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EDUCAÇÃO E TRANSFORMAÇÃO NA SOCIEDADE

EDUCAÇÃO E TRANSFORMAÇÃO NA SOCIEDADE



                                                                                            Deijanete Pereira da Silveira



 “A escola é uma instituição social que trabalha na formação do sujeito para a cidadania.”

Deijanete Pereira



RESUMO

Este artigo tem como finalidade compreender a organização escolar enquanto instituição social, possibilitando uma reflexão sobre o papel da educação ao longo da história. Surgem a partir dessas reflexões as tendências, cada uma buscando resolver os problemas. E ainda, traz a visão de alguns teóricos como Cortella, Freire, Santomé, Saviani, Giroux..., dando suas contribuições sobre a Educação e Transformação na Sociedade, bem como, provocando o leitor a repensar constantemente suas práticas e ações na busca pela transformação social que deve primeiramente acontecer em si mesmo.




Palavras-chaves: Educação. Transformação. Sociedade.


A organização escolar enquanto instituição social foi criada para servir como um dos instrumentos de transmissão da cultura. Nesse sentido, a primeira estrutura escolar no Brasil foi organizada pelos jesuítas, que além de dominar toda e qualquer forma de educação no Brasil, durou muito tempo.
Desde 1530 até metade do século XVIII, as iniciativas de escolarização se construíram sobre a égide jesuítica. A ação educativa tinha como principal conteúdo transmitir aos colonos as formas e modos de vida da grande metrópole (Portugal).
Com o advento da República e a urbanização do país, a educação escolar começa a se disseminar no Brasil. As poucas escolas públicas eram acessíveis apenas às famílias de classe média, as ricas, enviavam os filhos para os colégios particulares que funcionavam em regime de internato. Nesse sentido, a educação era privilégio dos nobres. Aos filhos de famílias com baixo poder aquisitivo, restava vaga apenas para aqueles que não fossem os mais velhos e nem mulheres, uma vez que, aos filhos mais velhos cabia a obrigação de dirigir os negócios da família e às mulheres, apenas aprender boas maneiras e prendas domésticas.
Somente por volta da segunda metade do século XX, a escola brasileira inicialmente elitista e centralizadora, começa a atender a outros grupos sociais que dela foram excluídos ao longo da sua história, graças às inúmeras reivindicações e pressões anteriores, como afirma Cortella (1988).A escola pública, somente nos últimos 40 anos, tornou-se de fato, pública passando a receber grandes massas populacionais dentro de si que trouxeram as aspirações, os desejos de um ensino em que pudessem reconhecer a sua identidade...
Nesse contexto, mesmo pautado nos ideais de uma escolarização básica, continua promovendo nas escolas um conhecimento sistematizado, privilegiando uma cultura padronizada. Ou seja, a cultura de atores sociais brancos, masculinos, de classe média, considerados “normais” prevalece, muda-se a música, mas a letra continua a mesma.
Diante do exposto, com o aumento da presença de diferentes grupos sociais no interior das escolas, surgiram as discussões acerca de se repensar a instituição escolar no seu fazer e no seu dizer. Com isso, visando suavizar a discriminação, os governos começam a instituir na escola situações em que, acreditavam estar valorizando esses grupos e recuperando suas culturas historicamente negadas. Um exemplo disso é o de dedicar um dia no ano letivo para discutir questões como consciência negra, falando das formas de opressão de mulheres e crianças etc.
Porém, para Santomé (1995):

ao realizar esta atividade a escola está trabalhando com o “currículo turístico”, ou seja, situações didáticas são realizadas na escola esporadicamente por força de uma data comemorativa, sem relação com uma política consciente de que o espaço escolar é um lugar que possibilita os alunos o acesso a diferentes concepções de um mundo e de uma sociedade.

Posto isto, percebe-se, que a educação sempre foi imposta: primeiro pela igreja, depois pelo Estado. Nesta perspectiva, surgiram várias tendências pedagógicas com o objetivo de orientar a prática docente dos professores, coordenadores, gestores..., cada corrente com a proposta de “resolver” os problemas da educação que a própria história se encarregou de criar.
Assim sendo, a primeira delas é a tendência redentora, segundo a mesma, a sociedade é um todo orgânico e harmonioso. A educação é vista como a salvação para todos os males e tem autonomia para interferir de forma absoluta, mantendo e conservando o todo social. Entre os adeptos dessa concepção está Comênio e os enciclopedistas, que também consideram a sociedade como um todo orgânico e que deve ser mantido e restaurado através da educação das crianças e jovens.
Esta tendência, entretanto, se faz presente ainda hoje, quando ouvimos professor dizer “ eu não estou nem aí com a educação, fico aqui somente até arrumar uma outra coisa” ou “ graças a Deus, já estou quase aposentando” ..., estando em consonância com a fala de Dermeval Saviani quando ele denomina de teoria não crítica, devido ao fato de não levar em conta as necessidades da sociedade da qual está inserido (a). Ou seja, a tendência redentora, não propicia reflexão, criticidade, apenas o conformismo.
A segunda tendência é a reprodutivista (reproduz o aparelho do estado). Denominada por Saviani de teoria crítico-reprodutivista, ela pretende apenas demonstrar como atua a educação dentro da sociedade, não propõe um modelo pedagógico, mas analisa o existente. Assim, de acordo com os estudiosos dessa tendência, com o advento do capitalismo na sociedade, a escola se tornou o principal instrumento para a reprodução, de um lado, ensinando os saberes práticos e de outro, reproduzindo a cultura da classe dominante. Ou seja, a escola trabalha com “o saber fazer” e o “saber comportar-se”, a fim de tornar o aluno mais competente para manter uma sociedade determinada.
Ao contrário da primeira tendência, é a sociedade que institui a escola para seu serviço, “dita as regras”, é o que acontece hoje na maioria das escolas: os professores recebem os pacotes prontos para serem executados, tanto das secretarias municipais quanto do próprio MEC (Ministério da Educação e Cultura) através dos currículos ocultos; os alunos, são copistas, memorizam os conteúdos sem nenhuma reflexão professor / aluno com relação as necessidades reais do contexto, e, ainda se propagam um discurso vazio,  de que está formando um sujeito crítico, reflexivo e autônomo se nem mesmo a própria escola tem autonomia de montar a proposta pedagógica e trabalhar projetos voltados para a realidade local.
A terceira tendência coloca a educação como transformação social, ou ainda, como uma possibilidade de mudança. Nesta perspectiva, os teóricos que discute essa tendência, consideram a possibilidade de agir a partir dos próprios condicionantes históricos. Denominada de crítica, por Saviani ela trabalha para realizar esse projeto na prática. Porém, que concepção de educação a escola adota, vai depender do tipo de projeto que vai ser desenvolvido: ou cria condições para uma educação transformadora, autônoma, libertária ou apenas recebe receitas prontas, mantendo uma educação conservadora e submissa.
Neste aspecto, Freire argumenta: uma educação que não promove a emancipação, reduz o ser humano ao “autômato”, que constitui a negação de sua ontológica vocação de ser mais. Uma concepção de homem como ente “vazio” a quem o mundo “enche” de conteúdos, constituído numa consciência particularizada, mecanicistamente compartimentada:

Na concepção “bancária” que estamos criticando, para a qual educação é o ato de depositar, de transferir, de transmitir valores e conhecimentos, não se verifica nem pode verificar-se esta superação. Pelo contrário, refletindo a sociedade opressora, sendo dimensão da “cultua do silêncio” a “educação bancária” mantém e estimula a contradição. ( FREIRE, 1987, p.59).

Dessa forma, educação é a ação de educar. Educar é fazer com que o sujeito adquira conhecimentos necessários para viver em sociedade. Transformação, é passar alguma coisa de um modelo para outro, é mudar etc.
Nesse aspecto, Freire está atento para os limites da educação como prática de liberdade. Para ele, a educação é modelada pela sociedade segundo os interesses dos que detêm o poder, e sozinha não vai instruir uma sociedade emancipada. Desse modo, Freire enfatiza que embora a educação não seja a alavanca da transformação social, a transformação em si, é um evento educacional:

Sei que o ensino não é a alavanca para a mudança ou transformação da sociedade, mas sei que a transformação social é feita de muitas tarefas pequenas e grandes, grandiosas e humildes! Estou incumbindo de uma dessas tarefas. Sou um humilde agente da tarefa global de transformação. Muito bem, descubro isso, proclamo isso, verbalizo minha opção. (FREIRE, 2001, p. 60)

No contexto atual, o desafio da educação e transformação social é estimular, nas circunstâncias mais diferentes, a capacidade de intervenção e transformação na perspectiva social de emancipação humana contemplando a diversidade cultural. É necessário, portanto, criar condições estratégicas para tal, caso contrário terá que concordar com as palavras de Althusser “o poder dominante é tão forte, que não há possibilidade nenhuma para a escola trabalhar pela sua transformação” .
Assim, diante dessas reflexões sobre a educação e transformação na sociedade, observa-se, que os projetos precisam buscar uma saída teórico-prática que responda aos desafios e as possibilidades postas pelas novas configurações humano-sociais assegurando a identidade de cada sujeito envolvido resultante de sua intervenção na natureza. Pois antes de querer mudar alguma coisa é preciso mudar a si mesmo.
Portanto, a educação como transformação social não é tão fácil de ser instituída, pois a educação não é por si só um fator determinante de transformação. No entanto, mesmo diante de todos os limites, ela vem ocorrendo a partir de diferentes formas de luta e manifestações de sujeitos sociais nos diferentes lugares, sentidos, povos, culturas em defesa um mundo mais justo e que em um estado de direito todos possam exercer e gozar de sua cidadania. O que se busca, é tornar o político pedagógico, utilizar práticas que incorporem interesses transformadores, problematizando o conhecimento, utilizando o diálogo crítico e afirmativo, enfim “argumentando em prol de um mundo qualitativamente melhor para todas as pessoas”. (GIROUX, 1997, p.163)

REFERÊNCIAS

CORTELLA, M. A escola e o conhecimento: fundamentos epistemológicos e políticos. São Paulo: Cortez. Instituto Paulo Freire, 1988.
FREIRE, Paulo. Educação como prática de liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança. Um reencontro com a pedagogia do oprimido. 1997, Paz e Terra. São Paulo.
FREIRE, Paulo. Direitos humanos e educação libertadora. In: FREIRE, Ana Maria Araújo (Org.) Pedagogia dos sonhos possíveis/Paulo Freire. São Paulo: Editora UNESP, 2001.
FREIRE, Paulo. Discussões em torno da pós-modernidade. In: FREIRE, Ana Maria Araújo (Org.) Pedagogia dos sonhos possíveis/Paulo Freire. São Paulo: Editora UNESP, 2001.
GIROUX, Henri A. Os professores como intelectuais – rumo a uma pedagogia crítica da aprendizagem. Edt. Artes Médicas, Porto Alegre: 1997.
Módulo: Educação e Transformação na Sociedade do Programa de Pesquisa e Pós-graguação da Faculdade João Calvino.
SANTOMÉ, J. As culturas negadas e silenciadas no currículo. In: SILVA. T. (Org.). Alienígenas na sala de aula. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995.



Deijanete Silveira
Enviado por Deijanete Silveira em 17/03/2010
Código do texto: T2143223
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