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Construindo um discurso perverso...



 

                                              08.03.06

 

Quando comecei a ler os scraps do meu orkut não acreditei. Dezenas e mais dezenas de mensagens homenageando as mulheres. Tudo bem, hoje é comemorado o dia internacional da mulher. Contudo, o que me deixou perplexa foi o conteúdo de cada mensagem.

Além dos habituais parabéns e felicitações os textos pintam uma mulher forte, destemida, poderosa, vencedora. Uma mulher que enfrenta TPM, gravidez, filhos, trabalho, e sai como rainha desta batalha diária.

Uma mulher que é capaz de colocar o homem aos seus pés. Uma diva, uma prima-dona encantadora. Uma mártir que se libertou. Uma mulher conquistadora de espaços, direitos, guerreira. Uma mulher onipotente, que dá carinho, amor, cuida, vence barreiras. Uma mulher que dá a luz ao homem e por isso é quase suprema. Uma mulher que é inteligente, que conquista cada vez mais o campo dos homens. Uma mulher que suporta dificuldades, que carrega fardos, mas mantém a alegria, o contentamento e o amor. Uma mulher que sorri quando quer gritar; canta quando quer chorar. Uma mulher que luta por aquilo que acredita. Uma mulher que se ergue contra a injustiça. Uma mulher corajosa, que enfrenta leões, que é uma leoa. Uma mulher cheia de capacidades e cumpridora de muitos deveres. Uma mulher linda que malha para manter seu corpo e sua beleza. Uma mulher que desempenha infinitos papéis com competência. Enfim, uma mulher que pode tudo, porque dá conta de tudo.

Pára. Pára tudo!!! O que é isso, minha gente? Esse é um retrato forjado da mulher. Um discurso para acreditarmos que somos as meninas superpoderosas. Para benefício de quem?

Não somos robôs! Esse é um retrato que serve bem ao capitalismo, à produtividade, ao lucro, às novas tecnologias.

Estamos sim nos tornando escravas e não conquistando direitos como se aparenta. Somos frágeis sim. Somos delicadas e sensíveis. Somos humanas e com muitas falhas, ainda bem.

Onde estamos colocando nossa dignidade? Se somos tão espertas e inteligentes, como os discursos nos apresentam, por que estamos sofrendo tanto diante da vida que estamos levando? Que sabedoria é essa que nos adoece diariamente? Que liberdade é essa que rouba nosso tempo, nosso prazer?

Você, mulher, está feliz com a sobrecarga de papéis? Que batalha é essa que queremos vencer? Você tem idéia do motivo pelo qual está lutando? Vamos acordar mulheres. O que estamos construindo ao repetir discursos de um poder que não detemos?

Não se trata de guerra entre sexos, mas somos muito ingênuas isso sim. Ficamos lisonjeadas quando nos dizem que somos tão potentes, tão corajosas etc. Somos refém da nossa vaidade, dessa aparência ilusória que acreditamos possuir.


A que preço? Qual é o custo dessa onipotência? Somos ainda aquelas que se alegram com uma rosa vermelha e que choram ao final dos contos de fadas.


Quantas de nós estamos ensinando nossos filhos, meninos, a brincarem de casinha desde pequeninos, a cuidar da boneca, a lavar, passar e cozinhar? Depois reclamamos de maridos que não ajudam em casa.


Decidam-se mulheres, o que vocês querem? O lar ou o mundo? Ah, queremos tudo, né! Ensinaram que somos super. Estamos repetindo e decorando um discurso perverso, estimulando uma autoflagelaçao. Para que, hein? Alguém pode me responder?

Estamos cada vez mais sós, procurando uma auto-suficiência que nos coloca no açoite. E assim será enquanto acreditarmos em tudo que nos dizem, sem refletir se queremos ou não seguir por ali... Massas de manobra com o próprio consentimento. Isso sim é cruel. Viva o dia do ser humano mulher e suas diferenças, já marcaram a data? Essa eu quero brindar!

Solange Pereira Pinto
Enviado por Solange Pereira Pinto em 03/08/2006
Código do texto: T208187
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Sobre a autora
Solange Pereira Pinto
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 49 anos
59 textos (37618 leituras)
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Solange Pereira Pinto