferreira (2000) o homem julgando-se superior aos outros seres, coloca-se numa posição diferenciada, onde chega a classificar os animais entre “úteis e noviços”, as plantas também seguem as normas do padrão da estética ou da utilidade.
Essa visão é acentuada segundo alguns autores pela religião (principalmente a Católica) que delibera a hegemonia do ser humano no mundo, diante das interpretações dos textos sagrados.
Galileu, um dos representantes do mecanismo que sustenta a visão antropocêntrica, as qualidades primárias são aquelas capazes de ser quantificadas, mensuradas e submetidas à manipulação aritmética, todo o mais, a sensibilidade pertence ao domínio das qualidades secundárias e subjetivas (Grun, 1996). Com Bacon que preconiza que a “ciência é poder” a cisão retalhadora entre homem e natureza torna-se irreconciliável e nem “Deus” torna-se maior que o homem.
Quando a razão cartesiana distingue sujeito e objeto e assegura a legitimidade dos métodos científicos, nesse processo, há também um afastamento definitivo do “primitivo”, “selvagem” como algo inconciliável com a condição “civilizada”.
A cultura renascentista com sua “valorização à natureza”, nada tem a ver com a natureza exterior, sim com a natureza interior concernente ao homem e seus novos valores. O narcisismo que ora dele se apodera vem nos séculos posteriores, com o ideário das luzes e no Capitalismo industrial, ter seu momento de apogeu. A natureza agora, ainda mais distante, é apenas um meio que ao seu bel prazer, ele utiliza, aproveitando-lhe os possíveis recursos e dissecando-se como a ela disseca.
Chegamos no nosso pequeno passeio histórico, à etapa da Revolução industrial. Nesse momento, descobre de maneira mais sistêmica a forma com que os recursos naturais seriam necessários para a realização dos seus objetivos. Aí vamos do vapor à energia elétrica usando e abusando dessas matérias-primas tão fartamente aí encontradas. Complementação, suplementação, implementação? Qual a relação do homem com a natureza a partir daí?
“O homem é um animal que visto de fora não se diferencia dos outros. Ele só se diferencia quando é visto por si mesmo. A única coisa que diferencia o homem do animal é que ele sabe-se animal e, no entanto acha que é filho de Deus” (Profº Roberto Lopes).
O pensamento do professor é a resposta à questão explicitada acima. Complementa-se o que se acha incompleto, implementa-se o que se quer executar e suplementa-se o que se adiciona. O homem não se sente parte do todo que é a natureza e busca a todo momento corrigi-la e adequá-la ao que Albert Einstein já preconizava:
“um ser humano é uma parte limitado no tempo e no espaço de um todo por nós chamado de ‘universo’. Ele tem pensamentos e sentimentos como algo separado do restante – uma espécie de ilusão de ótica da consciência. Essa ilusão é como uma prisão para nós restringindo-nos a decisões pessoais e ao afeto por algumas pessoas mais próximas. A tarefa que nos cabe é libertar a nós mesmos dessa prisão, ampliando o nosso círculo de compaixão para abraçar todas as criaturas e toda a natureza em sua beleza”.
Esse é o mesmo Einstein que desafia pesquisadores, cientistas, médicos e psicólogos na sua leitura da física do universo. Na sociedade pós-industrial que atingiu seu clímax nos meados do século XX, quando a máquina ultrapassa o ser humano e a biotecnologia produz avanços inimaginários que estão mudando os prognósticos do século XXI, o conflito dentro da sociedade predomina incentivando o utilitarismo, o individualismo e aumentando o fosso entre as camadas sociais, é difícil imaginar que o grande responsável por esses progressos técnicos e científicos, tinha essa visão holística.
O homem moderno e o homem contemporâneo, são respectivamente o pai e o filho da sociedade do lucro, da dependência do trabalho e no dizer de Erich Fromm (1966):
“Alienado de si mesmo e da natureza e de seus semelhantes, o homem moderno transformou-se num artigo; experimenta suas forças de vida como um investimento que lhe deva produzir o máximo lucro alcançável sob as condições de mercado existentes. As relações humanas são essencialmente as de autômatos alienados, cada qual baseando sua segurança na posição mais próxima do rebanho e em não ser diferente por pensamentos, sentimentos ou ações...”
o pior disso tudo e que quer nas sociedades economicamente mais fortes, quer nas mais frágeis aumenta a distância entre o que o homem aspira ser e o que pode conseguir na realidade, porque o seu conhecimento e a sua especialização estão sempre aquém da velocidade das mudanças. A angustia torna-se permanente pois a qualquer momento pode ser substituído, excluído ou atropelado pela máquina e destruído em seus valores e princípios.
Segundo a ambientalista Maria do Céu Carvalho Ferreira, de todas as espécies da terra, apenas o homem contemporâneo está perdido, pois escravo da máquina e em guerra contínua consigo mesmo, desrespeitando as normas biosféricas distancia-se totalmente da espiritualidade e da paz criativa, pois depende, cada vez mais virtualmente, de sistemas de informação eletrônicas, recebendo uma vasta desordem de bytes de informação no campo mental coletivo que o transformam em robô anestesiado em sua capacidade de agir e reagir.
Embora a questão ambiental seja assunto que já faz parte do cotidiano, as pessoas ainda não se mobilizam em larga escala para a resolução da questão. É como se fôssemos espectadores de um filme da qual não tivéssemos nenhuma participação, somente algumas lembranças e/ou associações.
Segundo o Professor Pieter Winsemius, para um assunto relevante ter solução, como a sustentabilidade ambiental, precisa “existir” um elevado peso político. Havendo peso político, os atores entram em discussão de fórmulas possíveis para a solução, chegando a acordos e mudanças antes inexeqüíveis. “Como ainda são poucos os políticos que pensam efetivamente no sentido de segurar esse peso à questão ambiental, resta a alternativa de ‘lavar as mãos’, ou enfrentá-las através da educação, porque ‘o único capital inextinguível é o capital social e humano. O conhecimento humano é de efeito expansivo e sinérgico’ (Oliveira, 1999). Ao ser compartilhado, o conhecimento faz crescer a mobilidade social de quem o da e quem o recebe, sendo o único dos recursos produtivos que se multiplica com pequenos investimentos estruturais, se comparados aos resultados potenciais”. E alerta: “o conhecimento, suficiente ou não, será uma das maiores ameaças à sustentabilidade dos próximos anos” (apud Ferreira, 2000).
O discurso da educação ambiental se multiplica produzindo técnicos, especialistas, educadores que por vezes em sua postura de observadores acadêmicos distanciam-se do meio-ambiente que são o seu objeto de trabalho. Ora, se a função do educador ambiental é facilitar as relações do homem com o meio ambiente, não pode ele mesmo pôr em seu caminho obstáculos para essa tarefa. Os educadores ambientais que surgem, às dezenas, sequer percebem-se como natureza, consideram-se, ao contrário, especialistas de uma ciência nova que lhes dá por isso mesmo a superioridade da “descoberta”.
Samuel Murger Branco coloca que a grande dificuldade em relação à ética da natureza reside na questão peculiar de que o ser humano, ao contrário de todos os demais seres, não se comporta como espécie, mas sim como indivíduo.
E é justamente esse comportamento que pode levá-lo ao caos ambiental que provocará o fim de sua espécie. Branco (1989):
“... o comportamento de um homem é individual, consciente e de livre iniciativa, ou seja, a consciência e a vontade não são da comunidade, mas sim de cada indivíduo em particular, podendo diferir de um para outro. A sociedade humana e por isso essencialmente diferente das outras, devido ao aparecimento da consciência e da deliberação ao homem”.
Deliberação essa que deveria por em relevo o papel da educação, comutas de que a consciência e a vontade pessoal é que podem disseminar as atitudes que vão redimir ou condenar o homem de si mesmo por ser espécie tão e quanto mais nociva para o planeta, quanto as que ele catalogou.
“O tipo de educação que nos salvará da catástrofe não é apenas uma questão de divulgação da informação, pois o planeta está inundado por elas. A educação necessária é, na verdade, a partilha da sabedoria.”
David Roodman
 
Referências Bibliográficas
CAPRA, Fritjof. O Ponto de mutação. Ed. Cultrix. São Paulo. 1982. 445p.
BUARQUE, Cristovam – Na Fronteira do Futuro – O Projeto da UNB. Ed. UNB. Brasília 1989. 108p.
FERREIRA, Maria do Céu Carvalho – Educação Ambiental. Círculo Experimental de Lençóis: uma abordagem integrada dos problemas sócio-ambientais. CRA-BA. 1997.
FERREIRA, Maria do Céu Carvalho – Educação Ambiental e Sensibilização. CRA-BA. 2000.
GRUN, Mauro – Ética e Educação Ambiental: a conexão necessária. Papirus Editora. SP. 1996.
WEILL, Pierre – A mudança de sentido e o sentido da mudança. Ed Rosa dos Tempos, Rio de Janeiro. 2000.
Dulcilene Soares
Enviado por Dulcilene Soares em 16/07/2006
Código do texto: T195229
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Sobre a autora
Dulcilene Soares
Gandu - Bahia - Brasil, 46 anos
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