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Demagogia Social Mundial (27/01/2006)

          Todos têm acompanhado, penso eu, na tragédia que envolveu o grupo de mineiros que estava indo para Venezuela participar do Fórum Social Mundial. Sem dúvida, foi uma grande fatalidade. Mas, hoje quero discutir o fórum em si.

          Sou totalmente a favor de um encontro com as finalidades deste fórum. Discutir a pobreza, os meios para erradicá-la, as organizações que ditam os rumos da economia – e que de certa forma são responsáveis, ou irresponsáveis, pelos acontecimentos a nosso redor – e tantos outros temas polêmicos e importantes que servem de pauta. Tal encontro é de extrema importância. Porém,
esse em especial tem um tom crítico maior que os outros, o que o torna menos imparcial também.

          Existem rumores, consistentes, de que grande parte do Fórum esteja sendo bancada pela Venezuela. Questionado sobre tal assunto, Chávez - alguém que admiro muito, tanto por sua história de vida, suas lutas, quanto por sua convicção política e a transparência com que fala a seu povo – disse que o Estado arcou apenas com parte desse montante, cabendo a outra a empresas venezuelanas. Até aí tudo bem, se essas outras empresas não fossem estatais, muitas ligadas ao ramo petroquímico. Não há
nenhum mal em um governo esquerdista, cujos ideais se casam lindamente com os do Fórum, arcar com as despesas. Mas, isso tira a imparcialidade do encontro. A Venezuela obteve grandes vitórias com Chávez no poder, mas está pior do que antes. O desemprego aumentou, devido à falta de investimentos externos, falta essa devida à instabilidade do governo. A pobreza, mesmo com todos os programas de inserção, incentivo, distribuição de terras, alfabetização, etc, também aumentou, o que é preocupante.
Um fator a favor do presidente é sua alta popularidade, que conferiu ao seu partido todas as cadeiras do parlamento, e sua principal atividade econômica: petróleo. Talvez, se não houvesse petróleo, o país não estaria como está hoje, mas pior. O povo o saúda, ele crítica a miséria e os países opressores. Critica abertamente os EUA com seu imperialismo despótico. Concordo indubitavelmente
com suas críticas. Porém penso que uma nação, na qual o ato de se andar na rua causa medo, que possui muitos miseráveis, e cuja economia só tem um ramo de atuação, não se pode dar ao luxo de bancar todo um evento com as proporções do FSM. É muito dinheiro gasto e, o pior, que não gera retorno para a sua população. Sim, podem dizer, o turismo vai render muito, mas não a ponto de alcançar os números do fórum.

         Mais uma vez: sou totalmente a favor de Hugo Chávez, de sua linha política, de seus pensamentos e de sua pessoa como homem. Entretanto, esquematizar, planejar e arcar com todos esse evento, no qual muito se critica os EUA, FMI, a pobreza na África, a posição da América Latina no cenário global, a indústria pirata chinesa, muito se fala, mas, na prática pouco se muda, pois só falam, discursam, não havendo a presença de “autoridades” nesse evento, digo aquelas ilustres pessoas que realmente comandam a economia, como a cúpula da UE, diretores dos grandes bancos do mundo, e mesmo a equipe do Federal Reserve e Bush. Por que não? Já pensaram o quão produtivo seria um debate assim, aberto a todos, a estudantes universitários, que confrontassem pessoas e políticos tão diversos com tão variados temas.

          Por último, não basta só pensar como mudar a política de produção mundial, querer estabelecer um Socialismo Utópico quando todos seriam felizes e saltitantes. Enquanto isso não chega, façamos alguma coisa! Ajudemos a creche de nosso bairro, levemos brinquedos de natal para as crianças carentes, ajudemos as cooperativas de coleta seletiva, ajudemos uma senhora a atravessar a rua; enfim, há tantas maneiras de ajudar, ser útil á sociedade, e tantas tão fáceis, tão rápidas, que, às vezes, são melhores do que falar, falar e falar. Pensar grande, questões filosóficas e difíceis, é bom, nos sentimos mais inteligente, melhores, eloqüentes. Ajudar quem realmente precisa, também. Deixar de botar a culpa no governo, nos juros, no Lula e ajudar uma pessoa que precise, seja com um cobertor, um saco de arroz também é bom, muito bom. Não estou querendo ser demagogo, mas é exatamente isso que ocorre.

          Muitas vezes, esquecemos de olhar ao redor e passamos a olhar somente alto e para frente. Esquecemos de cumprimentar o porteiro, o lixeiro, a mulher que limpa o piso, a que serve o café, e tantas outras Marias e Josés, que daria para encher o Maracanã. Tudo seria tão fácil se todos se cumprimentassem, dissessem “Bom dia!”, “Boa tarde!”, “Como vai o senhor?”. Mas, tenho certeza que ninguém me escutará. E, quem o fizer, vai fingir que não escutou e sair andando, sem saber o nome do cobrador de ônibus e nem da garçonete. É isso, vivemos em um mundo de hipócritas, de mentirosos, demagogos, e outros tantos monstros. Agora sei porque Neo escolheu aquela pílula.
brunão
Enviado por brunão em 20/07/2006
Código do texto: T198439
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Sobre o autor
brunão
Aguaí - São Paulo - Brasil
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